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Atualizado às: 16 de novembro, 2007 - 08h25 GMT (06h25 Brasília)
 
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Eram os deuses diabéticos?
 
Ivan Lessa
Erich von Däniken, tremendo sucesso de venda nas livrarias há três décadas, ou por aí, ganhou um dinheirão com seu livro especulativo, Eram os deuses astronautas?.

Em princípio, não leio nada – livro, nota de jornal ou email – que acabe em interrogação, que me faça perguntas. Se eles lá não sabem, não me venham com sua ignorância para meu lado.

Na verdade, se verdade havia e há nas ponderações do autor suíço, o que ele estava fazendo era levantando o maior número possível de especulações, lendas, contos, fantasias, paranóias e visões lisérgicas a respeito daquilo que todos nós amamos: um bom mistério.

Aquelas estátuas na ilha da Páscoa, as pirâmides no Egito, os monumentos aztecas no México, os tobogãs incas no Peru, para o bom von Däniken, deram-lhe uma gorda fortuna, hoje sabiamente investida, afirmam fontes fidedignas, em imóveis e terras destituídas de astronautas ou alienígenas.

O rumoroso autor do best-seller nada mais faz, hoje em dia, no paraíso fiscal que é sua terra natal, do que passear, comprar as mais recentes engenhocas da Apple e, de tardinha, tomar um conhaque no bar da esquina e ficar vendo as moças (ele gosta daquelas de perna grossa) passarem.

Valeu, Erich, como dizem os débeis mentais. Nunca lhe passou pela cabeça que, na Terra, os únicos mistérios verdadeiros são como conseguimos fazer, todos nós em todos os tempos e o tempo todo, tanta canalhice em tão poucos séculos.

O homem dos deuses astronautas deveria saber com quem estava tratando, em matéria de leitor. Preferiu, ao invés, explorar, no bom sentido, nossas crendices e superstições, praticamente inócuas comparado ao que andamos fazendo por aí desde os tempos imemoriais. Vez por outra, no entanto, surge um fato razoavelmente concreto que nos faz pensar. Pensar durum est, conforme dizia Pompéia, mulher de Júlio César.

Um chocolate em Honduras a.C.

Deu no jornal (além da estagiária): arqueólogos descobriram na região de Puerto Escondido, nas Honduras, entre jarros e copos de cerâmica, resíduos de cacau, que seria um dos ingredientes de uma bebida que remonta ao ano de 1150 a.C (não era preciso tanta precisão) e que os nativos tomavam, não como leite chocolatado, mas misturado a uma série de líquidos fermentados afim de ficarem “numa boa” ou “en una buena”, como se diz no idioma de Hugo Chávez e do rei Juan Carlos da Espanha.

A humanidade sempre quis “ficar numa boa”. Essa “boa” não existe, nunca existiu, nem passou pela cabeça vivíssima de von Däniken tentar explicar. Aí estão o crack e o ecstasy que não me deixam mentir. Quer dizer, deixar deixam, mas ninguém dá atenção a um dopadão mentindo adoidado, conforme seu hábito e vício.

Também não davam atenção nas Honduras, há 3 mil anos. Hondurenho sempre entendeu muito pouco das coisas. Leite chocolatado é outra coisa. Esse é coisa fina para gente boa. Embora não mais para mim, que, na semana passada, fui diagnosticado diabético. Nada de muito sério, mas com uma pequena dieta a seguir: evitar gorduras, açúcar, coisa e tal. Principalmente “coisa” e “tal.”

Tipos esquecíveis

Tudo isso me veio à mente quando soube que dia 14 de novembro, agora mesmo nesta semana, precisamente 8 dias depois de eu ser diagnosticado com a dulcorosa pandemia (mais de 50% da população mundial é diabética e não sabe) que aflige, segundo os jornais, mais de 10 milhões de brasileiros, inclusive os que foram para Londres ou Nuiórque.

Sou Tipo 2, um tipo que não chega a inspirar muitos cuidados. Nada em mim inspirou cuidados a ninguém em tempo nenhum. Não me queixo. Relato apenas. Dou os dados. Como von Däniken.

Agora, confesso que a extraordinária coincidência me sacudiu: sou diagnosticado num dia e logo depois aí está o dia mundial do diabetes sendo comemorado. É um pouco demais. Tem deus ou astronauta nisso.

Soube que a cor azul do diabetes (por que azul? Só uma vez na vida fiz pipi azul. Uma longa e dolorosa história que envolve uísque falsificado e uma rodela de anil. Deixemos essa história para o próximo livro de Von Däniken, se livro vier) foi projetada sobre essa moderna maravilha do mundo moderno que é a estátua do Cristo Redentor, no Rio.

Mais mistério. Quem descobriu que Cristo era diabético? Tipo 1, tipo 2 ou um tipo todo especial reservado aos profetas e outros privilegiados? Vai nessa, Erich von Däniken, e me explica isso.

Mais mistérios

Astronautas ou não, com ou sem von Däniken ou deuses, nunca uma pessoa, de ciência ou crack, conseguirá explicar o porquê de nossos feriadões. Somos aumentativos. Certo. De quarta desta semana até a quarta da semana que vem, demos uma calibrada nisso: surgiu um “feriadãosão”. Isso por que terça, dia 20 de novembro, é o dia de Zumbi dos Palmares, ou, em português moderno, Dia da Consciência Negra.

Atenção: não é para ir pra fora. Nem subir pra montanha nem se mandar para a Região dos Lagos. É pra ficar em casa concentrado, pensando muito nos negros. Pensando sem safadeza. Platonicamente. Só valem negros brasileiros. Dos da mais alta categoria aos mais destituídos. De Machado de Assis ao pequenino vendedor de crack abandonado.

Os americanos, que, um dia, tentaram explorar de forma vil nosso petróleo, que fiquem com seu Martin Luther King, aquele que teve um sonho e as mulheres que quis nas camas que escolheu, segundo a cartilha do FBI de J.Edgar Hoover. Nós não o trocaríamos por Zumbi, ou Zanbi, Ganga Zumba, ou qualquer outra variação quimbunda do último dos líderes do Quilombo de Palmares, nas Alagoas (Por falar nisso, Erich von Däniken não explica as Alagoas. Nem arqueólogo nenhum descobriu objetos de cerâmica no local onde ficava a residência dos amotinados contendo vestígios de qualquer droga, alucinogênica ou exacerbatória. Os quilombenses, além de abstêmios, haviam feito voto de castidade. Os modernos alagoenses, não).

Conclusão

Ninguém pode me acusar de ter me desviado do principal assunto desta coluna.

Não havia principal assunto. Não havia assunto. Não havia nada. No entanto, nela, e dela, fez-se a escuridão. A coluna que o ilustre passageiro tem diante dos olhos é apenas uma ilusão dos sentidos.

Assim como a realidade é uma ilusão provocada pela ausência de drogas no organismo. Arqueólogos, astronautas, deuses e Erich von Däniken sabem muito bem disso. Entre outras coisas.

 
 
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