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Atualizado às: 22 de agosto, 2007 - 10h00 GMT (07h00 Brasília)
 
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Férias: leituras em Cascais
 
Ivan Lessa
Leitura mais marcante das férias são aquelas três linhas da revista de bordo no artigo assinado pelo presidente ou diretor de relações públicas da companhia aérea em que se está voando.

Na hora da decolagem e de atingir a altura do vôo. Uns cinco minutos de ferrenha concentração.

Mãos quase rasgando o papel couché da publicação. Não há praia, piscina ou quarto de hotel cinco estrelas que proporcionarão tamanha intensidade de concentração.

Teor da leitura? Ninguém tem a menor idéia. Trata-se, no entanto, do trecho mais fervorosamente lido de qualquer viagem de férias. Ah, vai de navio? Olho nos icebergs, companheiro.

Cascais

Para variar, fui pela enésima vez para Cascais, no Estoril, município simpático a meia-hora de Lisboa, de comboio (não diga “trem”), onde mantenho um simpático, a meu ver, apartamento, rés-do-chão (é térreo) num bem administrado condomínio tido como “o melhor endereço de Cascais”.

Não sou eu quem digo. Li em algum lugar. Repito para impressionar os desavisados.

Televisão e muitos livros

Minhas férias são monótonas, como creio que as férias devam ser. Poucas comilanças, beira de piscina (pronuncie “pixina”), televisão e livros. Muitos livros.

As férias são aquele período do ano em que os que se acreditam alfabetizados, ou pior, letrados, botam (nunca use “colocam”) a leitura em dia.

Foi o que tentei fazer pela enésima vez. Sempre procurando ler o máximo possível em português. Do Brasil. Dei o pontapé inicial com o Tempestade de Ritmos, do Ruy Castro, uma coletânea de artigos, crônicas e ensaios só sobre música popular americana de qualidade dos chamados “anos de ouro”, ou seja, aquele período mais ou menos entre os anos 30 e 60. Foi um belíssimo começo.

Estava tudo lá: meus discos, minhas predileções, numa narrativa precisa e clara como eu nunca conseguiria contar para o companheiro no outro lado da mesa do boteco.

Mantive o tema musical indo de cabeça no Minhas Duas Estrelas, a história da vida do excelente Pery Ribeiro e as complicações músico-amorosas de seus pais, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, conforme a narrativa do próprio Pery e de Ana Duarte.

Estava há séculos para ler, fico satisfeito de ter passado algumas horas na companhia do talentoso trio, ou melhor, quarteto. Agora é reler em Londres com o devido fundo musical, tal como deve ser com o livro do Ruy.

Diário de notícias

De resto, policiais americanos de que já me esqueci, uma vez que não há Elmore Leonard novo na praça. Fiz uma rotina que me é cara e sai barato: li todos os dias, de cabo a rabo, mas cabo mesmo, rabo mesmo, um jornal português, o Diário de Notícias.

Detendo-me especialmente na parte política, nos editoriais e nas cartas para a redação. É uma delícia. Não há Agatha Christie que lhe cheguem aos pés em matéria de mistério.

Melhor: chegam aos meus olhos envoltos em enigma e lá continuam como charadas indecifráveis para todo o sempre. Assim deveria ser toda comunicação política mediática. Dou alguns exemplos que me marcaram a estada.

“Buraco na lei para calmantes ao volante.” “Licenciaturas agora em regime de e-learning.” “Nuno Babosinha vai a estar por três dias em alforremate com Fernão Palmeira.” “Ferreira Leite foi proposta por Mendes em 2005.” “Debates laranjana SIC e na TV Net.” “Pendões da Festa do Avante foram retirados do concelho em acto de prepotência, segundo comunistas.”

Brindes

Isso deve ser maldade ou ignorância minha. Para variar, uma possível mistura das duas coisas.

A verdade é que durante quatro semanas, quatro vezes por semana, o mesmo Diário de Notícias me dava, e à sua legião de leitores, livros grátis. Eu disse livros e não CDs de roqueiros milionários.

Eis uma lista parcial do que veio como um suplemento junto com meu exemplar em simpáticas e cuidadas edições (texto completo) de bolso: O Profeta, de Kahlil Gibran (calma, a coisa vai melhorar), O Pequeno Herói, de Dostoievsqui, Daisy Miller, de Henry James, Washington Square, do mesmo Henry James (deve ser popular como Robbie Williams no Reino Unido), A Estalagem das Duas Bruxas, de Joseph Conrad e até mesmo, com muita justiça e muita alegria minha, mais do que as ubíquas caiprinhas e bandeiras brasileiras que por aqui abundam, o Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Sou franco. Deles só li mesmo Dostoievsqui, Conrad e parágrafos de nosso Machadinho.

Xarope de groselha

Em compensação decorei o rótulo do xarope de groselha que agora aqui tem. É produzido pelas Caves Neto Costa S.A., Anadia, Portugal. Gabam-se de terem seus produtos premiados na Grande Exposição Portuguesa de 1932 (o xarope seguramente ainda não). Os ingredientes são água, açúcares, aromas, corantes 150 e 122 mais os conservantes E202 e E211.

De tudo que li foi o mais me impressionou e retive. Infelizmente, assim como o cherne e o bacalhau à lagareiro, teve de ficar para trás.

 
 
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