BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
 
Atualizado às: 17 de setembro, 2007 - 09h32 GMT (06h32 Brasília)
 
Envie por e-mail Versão para impressão
De canudinho
 
Ivan Lessa
Derramar uns birinaites com os amigos no boteco era chato. Agora que passou, pode-se dizer a verdade. Batia-se papo, contava-se mentiras sobre mulheres, falava-se mal dos ausentes, tratava-se mal os garçons.

Beber no bar era apenas uma das maneiras de se enfrentar os desastres que viriam a ser nossas vidas apenas iniciadas. No fundo, sabíamos que só teríamos besteira pela frente.

Estava escrito no fundo do copo de chope-duplo. Burros que éramos, tomávamos chope-duplo, não vendo que, naquele calor do Rio, logo ele ficaria morno. O “chopinho” seria mais inteligente, pegaria melhor.

Mas eu ia dizendo: era chato. Tanto que tínhamos que inventar bobagens para que o tempo passasse, já que era difícílimo chegar ao porre de chope, uma vez que não havia dinheiro para coisas mais pesadas.

Íamos, então, daqueles joguinhos de bar, chamados de passatempos, para não dizer que passatempo mesmo era sair de casa e ir ao bar beber chope morno com os amigos. Tudo, contanto que o tempo passasse. E o mais rápido possível.

Jogos de bar

Havia pouca escolha. Aquela besteira de juntar na quina da mesa as bolachas dos chopes consumidos (eram verdadeiras torres), nelas bater com as pontas dos dedos, virando-as para tentar pegar tudo no ar sem deixar cair um só no chão.

Burros, não conseguimos bolar um nome simples para essa tolice. Que eu me lembre, acho que, de certa feita, peguei umas 15 bolachas de uma vez. Uma vantagem estúpida de se contar. Provavelmente, inverídica também. Quem ficasse por último, pagava a rodada.

Outra asneira era aquela história de cobrir o copo com um pedaço de papel, deixando-o bem liso, e no meio botar uma moeda. Com a ponta acesa do cigarrinho, ir cada um fazendo um furinho no papel até que o último fizesse despencar a moeda copo adentro.

Não eram invenções sensacionais. Tradições apenas. Não se jogava, vejam vocês, o chamado “basquete de bolso”, nome elegante daquele joguinho que, na época, muitos bares da orla marítima da avenida Atlântica proibiam. Os brasileiros estamos sempre às voltas com proibições. Paisão besta.

Deixei para o fim – também não eram muitos – os dois joguinhos de bar mais chatos, embora menos complicados. O primeiro era ver quem conseguia beber o chope duplo inteiro, de uma só talagada, pela borda contrária, se é que entendem o que eu quero dizer.

Outro, era desafiar alguém a chupar um duplo de canudinho. Parecia, continua parecendo, mole, mas não era e não é. Vi muito malandro se estrepando, alguns até enjoando, na bica de soltar o caroço, ou seja, vomitar.

Depois, voltava-se para casa e esperava-se que o nada mais uma vez desse presente no dia seguinte.

Franceses perdem linha, classe, tudo

Entre 2001 e 2005, sem que ninguém esperasse, pegou aqui a mania de comprar, e depois tomar, claro, vinho em caixa de papelão. Juro. Sei que no Brasil em cada bar há alguém bebendo mal à beça, mas acho pouco provável que o vinho em caixa tenha batido por aí.

Por aqui, a venda de vinho quadruplicou. Para imenso gozo dos franceses que, em sua eterna birra com o Reino Unido, debocharam a mais não poder.

Chegou agora a forra dos britânicos. Os franceses inventaram e industrializaram uma caixinha de vinho para ser tomado de canudinho, que, como certos refrigerantes, também embalados em cartolina, ou material semelhante, vem com o – valem as aspas – “vinho”.

Os franceses, danados de malandros, sacaram o que os britânicos e todo mundo e o seu tio já sabiam: a garotada anda entendiada com os vários tipos de drogas, tão facilmente encontráveis pelas esquinas. A garotada está procurando algo mais sofisticado, mais “cool”, digamos assim.

Os grandes culpados

A experiência vem sendo testada primeiro nos supermercados belgas e tudo indica tratar-se de um imenso sucesso. É verdade, os franceses, sempre caindo de preconceitos, vivem fazendo cobaias dos belgas, talvez porque dessa nacionalidade só respeitam Tintin, Georges Simenon e Magritte.

Vinhos bordeaux com canudinho do lado e em caixinhas de 25 cl, ao preço de menos de um dólar, podem ser encontrados ao lado de sanduíches, saladas e outros comestíveis “prontos” para a viagem.

Os produtores garantem que os canudinhos realçam o sabor e a graça dos vinhos. Muita gente concorda e, conforme li, já se chegou a dizer que era muito mais chique chegar numa festa trazendo umas caixinhas de vinho do que com uma mera e ultrapassada “garrafa”.

Pra mim, isso é culpa do novo governo de Nicolas Sarkozy. Tudo que é sacanagem é sempre culpa do governo.

 
 
Arquivo - Ivan
Leia as colunas anteriores escritas por Ivan Lessa.
 
 
NOTÍCIAS RELACIONADAS
Vesgos, estrábicos e estrabões
14 setembro, 2007 | BBC Report
Um vibrante companheiro
12 setembro, 2007 | BBC Report
Ivan Lessa: O prêmio Booker
10 setembro, 2007 | BBC Report
É permitido proibir
07 setembro, 2007 | BBC Report
Vazapédia
05 setembro, 2007 | BBC Report
Sexo! Sexo! Sexo!
03 setembro, 2007 | BBC Report
Ivan Lessa: Parabéns, blogueiros
31 agosto, 2007 | BBC Report
Ivan Lessa: Um prefeito perfeito
29 agosto, 2007 | BBC Report
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
 
 
Envie por e-mail Versão para impressão
 
Tempo | Sobre a BBC | Expediente | Newsletter
 
BBC Copyright Logo ^^ Início da página
 
  Primeira Página | Ciência & Saúde | Cultura & Entretenimento | Vídeo & Áudio | Fotos | Especial | Interatividade | Aprenda inglês
 
  BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
 
  Ajuda | Fale com a gente | Notícias em 32 línguas | Privacidade