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Atualizado às: 22 de junho, 2007 - 09h32 GMT (06h32 Brasília)
 
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Londres às escuras
 
Ivan Lessa
Foi incrível! Uma loucura! Parecia que estávamos de volta à Segunda Guerra Mundial, com blitz, blackouts e as pessoas voando para os abrigos e estações de metrô para se proteger das bombas.

Tudo isso foi ainda agorinha mesmo, na quinta-feira, 21 de junho. Negócio seguinte, conforme se dizia entre maio de 1972 e setembro de 1976: realizou-se, no dia em questão, nesta capital, entre 9 e 10 da noite, um apagar de luzes desnecessárias entre a maior parte possível de londrinos.

É verdade, guerra não é bem assim. Não há bombardeios com hora marcada, não se fala em necessidade ou desnecessidade deles. A única semelhança diz respeito à “maior parte de londrinos”. Um bombardeio dos alemães destinava-se não só a alvos militares legítimos (cais, navios, fábricas etc.) mas também, se pegasse um bom número de cidadãos, ou destruísse suas residências, ótimo, ou ver gut, como diziam os pilotos nazistas dos filmes da época.

Sob o alto patrocínio da campanha Lights Out London e o prefeito fanho Ken Livingstone (um homenzinho impagável), uma estação de rádio e celebridades de pequeno calibre (Johnny Vaughan, Sophie Ellis-Baxter, por exemplo. Pois é. Eu não disse? Já ouviram falar?) na noite em questão, a de quinta, 21 de junho, os londrinos foram convocados, e não intimados, a apagar todas as luzes desnecessárias pelo curto prazo de uma hora.

'Não sou sócio da Light'

O Palácio de Buckingham, residência da Rainha Elizabeth, e a loja de departamentos Harrod´s, prometeram cumprir com o, por assim dizer, dever cívico. Não houve nenhuma guarda especial para conferir se a palavra de uma e outra instituição foram mantidas.

Só posso responder por mim. Não apaguei nenhuma luz lá em casa. As luzes desnecessárias estão sempre necessariamente apagadas. “Não sou sócio da Light”, diziam, há séculos, os pais e donos de casa, quando havia muita luz acesa.

Foi-se a Light (and Power Companhia Limitada, no “Canção para inglês ver”, do esplêndido Lamartine Babo), ficaram as ruas desertas com bala e gente perdida que não acaba mais.

Volto à minha casa com todas as luzes necessárias acesas. Na noite e no horário em questão, aproveitei para ligar a um amigo (ninguém falou em telefonema desnecessário ou necessário) e perguntar se ele sabia que o ícone ambientalista Al Gore havia sugerido, quando tomou conhecimento da iniciativa, que apagassem todas as luzes desnecessárias em toda a Grã-Bretanha.

Foi necessário que alguém, com muito tato, explicasse para a emblemática figura que ia ser um sei-lá-o-que para conferir na hora em que a rede elétrica de todo o país voltasse à sua plena carga, necessária ou desnecessária. “Ah!”, vejo-o exclamando com expressão esperta.

A mania dos fatos

As pessoas que me rodeiam, ou que fazem os jornais e os programas de televisão, ao menos os sérios, que ouço, leio e vejo, estão sempre falando dos “fatos”. Não sei o quer dizer isso. Nunca fui apresentado a um fato.

Em Portugal, é com C (facto) e mesmo assim parece que essa sopa (com S) vai acabar, graças aos nossos esforços no sentido de igualar tudo por baixo: o português de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe vai ser todo igualzinho àquele utilizado em nosso congresso e discursos de campanhas eleitorais. Isso é um “facto”. Ao menos, por enquanto. Deixará de sê-lo.

Também em Portugal os factos sempre foram tão misteriosos para mim quanto a Colombina que me jogou confete na boca, lança-perfume na nuca e desapareceu no turbilhão da Galeria, exibindo-me um sorriso de ironia, para misturar algumas sambas de minha predileção, que essas sim me cheiram e sabem a fatos e factos, mas sem fotos.

Fato é, dizem os responsáveis pelo “apaguinho”, que se todos londrinos – umas 3 mil residências, ao que parece – tiverem participado para valer do evento, cerca de 380 toneladas de dióxido de carbono terão sido economizadas.

Royal Albert Hall lotado

O dióxido de carbono é nocivo à tranquilidade e ao bem-estar comum, garantem-me apresentando fatos para comprovar outros fatos, na eterna e incestuosa dança dos fatos.

Juram que 380 toneladas de dióxido de carbono dariam para encher o imenso e proverbial Albert Hall, logo ali em frente ao Hyde Park. Proverbial porque qualquer coisa que se precisa aqui para dar uma idéia de grande quantidade e lá vem a sala de concertos, e tanta coisa mais, cheiíssima.

Mas vamos lá. Em primeiro lugar, eu não sabia do fato de que se pode pesar um, dois ou 380 toneladas de dióxido de carbono. Segundo lugar, não vejo necessidade no fato de se pesar seja lá quantos forem os dióxidos de carbono. Se não é coisa boa, deixa para lá, gente. Falem mal apenas, feito o velho costume internacional.

A conclusão disso tudo, dessa iniciativa, mesmo que não tenha sido o sucesso que esperavam, é que ao menos os londrinos tomaram conhecimento do fato de que é preciso economizar energia. Dizem eles. Esses “eles” que nunca me ficou claro exatamente quem são. Devem ser pessoas ligadas intimamente aos tais de fatos ou factos.

 
 
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