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Atualizado às: 03 de outubro, 2007 - 08h28 GMT (05h28 Brasília)
 
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Perdidos, muito perdidos mesmo
 
Ivan Lessa
Outro dia mesmo, eu andei falando sobre o depósito de achados e perdidos no metrô de Londres e tentei contar um caso onde os sucedidos eram o que havia de menor importância.

Para variar, fui perdendo fio após fio de meada após fio de meada. Não tenho a menor idéia da origem ou do porquê da expressão, mas, hoje em dia, perder fio de meada é comigo. Em mais de uma ocasião, perdi até mesmo uma meada de bom tamanho.

Hoje, no entanto, mais bem humorado, e em compasso de penitência, vou ficar no assunto único a que me disponho expor e dispor. Refiro-me a coisas perdidas nos metrôs de Londres.

Após uma intensa pesquisa nas páginas 17 e 18 do jornal que leio todos os dias (e atenção para a primeira divagação, para a primeira quebra do compromisso assumido) no metrô após comprá-lo na entrada da estação, (voltei com unhas e dentes ao assunto, à proverbial vaca fria, a qual também desconheço a origem) deparei-me com um divertido artiguete sobre coisas originais perdidas nos vagões dos trens subterrâneos que fazem o percurso da capital britânica.

Sim, me ensinaram que é sinal de mau estilo repetir as mesmas palavras ou expressões no mesmo parágrafo. Não vou, portanto, repetir as palavras “metrô” ou “Londres”, apesar da pronunciada existência de uma e de outra coisa não só nestas linhas como na face deste cantinho da Terra.

O artiguete

O artiguete era muito melhor, mais bem escrito, do que qualquer coisa que eu faço ou tente fazer. Limitava-se, em duas páginas de jornal, a enumerar as bizarrias encontradas e devidamente encaminhadas para o tal do depósito de achados e perdidos de que andei falando. Sempre em ritmo de penitência, limito-me, hoje, a simplesmente enumerar os objetos (coisas é mais apropriado) em questão.

Vou botar uma estrelinha antes de cada objeto ou coisa na tentativa de escrever “mais baixo”, encher menos lingüiça e alegrar um pouco estas noites de Londres tão cobertas de nuvens outonais.

Como a menina que, em cartilha, aponta para o céu e exclama para o bigodudo senhor ao seu lado, “Olha lá uma estrela, ó pai!”, dou início aos trabalhos.

* Uma cadeira intacta de sala de jantar.

* Uma serra elétrica em estado razoável de funcionamento.

* Uma pequena mesa de mármore para sala de estar.

* Um controle remoto de televisão ainda com pilhas novinhas.

* Uma perna de pau, ou melhor dizendo, uma prótese relativamente moderna. Não, não havia piratas na cidade naquela semana.

* Um corpete.

* Uma anágua (na época em qua ainda eram usadas).

* Um vestido de casamento para noiva de baixa classe média.

* A toga de um advogado.

* Um saquinho de passas quase cheio.

* Uma dessas máquinas para se remar em casa que aqueles que querem ficar fortes e bonitos usam.

* Um barco de 14 pés de comprimento, ou seja, 14 vezes 33 cm, que eu sou péssimo de aritmética, deixo as contas por conta do leitor. Estas linhas são, sempre que possível, uma espécie de “obra aberta”, conforme definição do pedicuro italiano, Umberto Eco.

* Um pedicuro italiano. Mentira. Mentira minha, apenas tentaiva falha de fazer graça. De repente, fiquei meio entediado com o que estava escrevendo. Assim como o leitor tem o direito – não, o dever! – de se entendiar com meus rabiscos nas perigosas areias informáticas dos desertos de nossos tempos.

Um subtítulo novo só para movimentar as coisas

* Uma urna com as cinzas sabe-se-lá de quem.

* Uma pasta, daquelas antigonas, contendo 10 mil libras em tutu vivo. Hoje, valeriam mais de 20 mil dólares. Na época, anos 60, talvez beirando os 200 mil. Dólares também, é claro,

* Um banco de jardim. Perdão, mas neste ponto, ou nesta estrelinha, vejo-me obrigado a intervir: acho perder banco de jardim em metrô londrino coisa de extraordinária poesia. Parece até que o Orestes Barbosa andou por cá fazendo uma de suas serestas. Mais uma vez: perdão, leitores.

* Um relógio de parede de perto de dois metros de altura. Paradão, claro.

* Uma águia empalhada. (Mas de aspecto feroz.)

* Uma pia de cozinha.

* Uma dona de casa de avental e detergente na mão procurando uma pia de cozinha. Minto de novo. A vida é uma grande decepção, não é mesmo?

O fim está próximo

* Uma cadeira de balanço.

* Uma locomotiva e vários vagões de um trenzinho de brinquedo.

* Sete exemplares (no alemão original, nenhum autografado) de Mein Kampf, autobiografia do ex-líder nazista Adolf Hitler.

* Um uniforme nazista (sem nazista dentro, é óbvio).

* Uma fantasia de gorila.

* Um coelho vivo.

* Três cobras mortas.

* Um jarro cheinho de esperma bovino.

* Um vibrador.

* Duas máscaras de Saddam Hussein.

No que encerro os trabalhos de hoje. Trabalhos meus e vossos. Não adianta passar no depósito. Foi tudo embora. Ou devolvido a seus legítimos donos. Ou posto fora ou vendido a preços módicos.

Outro dia, eu conto, ou copio, mais.

 
 
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