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Atualizado às: 24 de outubro, 2007 - 07h45 GMT (05h45 Brasília)
 
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Ora (direis) comer!
 
Ivan Lessa
Certo perdeste o senso! Comer já foi bom. Comer tudo. Comer todos. Do bolinho azul que matou o guarda ao doce de abóbora com coco que só a vovó sabia preparar.

Restaurante era só para umas raras exceções. Coisa de adultos, esses raros excepcionais. Essa gente que trabalhava no centro da cidade, coitados. Comer era coisa, era diversão de garoto. Comer sentado no meio-fio a marmita roubada do Orlando “Marmiteiro”, no meio do racha, é que era comer de verdade. Sentiram?

Em casa, filé a cavalo bem mal passado com fritas com um bruta copão de limonada do lado era o máximo. Mas só se preparado pela empregada que, na época, podia ser chamada de “crioula” sem dar bolo (ah, seus bolos de fubá!).

De resto, uma empadinha no butequim (com u, claro), pão afanado recém-saído do forno da padaria, pastel de ar e, na triste hora da adolescência, a que todo vagabundo está sujeito, vinha junto com a americanalhice que tanto e sempre amamos, os sanduíches.

Cachorro-quente, hambúrguer, americano, misto quente. Os sanduíches de queijo prato (eu só chamava de “queijo prata”, tão precioso me parecia), mortadela, lombinho, esses todos foram alimentar as criancinhas barrigudinhas das terras do São Nunca e, de lá, não voltam mais.

Comer, de repente, virou ofício, já que crescemos, e, com a idade, vem a responsabilidade. Responsabilidade de passar no cartório e pegar o devido certificado de mau caráter feito todo o resto de nossa gente. Comer virou ir ao restaurante. De casa, do Brasil, do mundo.

Comíamos e pagávamos, onde antes era quase de graça. Os outros, sempre eles, nos fizeram virar bestas e bestas ficamos. Até hoje, num mundo com fome, todos comem, engordam e viram problema social, juntamente com a emissão de dióxido de carbono.

Não comer também dá em gente pedindo auxílio humanitário para as mocinhas top models que, por vaidade e necessidade de vaga no mercado de trabalho, deixam de comer por completo e vão posar para as revistas anunciando roupinhas feias. Daí ganham uma fortuna para emagrecer ainda mais.

Comer passivo

E essa moda de programa de televisão sobre culinária? E essa cambada de mestre-cuca, caindo de estrela do guia Michelin, ganhando uma nota para virar astro de televisão?

Aqui tem que não acaba mais. Complicando, sempre complicando. Cada um deles tentando ser mais interessante que o companheiro ou companheira no canal ao lado faturando uma nota firme como cuscuz paulista. Num guento mais. Passei a só ir de micro-ondas, minha gente. Comer, para mim, virou uma porqueira dos diabos com essa turma cozinhando aloprada nas telas de plasma em alta ou baixa definição.

Há uns 40 anos, Londres e o Reino Unido já foram divertidos. Exatamente por que era difícil paca comer nem que fosse razoavelmente nestas ilhas. Da cantina da BBC, nove andares abaixo de onde digito estas, nem vou falar, que não sou besta de querer perder este meu rico cantinho aqui nesta página três vezes por semana ou sofrer atentado com salsicha Cumberland, se alguém se der ao trabalho (e há gente pra tudo) e traduzir para a turma da cozinha. Digamos que ainda não ocorreu a nenhum inspetor dos guias Michelin dar uma chegadinha aqui para conferir.

Sofisticaram, isso é o que houve. Os restaurateiros sofisticaram. Conhecem sua freguesia. Uma cambada de vagabundos recheada de dinheiro novo feito peru no Natal. São vivos os “restaurateiros”. Vivíssimos. Se fizeram de personagem e foram para diante das câmaras nos faturar. Agora, nos comem e suas casas de pasta estão botando gente pelo ladrão. Ou ladrão pelo ladrão, como diria alguém mais abusado.

O fenômeno chef de TV já deve ter chegado aí. Bem feito. Pra vocês pararem de caprichar na preparação em massa de pobres e ficar espalhando talher de prata e ouro na frente de miliardários.

Heston Blumenthal

Com esse nome, deveria ser industrial em Santa Catarina ou criminoso de guerra executado nos anos 40 em Nurembergue. Não. É o chef da moda este mês. Dele o restaurante Fat Duck (Pato Gordo), que, não vamos dizer de passagem mas sim sublinhar que dar nome divertido a casa de pasto é burrice e frescura.

Restaurante é pra ter nome sério, feito “Ernesto” (mas não “Geisel”). Por aí. “Pato Gordo” é a mãe. E o pai também de quem batizou. Mas a Heston Blumenthal. Ele diz ter se especializado na cozinha científica. Conhecidíssimos (pelas pessoas que também apreciam se fazer passar por conhecidas) são: o seu sorvete quente, o seu pudim de lesma e o seu rigoroso estudo molecular das carnes a serem batidas para o hambúrguer perfeito.

Se pedirem e pagarem direitinho, o bruto é capaz de tentar uma torta de nuvens outonais, ou, caso seu patão ponha um ovo em Ipanema, um risoto de areia do Posto 9, em Ipanema, acrescido de sua especialidade (juro!): servir com um nano iPod para que os fregueses – você, sua senhôra, seus filhos, sua mãe! – possam ouvir o som do mar. No caso hipotético, aquele trecho que vai até as Cagarras.

É o que desejo procêis depois ver Tropa de Elite em DVD pirata.

 
 
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