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Atualizado às: 20 de junho, 2007 - 09h52 GMT (06h52 Brasília)
 
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O porco ao piano
 
Ivan Lessa
O mundo se divide entre profissionais e calouros. Isso a se julgar por uns bons 60% do que anda comendo solto pela televisão destas ilhas.

Vira, mexe, deixa o zabelê ficar. Ou é Zé-perê? Nunca entendi a coisa. É, essa mesmo. A dos escravos de Jó.

Nada mais pobre do que o atual horário nobre. De um lado, julgando, emitindo pareceres, três pessoas sentadas, escolhidas a dedo e ensaiadas para ter uma personalidade. Personalidade entre aspas (“personalidade”) de qualidade televisiva atraente ou repelente, mas criadora de caso. E de números expressivos de audiência.

Isso me leva a um mundo em branco e preto e falado, ou cantado, em português. O do Flávio Cavalcanti, para quem pegou. Anteriormente, mas muito anteriormente mesmo, a Hora do Pato, na rádio Nacional, apresentada aos domingos pelo Jorge Curi e que, quando o calouro desafinava para valer, levava um “quack, quack, quack” desse tamanho bem no meio da testa.

É, “quack”. A sonoplastia era importada dos Estados Unidos. E o Papel Carbono, de e com Renato Murce, que, incentivava a imitação. “E quem é nosso próximo candidato, miss Mary?” (Miss Mary era a locutora que assistia ao bom Renato. “Nosso próximo candidato é uma cópia de Orlando Silva, senhor diretor.”)

Não juro, mas acho que o mais antigo desse gênero de radiodifusão, conforme se dizia, era o programa de calouros do Ary Barroso. Ary começava perguntando ao aspirante ao sucesso, “E você vai cantar o quê, meu filho?”.

O rapaz, trêmulo, respondia, Barlada Triste. Como se cantou “Barlada Triste” no Brasil aspirante ao estrelato, meu senhor! Calouro e pobre têm mania de botar em “R” onde não é para ter “R”. Ary, o grande, o chato do Ary, invariavelmente exigia que as calouras pessoas soubessem direitinho o nome do compositor ou compositores. Tinha sua razão.

Acertando o dial

Mas eu estou mexendo no dial da memória e não no controle remoto do presente. O tempo é agora, e o país o Reino Unido. O grande sucesso do momento é um programa intitulado Britain's Got Talent (“A Grã-Bretanha Tem Talento”. Mas tem mesmo? Jura?), cujo vencedor, além de um prêmio de perto de US$ 200 mil, terá a honra de participar do Royal Variety Performance, espetáculo de variedades que é uma tradição (mais uma) levada à cena diante da Rainha Elizabeth em carne e osso.

No programa de TV, o público vota pelo telefone. Os juízes pronunciam coisas supostamente ferinas ou elogiam em seu desvario de fazer média com a seleta (ai!) platéia. Os candidatos ao Real “show” de variedades são vaiados ou aplaudidos. Por uma platéia sempre entusiástica.

O espetáculo (infelizmente) continua

Há canções. Pobres canções. Massacradas canções. Muitas até que razoáveis ou mais na versão original. Outro dia, um porco tocou piano. Juro. Só que os porcos, todos sabem, não tocam piano. Fuçam ou dão patadas nas teclas.

No outro dia, um “poodle” uivou e o dono disse que ele estava cantando. Os juízes julgam e pronunciam supostas frases de efeito redigidas especialmente para os personagens que encarnam no tribunal para eles inventado. Ser juiz de porco ao piano ou “poodle” ao microfone está dando um dinheirão por estas bandas.

O público faz o que qualquer público tem de fazer na vida: tomar partido, achar aquilo que mandam. Público é público, Frank Sinatra foi (minto: é) Frank Sinatra. Os tolos telefonam.

Em casa, o “Joe Little People” julga os três juízes. Tem o mocinho, tem o bandido e tem a mocinha. Só a mocinha leva nota maior que seis. Cada juiz, uma sentença. E uma torcida.

Torcida maior do que o porco que não toca piano, do que o “poodle” crooner, do que o rapazinho gordote que cantou – claro – Nessun Dorma, do que a menininha banguela que é a favorita dos pobres de espírito e destituídos de tudo mais.

A grande favorita é uma menina que se vestiu de Mary Poppins, Eliza Doolittle, Noviça Rebelde, sei lá, tanto faz, e como elas cantou, por assim dizer.

No domingo foi divulgado o vencedor. Fiz questão de desconhecer. Já tenho muitas chatices na vida. Faço feito no final de Os Sopranos: deixo, para todos, uma enorme interrogação e uma tela em branco. Ou negro. Nada sei desses DNAs.

 
 
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