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Atualizado às: 14 de setembro, 2007 - 10h26 GMT (07h26 Brasília)
 
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Vesgos, estrábicos e estrabões
 
Ivan Lessa
Uma das primeiras graças minhas, que eu me lembre, era olhar com os dois olhos para a ponta de meu nariz.

Fazia um sucesso enorme entre as outras crianças de 4 de idade.

Exato. Eu me fazia de vesguinho. Os adultos censuravam. Alguns admoestavam: “Você fica fazendo isso, dá um vento e não consegue mais voltar ao normal.”

A ciência, que todo dia se pronuncia sobre alguma bobagem, nunca confirmou ou negou o aviso dos mais velhos.

Não será agora, no finalzinho de meu segundo tempo aqui na Terra, que eu vá fazer a experiência.

Se tiver de ir, vou com os olhos normais. Firmes, olhando em frente para as pálpebras fechadas que alguém terá feito a gentileza de fechá-las por mim.

Mais tarde um pouco na vida (sim, eu pretendo levar o máximo de tempo possível para me mandar desta para melhor. Ou pior), aprendi a palavra mais pedante para vesgo: estrábico. Ou "estrásbico".

Aprendi até, com o Houaiss, alguma de sua rica sinonímia: caolho, caraolho, estrabão, lusco, manaio, mirolha, mirolho, misgalho, olhizaino, peto, tortelos, torto, tortoles, vasqueiro etc.

“Estrásbico” era duro de sair. Viram? Até hoje tenho dificuldade com a danada da palavra. Acaba sempre saindo... pois é.

Passo, então, por mal-educado mesmo, e me refiro à vesguice, ou qualquer dos supracitados sinônimos, desse ou daquele outro cidadão.

Não que eu tenha alguma coisa contra. Muito pelo contrário, os vesguinhos (devem vir sempre no plural. Ficam mais simpáticos) são invariavelmente bem-humorados e, já que a vida é dura e os homens maus, aprenderam a viver e conviver com a vista voltada para o próprio nariz – e seus interlocutores que se danem.

As vesguinhas

Passada a adolescência, um amigo pouco mais velho me falou para ficar de olho nas moças ligeiramente estrábicas (além de vivido, pronunciava bem palavras difíceis).

Explicou-me que eram de uma “extraordinária sensualidade” e, assim, portanto, facilmente seduzíveis.

Nunca entendi a relação feita pelo companheiro entre o estrasbismo – saco! -- feminino e sua influência num comportamento sexual mais apaixonado e, por consequência, raciocinava eu, leviano, para ser explícito.

Nós, homens, não valemos nada.

As ligeiramente estrábicas (Oba! Saiu certo. Deve ser a emoção), assim como aquelas com os olhos perfeitamente encaixados em seus eixos visuais, poderiam ser mais “sensuais”, sim senhor, mas suas reservas amorosas extras, tal como acontece com o resto da humanidade, estariam destinadas àqueles que fossem de seu agrado.

Mais: e os vesguinhos? Como é que ia sensualidade deles?

Com o tempo, meu amigo deixou de ser meu amigo. Por causa de uma loirinha que morava no sétimo andar do mesmo edifício em que vivíamos todos.

Isso é outra história, não vem ao caso. O que importa é que fiquei com o raio da lenda urbana na cabeça.

De certa feita, naquela fase perto dos 20 anos em que se lê furiosamente tudo que estiver dando sopa, meus olhos (meus olhos perfeitamente normais) foram bater na frase “veneream estrabismus”.

Não me lembro do livro. Se era ficção ou não. Mas lá estava, com todas as letras, e além do mais, com o aval do latim, a comprovação do que me dissera o, agora então, ex-amigo.

Não. Não sai por aí feito um doido em busca de uma namorada ligeira, mas apenas ligeiramente, estrásbica, digo, estrábica. Fiquei, digamos assim, em compasso de espera. Atento e pronto para dar o bote.

Um véu de pudor

Neste ponto, com a devida vênia, peço licença para fazer baixar um véu sobre minhas décadas seguintes de vida amorosa e minha experiência com o doce, o suave e também incrível mistério do “veneream estrabismus” que… Mas não. Calo-me.

Pratico a disciplina da discrição, exerço a arte do pudor. O resto é comigo e quem comigo, estrasbiquinha ou não, digo, estrabiquinha ou não, foi ao cinema, tomou uns birinaites e depois se deixou convencer que iríamos até minha casa só para escutar uns disquinhos.

Tenho dito. Ou insinuado. Por aí.

Enfim: o fenômeno estudado

Toda essa minha saga veio à tona de meu consciente, e de vossos olhos, que espero normais, gentil leitor e leitora, ao ler uma pequena nota nos jornais.

Ao que parece a Universidade Southampton, aqui na Inglaterra, depois de um rigoroso estudo realizado por eminentes psicólogos na arte da leitura, chegaram à sensacional, à espetacular, à notável conclusão de que é perfeitamente normal, inclusive desejável, que os olhos das pessoas se cruzem, em tempo de olhizaino, ao praticar a leitura de qualquer coisa, inclusive de pesquisa dita científica em universidade no sul do país.

Testes mostraram, segundo Simon Liversidge, que conduziu a pesquisa, que 39% do tempo o olho direito pula na frente do olho esquerdo, ao passo que 8% do tempo todos os leitores ou leitoras (ó, Senhor, abençoai essas leitoras!) cruzavam os olhos, que, dest´arte, ficavam estrásbicos, digo, estrábicos.

Nada se disse sobre o “veneream estrabismus”. Que continuará sendo, ainda que de polichinelo, segredo.

 
 
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