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Atualizado às: 19 de outubro, 2007 - 08h31 GMT (05h31 Brasília)
 
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Jean Charles: Segurança e Higiene no Trabalho
 
Ivan Lessa
A BBC Brasil deu esta semana. Idem, os jornais brasileiros que andei lendo na net. Aqui, só vi no The Guardian. O mais recente capítulo na tragédia que acabou resultando na execução do brasileiro Jean Charles de Menezes pela polícia londrina em 22 de julho de 2005.

A Procuradoria britânica decidiu, no ano passado, exonerar os agentes envolvidos no que chamam de “incidente” e processar apenas a instituição, com base na Lei de Segurança e Higiene no Trabalho, de 1974, que obriga as forças da lei, mesmo as tropas de elite, a zelar pela integridade de todos os cidadãos.

Lembremos rápido o que todos brasileiros já sabem: Jean Charles, de 27 anos, no dia em questão foi confundido por agentes de elite da Scotland Yard, que o identificaram como Hussain Osman, terrorista que tentou, no dia anterior, praticar um atentado contra a rede de metrô da capital, semelhante aos de 7 de julho, e o qual, frise-se, em quase nada se parecia com o executado.

A polícia britânica vem sendo julgada desde o dia 1º de outubro. Ela é acusada de infringir as Leis de Segurança e Higiene no Trabalho. Mais: os policiais que participaram da execução não correm o risco de qualquer pena.

Talvez até mesmo admoestação, especula-se, já que não o foram até agora. O pior que pode acontecer para a acusada, ou seja, a Scotland Yard, é pagar uma multa. Assim como agora também, neste outubro, passou a se pagar uma multa de perto de 50 libras, uns 100 dólares, caso o cidadão ou cidadão botar os pés em cima de um banco de metrô. Bala na cabeça ainda não é o caso.

Depoimentos recentes

Estão depondo com pseudônimos e tendo suas identidades protegidas por um biombo os agentes que participaram da execução de Jean Charles, que foi perseguido em correria desde sua casa, em ônibus, pela rua e finalmente no metrô, onde acabou executado com 7 balas à queima-roupa na cara, dentro de um vagão na frente de outros passageiros, os quais, por sinal, ninguém sabe quem são, nenhum jornal entrevistou, procurou averiguar ou conferir suas versões. Nenhum jornal pôde ou não puderam por eles.

Nos depoimentos desta semana, destacaram-se o de “Ralph” (nome fictício), chefe da unidade armada responsável pela execução, que disse que as únicas pessoas que perseguiam Jean Charles faziam parte do grupo CO19, todos armados e responsáveis pelas tarefas mais sérias de vigilância, tais como acompanharem supostos terroristas e, quando for o caso e as condições, ao que tudo indica, executá-los.

“Ralph” é um policial de extrema sensibilidade. Disse que “apesar do que aconteceu, estava muito orgulhoso do trabalho de sua equipe”. E pôs-se, em seguida, aos soluços, a chorar.

Este fato, aliás, o da sensibilidade de “Ralph”, não foi abordado pelo outro depoimento interessante da semana: a do patologista Kenneth Shorrock, que examinou o cadáver de Jean Charles.

Desprotegido por pseudônimo e biombo, o médico em questão disse que, em exames toxicológicos realizados no morto após sua execução, foram encontrados traços de cocaína na urina de Jean Charles. Nada, no entanto, no sangue, o que, segundo o patologista, "torna impossível saber exatamente quando o brasileiro teria consumido a droga", adiantando ainda que a droga "tem o potencial de alterar o comportamento das pessoas, podendo causar, inclusive, sentimentos anormais de apreensão, medo e ansiedade, como uma paranóia”, relatou o Guardian, sem acrescentar no entanto se o excesso de informações dadas pelo legista era necessário aos trabalhos judiciários.

O patologista ressaltou, entretanto, que a droga precisaria estar na corrente sangüínea para ter estes efeitos, o que não era o caso do executado, Jean Charles de Menezes.

O que eu quero saber

Eu quero saber o porquê do exame de sangue e de urina de Jean Charles. Eu quero saber o porquê de só agora a Scotland Yard revelar que as balas disparadas na cabeça de Jean Charles eram especiais.

O esclarecimento foi dado por outro policial, codinome “Andrew” para a ocasião jurídica. “Andrew”, armado apenas do nome fictício e do biombo, explicou que as balas eram feitas com o objetivo de se alojar no corpo do executado sem atravessá-lo, ou seja, matando-o instantaneamente sem ferir outros inocentes e sem violar não mais que o necessário as Leis de Segurança e Higiene no Trabalho – sempre segundo o Guardian.

“Andrew” não esclareceu se bastava uma bala na cabeça à queima-roupa ou eram necessárias mais de seis.

Eu quero saber o porquê de não ter sido feito um exame ao menos da urina do agente encarregado de vigiar a porta da casa onde Jean Charles morava, abandonando assim o posto de observação naquela manhã de julho, tendo perdido alguns minutos para se aliviar num canto qualquer, ferindo assim, diga-se de passagem, ao menos alguma alínea da Lei de Segurança e Higiene no Trabalho, além de, com sua omissão, ainda que breve, ter prejudicado seriamente a missão de acompanhar os passos de Jean Charles, até então tido como perigoso terrorista.

Eu quero saber o porquê de não se examinar a fundo o perfil psicológico dos policiais com direito, ainda raro por aqui, ao porte de armas de fogo, principalmente quando um deles, e em posição de liderança, cai aos prantos em tribunal, mesmo protegido por pseudônimo e biombo.

Há uma teoria de que os policiais com o direito ao porte de armas de fogo devem ter uma constituição especialíssima em sua sensibilidade, de modo a melhor poderem fazer cumprir as Leis de Segurança e Higiene no Trabalho.

Policial portador de armas passa por teste psicológico? Quais são esses testes?

Não contando o do tiro ao alvo.

Policial portador de armas passa por exame de urina e de sangue após uma execução, simples ou complexa? Quando a adrenalina jorra pelas glândulas supra-renais como jorra o sangue dos vivos em seus corpos e dos mortos pelo chão?

 
 
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