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Atualizado às: 23 de julho, 2007 - 09h37 GMT (06h37 Brasília)
 
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Ih, mais fone!
 
Ivan Lessa
Eu e um pequeno círculo exclusivo, cult e emblemático, fazemos parte daquele que é o último bastião contra o celular.

Somos todos provectos. Todos de um tempo, para citar o cronista Rubem Braga, que por sua vez citava outro alguém, em que todas as geladeiras eram brancas e todos os telefones eram pretos.

Abríamos a geladeira branca e dela tirávamos a cerveja geladinha, casco escuro, pegávamos no telefone e discávamos para um amigo ou namorada e lá ficávamos, papeando.

Jogando conversa fora, feito se diz agora, embora nenhuma conversa deva ser jogada fora.

Conversa é para ser gravada, em microssulco, evidente, depois arquivada e escutada de novo pela vida afora. Como se fosse uma seresta na voz de Orlando Silva ou Sílvio Caldas.

Último bastião, disse eu. Pois chamamo-nos a nós mesmos de Último Sebastião, uma vez que ninguém mais dá o nome de Sebastião aos filhos e é preciso que alguém em alguma parte não deixe essa peteca onomástica cair.

Do saber e do sabor

Que temos nós contra o celular?

Resposta simples: não é só implicância com essas pessoas todas falando tolices com aquele ar idiota pelas ruas, aparentemente em animado papo com elas mesmas, como se fossem, não só tolas, mas também loucas varridas.

O celular só se justifica se for instrumento em mãos, boca e ouvido de corretor de imóveis ou vendedor de “crack”.

Sabemos, conforme as pesquisas e o bom senso ditam, que 98% de todas as chamadas são absolutamente inúteis, desnecessárias, queimação de dinheiro.

Sabemos mais – e nesse ponto reside nossa atitude superior --, muito mais.

Sabemos que esse papo todo é a maneira da humanidade dar o seu grito de solidão, proclamar às margens de suas dependências o insuportáveel de seu silêncio interior, a falta de assunto de sua alma.

Daí então que nós, do Último Sebastião, da humanidade nos apiedamos.

Não vamos salvar as baleias, não temos como impedir o dióxido de carbono, não sabemos o que fazer para impedir o derretimento das calotas polares. No entanto, apesar dos aborrecimentos e fastios que cercam uma vida por todos os lados, temos ainda um resto (já tivemos mais) de pena.

Uma peninha, digamos. De nós todos. Dessa gentarada jovem e indômita, que um dia, há muito tempo, quando os bichos ainda falavam, fomos: muito moços e palermas, idealistas de meia tigela e um tostão furado, acreditando que a humanidade podia e devia ser salva, fosse pelo pseudo-cientificismo marxista ou pela fé numa (como dizíamos então) “coisa maior”.

É, isso mesmo. Religião nos doía os dentes se pronunciássemos a palavra.

Juventude, mocidade.

A ciência a seus lábios e ouvidos

Estão por toda parte os aparelhinhos. Reproduzindo-se como ratos.

Neles se fala, se fotografa, se registra em vídeo, se naufraga na Net, se troca desaforos em emails, se inventa linguagem nova para dizer velhices, se vê filmecos e filmões, se ouve e se vê o que não deveria ter sido nem dito ou mostrado.

“Paspalhões!”, berra do outro lado da rua o ancião datado.

O iPhone chega para abafar

Agora já chegou o iPhone.

Nele, lato sensu, muito se fala. Muitas outras coisas se faz. Todas vergonhosas ou despudoradas.

Chegou primeiro, como sempre, nos EUA. Teve gente que dormiu na rua para ser das primeiras a comprar.

Vem agora aqui para o Reino Unido e a Europa toda, quero crer.

Os suplementos informáticos dos jornais estão cheios de considerações e palpites.

Um papo dos mais técnicos entre gente leiga de vida. Isso mesmo o que eu queria dizer: quem vai de celular, ou congênere, modelos avançados ou obsoletos, é gente leiga de vida, no viver.

Viver é ao vivo, lá em cima no trapézio, e sem rede em parte alguma: em cima, para se comunicar, ou embaixo, para segurar a queda.

Tem mais e é pior: viver é a um só.

Pode ligar o quanto quiser para o outro, que o outro não está lá. No fim das contas, não há outro. Não havia quando discávamos o número do dial no telefone preto, não há quando subimos a ladeira falando e rindo sozinho.

O outro, por mais que você procure, não atende, não tem secretária eletrônica, não deixa recado.

Nunca houve um outro. Nunca haverá. Continue procurando nos livros, nos filmes, na televisão, nos bares.

Não há outro, repito e insisto. Não há ninguém. Talvez nem mesmo você.

Aí está uma possível surpresa: o Último Sebastião pode ser você. Esquece o celular. Não há ninguém em nenhum dos dois lados da linha.

Fale sozinho à vontade. Baixinho, por favor. Para o mínimo de pessoas ficar sabendo.

 
 
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