BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
 
Atualizado às: 13 de junho, 2007 - 07h57 GMT (04h57 Brasília)
 
Envie por e-mail Versão para impressão
'Modiáticos' vão ao fruteiro
 
Ivan Lessa
A primeira coisa que me recomendaram, em matéria do relacionamento fruta e saúde, foi o limão.

Meu pai, meio “maniático”, feito a gente (quer dizer, minha mãe e eu) dizia, era um entusiasta do limão. Punha limão em tudo. Punha limão em limão, punha limão até nos cigarrinhos Astória que fumava como um louco (ou “maniático”).

Falando a verdade, o homem chegava a chupar limão puro. Só de lembrar me dá aflição. Confesso que eu preferia limonada.

Mas ai! que ele não me visse botando açúcar no que para ele seria um refresco pobre e sem graça. Depois, vieram as outras frutas, sempre a mesma saúde, que é difícil ser moleque de rua e praia e não ter saúde. Pelo menos no meu quarteirão.

Laranja, lima da Pérsia, melancia, manga e aquela gente boa de nome indígena que agora cruzou ares e mares e já tem polpa à venda no mercadinho perto de casa: o açaí.

Em matéria de nossas frutas, frutas nossas, é isso aí. Acabou. Ao menos perto de minha casa. Com o guaraná, o papo é outro. Eles recorrem ao bruto para fins medicinais, eu quero é a parte gasosa e em lata da figura em questão.

Importante, além dos “maniáticos”, são os “modiáticos”, termo que acabo de criar para me referir àqueles que procuram sempre estar na moda ou, se possível, à frente dela.

Não me refiro apenas a roupas, sapatos e restaurantes, mas – e principalmente – regimes e promoções das indústrias que lidam e bolem com nossa cuca e nossa incansável preocupação com a saúde.

Um dia a gente acorda e tudo pode ser ou sarado ou evitado com isso ou aquilo outro. Orgânico. Orgânico nunca mais que vai sair da moda, apesar de pessoas iluminadas se cansarem de explicar, nas páginas pares dos jornais, que a coisa não é bem assim, não. E por aí afora. Agora, chegou a vez da romã.

Enfim: a romã

Não dá para se falar em pobre ou modesta romã. Romã sempre foi, é e será uma fruta rica e pretensiosa. O moleque que eu era achava o luxo desta vida abrir uma romã. Era como catar rubis.

Pondo na boca, não era lá essas coisas, para ser franco. Meio amarguinha, sem graça ou sustança. Meio assim feito a carambola (star fruit, para os ingleses. Bacana, né?), que eu não me canso de ver aqui admirada como se fosse uma das coisas mais requintadas da vida. Ora, a carambola era bem feitinha de corpo, sem dúvida, mas chupar carambola era como chupar água. Tudo bem, mas – e daí?

Romã. O nome para nós indica: algo a ver com Roma antiga, tremenda decadência, por aí. Ãmor é romã ao contrário: um bem-querer com cobrinha bem em cima da história espiando tudo.

Mais sério: uma chegada ao Houaiss ainda tenta dar interesse e sabor ao fruto, que, segundo o pai dos pobre, “dá na romãzeira, indeiscente (não confundir com “indecente”), com pericarpo coriáceo, coroado pelo cálice persistente e com interior subdividido por finas películas, formando cavidades com numerosas sementes envoltas por polpa comestível, sucosa e agridoce.” Taí, é verdade. Só um perfeito imbecil discordaria.

O estouro do pomo

Pois estão discordando. Romã virou moda. De cara, o nome da fruta, em inglês, é mil vezes mais chique do que em português: pomegranate.

Parece, diria um lexicógrafo amador e meio incompetente, um pomo oriundo de Granada, aquela instigante cidade espanhola, pois não? Pois não também que o “pomogranada” (adapto para tornar mais interessante) se encontra, no momento, sob a forma de suco, em tudo quanto é geladeira daqui e dos (claro, claro) Estados Unidos.

Por quê? Porque descobriram que a fruta dá um tremendo apoio às funções cardiovasculares, ajuda a manter um nível saudável de colesterol, contém fitoestrogênio (?!) natural, além de ser rico em potássio, pobre em sódio e é um estouro (no bom sentido) para reduzir a pressão alta e os perigos de um derrame.

Sempre sob a forma de suco. Mais fácil de se comercializar, pois torna o consumo rápido, rasteiro e caro como… como rubis líquidos, poetejo eu.

Quando chegar aí e o pessoal parar de ir de cupuaçu, jaca e jabuticaba me avisem. Nada, não. Só para eu rir um pouco, que a vida é dura.

 
 
Arquivo - Ivan
Leia as colunas anteriores escritas por Ivan Lessa.
 
 
NOTÍCIAS RELACIONADAS
Odores do verão
11 junho, 2007 | BBC Report
Britanicidades
08 junho, 2007 | BBC Report
Falta um gene ninóis
06 junho, 2007 | BBC Report
Como ser britânico
04 junho, 2007 | BBC Report
Achados e perdidos no espaço
01 junho, 2007 | BBC Report
Vão todos para o inferno!
30 maio, 2007 | BBC Report
Ivan Lessa: Bichos bichas
28 maio, 2007 | BBC Report
O mundo enganador de Dickens
25 maio, 2007 | BBC Report
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
 
 
Envie por e-mail Versão para impressão
 
Tempo | Sobre a BBC | Expediente | Newsletter
 
BBC Copyright Logo ^^ Início da página
 
  Primeira Página | Ciência & Saúde | Cultura & Entretenimento | Vídeo & Áudio | Fotos | Especial | Interatividade | Aprenda inglês
 
  BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
 
  Ajuda | Fale com a gente | Notícias em 32 línguas | Privacidade