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Atualizado às: 11 de junho, 2007 - 08h25 GMT (05h25 Brasília)
 
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Odores do verão
 
Ivan Lessa
Seu nome é Michele Hanson. Cronista e escritora. Seus 40 e alguns anos. Bonitona. A se julgar pela foto que encima suas colunas para o jornal que compro na banca em frente ao metrô.

Michele Hanson tem 4 livros publicados. Todos eles giram em torno de suas lidas com a filha, Treasure. Primeiro sinal de perigo. Gente que dá nome a filho ou filha de “Tesouro” (Treasure) é para se ficar com um pé atrás. Para se andar com cuidado mesmo que “Tesouro” seja o nome de cão ou gato.

Michele Hanson é figurinha fácil em programas de televisão e rádio. A mídia exige peritos. Os midiáticos acreditam que basta enfileirar frases para ser um perito em alguma coisa. Até mesmo escrever.

Michele Hanson mora aqui em Londres mesmo, zona norte da cidade, “residência da saudade”, conforme cantou Sílvio Caldas. Michele Hanson tem dois cachorros da raça boxer. Googlei adoidado mas não consegui achar o nome dos bichos. Vai ver, esses sim, têm nome de gente: Kevin e Tyrone, talvez.

Essa a breve e necessária introdução a Michele Hanson, cuja crônica da semana passada me causou forte impressão. Vou dar o título do texto em questão, pois ele já dá uma idéia do que se trata: “Que sorte que agora oficialmente os banhos frequentes fazem mal à pele. Eu só tomo banho uma vez por semana – se a tal for obrigada.”

Uma idéia do que se trata? Dona Michele podia ter parado por aí mesmo que já teria dito tudo. No entanto, ao exuberante (fragoroso?) título ela, ou o caprichoso jornal, julgou necessário um texto mais aprofundado, uma crônica, digamos assim, já que cronista é a senhora Michele Hanson.

Resumindo

No corpo esbelto de sua matéria, a colunista começa dando vivas a supostas notícias recentes de que os pediatras passaram a aconselhar os pais a não darem banho nos filhos todos os dias. Que basta lavar o rosto, as mãos, o pescoço e o bumbum todos os dias. Três banhos por semana é mais do que suficiente, assegura Michele Hanson que é o que afirmam os peritos.

Nossa (mais minha do que vossa, infelizmente) cronista acrescenta que, para ela, “três é demais”. E se abre com os leitores:”eu só tomo banho uma vez por semana. Às vezes, duas vezes por semana, se for absolutamente necessário e, com um pouquinho de sorte, fico uns dez dias sem banho. Brinco com cachorros imundos e não uso desodorante. Minha conta de gás é mínima.”

Eu paro aqui, acrescentando apenas que a “Treasure”, que afinal é o ganha-pão da cronista, toma um “zorrilhão” (minha tradução libérrima) de banhos e chuveiradas por semana e ficou horrorizada com a – serei gentil – idiossincrasia da mamã. “Tesouro” também, ficamos, eu e vocês, sabendo, vive inspecionando a mãe quando a visita, em busca de pedacinhos de espinafre nos dentes, sutiã caidão, pernas cabeludas.

Eu devia ter parado onde disse que ia parar, não é mesmo? Por que acrescentar que, outro dia mesmo, Michele Hanson foi apresentada ao “gel de corpo” e que ficou sem a menor idéia do que era e para que servia. Tá bom, tá bom! Eu paro! Também já estou ficando enjoado.

Concluindo (enfim)

Aí estão os meus versos de saudação ao verão que já começa a se sentir (e bota se sentir nisso) aqui em Londres. Se personagem mediática, gente que dá exemplo e o tom geral de uma cidade, não toma banho nem usa desodorante, imaginem o que serão, o que são, as viagens nos ônibus, trens, metrôs, a vida em recintos fechados e em proximidade aos nossos semelhantes (ou semelhantes a Michele Hanson. Serão muitos? Hein?) enfim, de norte a sul e de leste a oeste do país?

Tenho problemas com meus pulmões. Por excesso de cigarro e não falta de banho. Nós, brasileiros, somos tudo que quiserem, mas somos um povo limpo.

Foi o que sempre ouvi dizer. E acreditei e continuo acreditando. Possível que esses estudos mineiros com o DNA (ou ADN) esclareçam se é ou não parte da carga genética que nos legaram os índios, que um dia já foram também silvícolas, mas silvícolas cheirosos. Talvez devido a banhos de rio e cachoeira e a esfregação de ervas especiais em pontos estratégicos do corpo.

Abro a boca, aspiro fundo, prendo a respiração e parto para as ruas da mesma cidade em que vive e trabalha a escritora Michele Hanson e seus dois cães boxer.

 
 
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