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Doçuras de novembro
 
Ivan Lessa
Eu não tenho mais saúde para ficar doente em Londres. Estou apagando velinhas este mês. Ou estaria, se tivesse pulmões para isso.

Em novembro de 2001, parei de fumar, após uns bons (ou maus) 50 anos, de cigarrinho no canto da boca. De estalo e sem dificuldade maior. No peito (ai, o peito!) e na marra. Sem chiclete ou band-aid de nicotina.

Peguei, logo em seguida, como castigo talvez, um baita resfriado, desses de derrubar. Gripe, enfim. Fui ao meu GP, ou General Practioner, que, para quem não sabe, é meu médico geral, meu generalista, logo ali na esquina, onde me registrei desde que cheguei a esta cidade em 1978.

Nunca o aborreci. De vez em quando, pegava uma receitinha para um sonífero meia-bomba. Só. Para me sossegar, que sempre fui agitado. Minha mulher e minha filha também não o chatearam, nem pediram bolinha para dormir, apesar de viverem e conviverem comigo.

A minha famosa gripe de novembro de 2001 está rendendo até hoje. Generalista e eu estamos pagando por nossos pecados e de quem mais estiver por perto. Ele é moço pode aguentar o tranco que sou, me dou bem com ele, embora em matéria de médico a gente sempre se sai melhor (ou pior, depende da gravidade do caso) em língua materna. Como explicar em língua dos outros que se está com um “treco aqui por estas bandas”? Em inglês, eu, pelo menos, quase que me vejo obrigado a rimar e metrificar minhas mazelas físicas e mentais.

Mas aos fatos, que os tenho à farta, embora sem a eloqüência que cative o menos exigente dos leitores. Vai ver, já que tentei tudo, que melhora botando tudo para fora em dígitos cibernéticos.

Esbanjando saúde, vendendo doença

Eu não estava com ressaca de gripe coisa alguma. O GP me auscultou, mexeu aqui e ali, sempre com propriedade e em lugares próprios, e foi rápido no diagnóstico.

Arritmia, fibrilação atrial. Botou-me a fazer exame. Faço questão de frisar: tudo grátis, tudo pela NHS, o National Health System, qual seja, o SUS deles, o sistema de saúde pública nacional inteiramente grátis, inclusive todo e qualquer remedinho ou remedião, para quem tem mais de 60 anos, infelizmente meu caso na época e muito mais agora, em 2007. Ser de graça é a única graça de se passar mal aqui nessa idade.

O resumo da história é que andei rodando bolsinha, com meu coração e pulmões dentro, de médico em médico nos grandes hospitais mais ou menos próximos de onde moro.

Foi exame que não acabava mais. Me furaram, me viraram pra cá e pra lá diante das objetivas dos raios-x e me receitaram Deus (não, Deus não) e o mundo. Minha receita básica, a que renovo e levo todo mês para a farmácia, passou a contar com cerca de 9 medicamentos básicos, ou seja, os necessários para eu continuar mais ou menos vivo ou chegar num dia de sorte à estação de metrô.

Cheguei mesmo a aniversariar, eu que pensara que essa tolice saíra na urina a que meu diurético diário me obriga. E foi inalador após inalador, cápsula, drágea e comprimido. Foi também, e não há como enganar, de piora em piora. Até chegar ao ponto em que ir até a esquina significava botar os bofes para fora.

O GP acompanhando em seu consultório. Virei meio cobaia dele, acho. Na melhor de suas boas intenções, claro. Quanto aos senhores doutores que tiveram a gentileza de me ver e ouvir nos grandes hospitais, os chamados consultants, era ter de esperar alguns meses até ser atendido. E, não há como negar, mal atendido. O sistema de saúde britânico, que um dia fôra inveja do mundo, estava em plena decadência. Direitinho feito eu lia nos jornais e não prestava muita atenção.

Ventilou-se, ou ventilaram eles, mil coisas. Menos meus pulmões, meu coração, minha saúde. Essa ficou trancada de castigo no quarto e na sala. Curtindo, por assim dizer, os prazeres que podem ser curtidos sentadão – com livro na mão, diante de computador ou de frente para a televisão.

Uma tentativa

Sem nenhuma frescura, me abri com o GP: quem sabe se eu passasse para a medicina particular tivesse de esperar menos. Menos, para dar um exemplo concreto, do que os médicos das vias respiratórias que me viram em setembro de 2006, me catucaram, sorriram e marcaram a nova consulta para outubro de 2007.

Eu acompanhando pelos jornais a fria em que a NHS (já a apresentei aos distintos, pois não?) se metera. Gente morrendo de infecção em alguns hospitais, filas, moços e anciães feito eu indo se tratar em outros países da Comunidade Européia.

Meu GP não hesitou, faz parte de seu show, como os shows de Cazuza e Cauby: me recomendou prontamente a um ilustre Consultant das vias respiratórias. Fui logo visto e logo me tiraram litros de sangue e instantâneos interessantíssimos de meus pulmões. Tudo, evidente, saindo uma fortuna, me custando um dinheiro que eu não tenho.

No meio da semana passada, o multimilionário em questão (são todos muito, muito ricos, os médicos de hospital pago), entre um cliente – ou será freguês? – árabe e outro me deu o diagnóstico, tendo diante de si as poses de minhas intimidades.

Tudo indicava que eu sofria das vias respiratórias. Indicou, aliás ficou de indicar, um nebulizador. Iria entrar em contato com meu médico particular, de quem eu já estava morto de saudades.

Talvez para justificar a loucura que gastei, deu-me a notícia: sou diabético, tenho que me tratar. Tratar, graças a Zeus, com o GP, que no dia seguinte me deu folhetos, um remédio e traçou uma dieta. A coisa é séria, mas não é grave. Ou grave mas não é séria. Por aí. Algo assim.

Conclusões

De cara, lá se vão meus refrigerantes açucarados, a água de coco tailandesa que descobri e que me quebra o galho da palmeira que cisma de crescer em minh'alma, e coisa e tal. Ainda não está no ponto das injeções de insulina. Bobeando, posso lá chegar.

Li tudo que encontrei na Internet. Em inglês, francês, português, volapuque. Não é muito encorajadora a perspectiva para meu problema metabólico causado por deficiência de insulina em que a utilização de carboidratos é reduzida e a de lipídeos e proteínas aumentada, ocorrendo nos casos mais graves glicosúria, perda de água e eletrólitos, cetoacidose e coma, como diria, aliás diz, o Houaiss, pois copiei, quase que com orgulho, pois estou nessa, palavra por palavra.

Digamos que eu não morra já e fique por mais uns tempinhos nestas terras estrangeiras. Sei que sou diabético. Tudo bem. Ou tudo mal. Mas – raios! – eu tenho diabete ou diabetes? No singular ou no plural? No masculino ou feminino?

Não entendi o resumo final do dicionário. Será a doença essa? Deixou-me como me deixaram os médicos ingleses. Sem um picolé para chupar e coberto de dúvidas como se estas tivessem se transformado na fina garoa que em mim caiu, quando guri, em São Paulo.

Pronto. Comecei a tossir basbaquices. É a/o as/os diabete/diabetes.

 
 
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