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Atualizado às: 27 de agosto, 2007 - 08h54 GMT (05h54 Brasília)
 
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Ivan Lessa: Azul e cor-de-rosa
 
Ivan Lessa
Todos nós sabemos. Azul é a cor dos menininhos. Cor-de-rosa das menininhas. Sempre foi assim, sempre será.

Com raras exceções. Eu tive um amigo que foi vestido pelos pais de verde abacate desde a mais tenra idade.

Seu apelido era “Gafanhoto” e acabou advogado especializado em direitos autorais e ganhou uma fortuna roubando os pobres dos escritores brasileiros.

Acho que teve no bairro também uma moça que, desde pequetitinha, só era vestida de amarelo e era da “pá virada”, conforme se dizia na época. Parece que, como também é costume com elas, acabou casando bem e adquiriu um arco-íris em matéria de roupas e bens materiais.

São coisas de nosso Brasil, país que prima e borda por suas exceções, malandrices e o inusitado. Vamos ao que interessa. Para variar, tem cientista no meio. E onde tem cientista, sabemos, tem besteira no meio.

Pesquisas louváveis

Cientistas aqui, com pouco a fazer, e muita verba no banco, despreocupados com ambientalismos e doenças tropicais, resolveram estudar o porquê de uma questão vital para nos entendermos como seres vivos e atuantes neste início do século XXI: por que é que a humanidade chegou à conclusão de que os meninos, ou bebês, devem ser vestidos e cercados do máximo de azul possível, ao passo que as meninas só devem ir de cor-de-rosa?

Anya Hurlbert, professora de neurociências visuais na Universidade Newcastle, acabou de publicar um tomo mostrando, ou melhor, “provando”, como se diz nos meios científicos, que há um motivo biológico para a divisão de cores entre os sexos.

Ela explica, pelo que entendi, que há dois espectros: “vermelho-verdejante” e “azul-amarelento”. Traduzi como pude, mas juro que estou sendo fiel ao “red-greenness” e o “blue-yellowness” da distinta acadêmica.

Iniciada e terminada a pesquisa, com um bom número de pesquisados, como é de hábito, chegou Dona Anya, de charmoso Y no nome, à conclusão de que os homens preferem, ou são mais chegados, aos dois lados do espectro, sendo que as mulheres ficam curtindo as coisas lá pelas bandas do vermelho.

Faz sentido? Claro que não. O que nunca impediu cientista de ir em frente e tacar ficha de qualquer cor. Passo a palavra à ilustre e ilustrada professora.

O que ela escreveu

“As diferenças foram tão substanciais que pesquisadores escolados, uma vez de posse dos dados, em geral podem adivinhar o sexo de um pesquisado baseados apenas em suas cores preferidas.”

O que eu digo

De onde se conclui, diz ela, que se trata de uma questão da sobrevivência das espécies. Como? Isso mesmo. Não é para fazer sentido. O importante é perder tempo e aborrecer os outros. Para isso serve a ciência, nisso se especializaram os cientistas.

Minha tese, que passo adiante de graça, é a de que os meninos gostam mais de azul e as meninas mais de cor-de-rosa. Berram e se borram menos.

Mais especificamente: os pais é que preferem, é que decidiram e nunca vai se saber qual o motivo. Os bebês depois passam para outras cores e outros afazeres, quando chega a idade de escolherem eles mesmos a cor da gravata ou da calcinha.

Quem veste bebê é que manja de azul e de cor-de-rosa. Ponto. Embora haja outras teses, conforme carta que li num jornal semana passada.

Uma carta com tese

A carta em questão veio assinada por Kirit Gordhandas, de Knottingley, no condado Oeste de Yorkshire. Com esse nome, impossível deixar de acreditar nele. Ou nela. Não deu a pala nem de azul nem cor-de-rosa. Apenas erudição e bom senso.

Resumo: Kirit acha incrível cientistas ligarem cores à teoria da sobrevivência dos mais fortes. Uai, mais uma que eu não entendi! Não vi nada disso no artigo que li a respeito! Kirit prossegue explicando que as origens podem ser traçadas ao Oriente Médio, onde, graças ao alto índice de mortalidade infantil, os bebês meninos eram vestidos como se fossem bebês meninas, ou seja, de azul, conforme era moda, crença e superstição na época, lá pelo Oriente Médio.

Azul, pois, para as meninas há muito tempo atrás e bem longe também. O objetivo era enganar os deuses disfarçando o sexo da garotada. Só durante as cruzadas é que o costume de vestir os menininhos de azul entrou, ou voltou a entrar, em vigor, uma vez que os guerreiros, cansados de tantas estrepolias, trouxeram de volta o costume (azul, meninos) para o Ocidente.

Ficou claro agora? Evidente que não. Pouco importa. O importante é a marcha e o progresso da ciência. E dos que com ela não concordam também. Um, dois, um, dois… Os deuses lá em cima, no bem bom, vendo as palhaçadas da gente aqui embaixo.

 
 
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