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Atualizado às: 28 de setembro, 2007 - 09h24 GMT (06h24 Brasília)
 
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Inglês velho
 
Ivan Lessa
Outro dia mesmo, neste canto eletrônico onde tento e tentam me eletrocutar, andei deblaterando contra a proposta reforma ortográfica da língua portuguesa.

Ou contra a língua portuguesa. Uma coisa assim. Possível até que tenha sido contra essa mania de escreverem Mianmar e não Birmânia, tal como era e deveria ter continuado a ser.

Os ingleses e norte-americanos que não acabam mais, na imprensa escrita, falada e informatizada, continuam escrevendo Burma, como sempre foi, até que, em 1988, um bando de milicos deu um golpe no país e mudaram o nome do bichão, conforme é do gosto dos homens de farda.

Só porque uns generais birmaneses e quatro camaradas numa sala da ONU decidiram que Mianmar é uma palavra bonita, e que assim passará a ser o nome da terrinha em questão, não é motivo para se jogar fora Burma, Birmânia, com todo seu glorioso ou mesmo inglório passado, ou mesmo qualquer outro país por aquelas e outras bandas começando com a letra B. Brasil inclusive. Embora Ilha de Vera Cruz, Terra Nova e Terra de Santa Cruz me pareçam muito mais interessantes.

Convenhamos, Mianmar é nome de cinema. E cinema poeira.

Ao que interessa. Descobri, internauta xereta que sou, um sítio sensacional. Anote aí, companheiro, www.optimumcomms.co.uk.

O local esse destina-se a analisar passagem de escritos em inglês salientando em alegres letras de cores diferentes, ou railaitando (highlighting), se é para sair por aí cunhando palavras com pai e mãe anglófonos. (E é para sair. Não fazemos outra coisa. Merecia um sítio “optimum” também inclusive.) Mas palavras em inglês arcaico, o propalado Old English, que deveria ser nome de uísque maroto, mas não é.

Old English, segundo (mais ou menos) a introdução do sítio em questão, é a língua composta de palavras que sobreviveram à passagem do tempo e à sacanagem e burrice dos homens.

As palavras com origem no Old English têm um poder especial de comunicação. Porque sua simplicidade expressa com mais clareza certas coisas para aqueles com alguma familiaridade com a língua inglesa.

Quer dizer, não é para qualquer um. No entanto, é para qualquer um. Ainda segundo a introdução do sítio, os grandes escritores (eu, você aí) sempre compreenderam isso. E tome página após página de obras seminais de: T.S. Eliot, Dylan Thomas, Charles Dickens, George Orwell, Joseph Conrad, Scott Fitzgerald, Jane Austen, Charlotte Bronte e Stephen Crane.

Old English bem servido

Fica combinado então o seguinte: inglês arcaico é a mesma coisa que anglo-saxão. Uma forma que o inglês teve e foi falado em partes do que agora constituem a Inglaterra e o sul da Escócia.

Sua origem é germânica ocidental, mostra um certo parentesco com o Velho Nórdico e o Velho Frísio. Tremenda velharia, pois. Ou tradição, se preferirem.

O inglês arcaico circulou livremente entre os séculos cinco e doze, sem ninguém meter em cana ou o bedelho (origem dúbia) em sua constituição e divulgação. As mudanças que ocorreram foram se dando assim como certas senhoras e senhoritas de nossas relações: com a maior naturalidade.

Percentagens

Segundo a análise da companhia Optimum, o romance 1984, de George Orwell, utiliza 74,2% do Velho Inglês. Um pouquinho mais só do que Jane Austen que, em Orgulho e Preconceito, mandou ficha em 74,1% do idioma clássico.

Por falar em clássico, Um conto de Natal, de Charles Dickens, é um verdadeiro peru recheado de inglês arcaico: 78,3%. Mas é o anglo-americano (mais anglo que americano) T, de Thomas, S, de Stearns, Eliot, que detém o recorde: empregou 78,4% do idioma que já passou por bocas germânicas e frísias.

Isso aí. Americano, e americano de alto nível de instrução e presunção, quando vai de inglês, ou British, conforme virou a moda chamarem, dá de lavagem nos outros.

O sítio Optimum explica o fenômeno de tantos bons escritores preferirem o Old English (como se fosse aquele uísque a que me referi antes) citando George Orwell, por sinal de baixa cotação entre os fazem mais uso do extinto idioma. Orwell escreveu algumas linhas no sentido de que os maus escritores se deixam impressionar mais pelas palavras com raízes no latim e no grego do que nas raízes saxônicas.

Pode ser que sim, pode ser que não. O que Orwell errou, em matéria de previsão, não está no gibi. Ou melhor, está e é coisa de gibi.

Meus votos

Meus votos são de que alguém aí poderia parar de puxar saco de acadêmico e congressista e criar um sítio tipo assim (desprezo quem fala “tipo assim”) Optimum, só que apontando em nosso grande escritor (sim, ele mesmo Machado de Assis. Não há um segundo) as palavras com origem em francês arcaico, latim velhinho safado, grego pedófilo, iorubá século XIX et cetera e tal e assim por diante.

 
 
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