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Atualizado às: 28 de maio, 2007 - 10h54 GMT (07h54 Brasília)
 
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Entenda como o DNA é usado na busca por origens
 
ilustração de uma cadeia de DNA
Estudo do DNA ajuda a identificar ancestralidade
A BBC Brasil lançou o especial Raízes Afro-brasileiras, que busca a origem genética de celebridades negras do país e discute a composição de parte da sociedade brasileira.

Os resultados mostram a origem dos ancestrais, paternos e maternos, mais distantes desses brasileiros e estima também o percentual de genes europeus, africanos e ameríndios (indígenas) de cada um deles.

Mas como são feitos esses testes e o que eles significam? Seguem as explicações:

Como são feitos os testes?

É usada uma auto-coleta. A própria pessoa usa um kit que contém duas escovinhas e dois recipientes com álcool. Ela passa as escovinhas na boca para coletar células e as guarda nos recipientes, que são enviados para o laboratório.

Depois, a equipe do laboratório separa as células bucais do álcool e libera o DNA que está dentro delas.

As seqüências genéticas observadas no DNA analisado são, em seguida, comparadas com as que estão cadastradas em bancos de dados internacionais. Os resultados indicam, assim, em que populações foram encontrados conjuntos de seqüências genéticas (haplogrupos) iguais aos da pessoa analisada.

O que é o teste de ancestralidade genômica e como ele é feito?

O teste de ancestralidade genômica estima as porcentagens de genes europeus, africanos e ameríndios (indígena) de um indivíduo. As estimativas são baseadas na análise de determinadas regiões do genoma escolhidas por revelarem traços que distinguem genes associados à cada região geográfica. Assim, elas representam uma "média" do código genético de uma pessoa.

Os resultados dos exames dos convidados da BBC Brasil se basearam na análise de 40 pontos do genoma, que tem cerca de 25 mil genes. Essa é a metodologia usada pelo geneticista Sérgio Pena, professor titular de bioquímica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e diretor do laboratório Gene, responsável pelos exames.

Essas regiões são sempre as mesmas?

Não. O Dr. Pena escolheu essas regiões com base em seus estudos, mas outros especialistas podem utilizar um número diferente e porções diferentes do genoma. Segundo a professora titular de Organização do Genoma Humano do Departamento de Biologia da USP Regina Célia Mingroni Netto, "quanto maior o número de marcadores, melhor a estimativa, mas sempre será uma estimativa" já que é impraticável analisar todo o genoma.

E os testes de ancestralidade paterna e materna?

A ancestralidade paterna é rastreada pela análise do cromossomo Y (presente exclusivamente em homens), que é transmitido apenas de pai para filho e, a não ser em casos de mutação, sem sofrer mudanças.

O chamado marcador de linhagem revela assim o ancestral paterno mais antigo antes de uma mutação.

Ou seja, o Y de alguém que vive hoje no Brasil pode ser idêntico ao de um português que viveu no Algarve três séculos atrás ou ao de um africano trazido como escravo da África Ocidental no século 16.

O marcador da linhagem materna é o DNA mitocondrial, um "pedaço" de DNA que filhos homens e mulheres herdam apenas da mãe e que também atravessa gerações sem sofrer mudanças, salvo em caso de mutação. São os haplótipos (seqüências genéticas) encontrados no DNA mitocondrial que são comparados com os dos bancos de dados para determinar de onde saiu a ancestral materna mais antiga daquela pessoa.

É possível dizer há quanto tempo viveram esses ancestrais?

Não. Calcula-se que uma mutação ocorra a cada cinco mil anos, mas não há regra absoluta. Ou seja, ela pode ocorrer num tempo maior ou menor do que esse e, portanto, não é possível dizer a que época o Y ou o DNA mitocondrial analisados remetem. Quanto mais recente a mutação, maior a chance de se ter precisão geográfica nos resultados. Isso porque linhagens mais antigas que não tenham sofrido mutações por milhares de anos tiveram mais tempo para se espalhar e por isso geralmente têm um maior território de distribuição. Dessa forma, os haplótipos de uma linhagem antiga tendem a ser encontrados em um grande número de regiões enquanto as mais recentes tendem a ser encontradas em um número mais restrito.

É possível haver uma dissociação entre os resultados dos testes? Ou seja, por exemplo, o teste de ancestralidade genômica indicar que uma pessoa é 70% européia, mas os seus testes de ancestralidade materna e paterna indicarem ancestrais africanos?

Sim. O geneticista Francisco Salzano, professor titular de Evolução Humana da UFRGS, explica que a vantagem de estudar esses marcadores é que eles revelam informações bastante precisas porque não se recombinam ao longo das gerações. "Acontece que eles são uma porcentagem muito pequena do nosso genoma. O DNA mitocondrial e o cromossomo Y são unidades muito pequenas e podem não estar dando uma visão correta do que houve ao longo das gerações. Se a gente marcar 16 gerações - desde o descobrimento do Brasil, quando começou a haver mistura neste país - pode ter havido cruzamento em diferentes direções (que o DNA mitocondrial e o cromossomo Y não refletem)."

Existe uma margem de erro para os resultados? Se alguém refizer o teste pode ter resultado muito diferente?

Sim. Especialmente os de ancestralidade genômica, que são estimativas feitas com base em um processo de amostragem. O "padrão de erro" depende da metodologia adotada. No caso do método do Dr. Pena, ele próprio calcula a margem de erro em cerca de 2,5%. Sendo assim, resultados que indicam que uma pessoa tem entre 1% e 2% de uma determinada ancestralidade não são significativamente diferentes de zero. Além disso, os resultados de exames feitos por outro laboratório podem diferir se a amostragem for feita com base em outras regiões do genoma.

É possível alguém ser considerado negro, com características físicas mais africanas, ter uma composição genética majoritariamente européia? Por quê?

Sim. Porque os genes que determinam o nível de pigmentação da pele (e outras características como textura de cabelo, formato de nariz etc.) são uma parcela ínfima dos cerca de 25 mil genes que compõem o genoma humano. Em tese, uma pessoa considerada de origem africana meramente pela cor da sua pele pode ter percentual igual ou maior de genes europeus do que uma pessoa “branca”.

É possível falar em "raça"?

O termo "raça" é atualmente evitado por muitos geneticistas pela conotação política que já carregou e pelo uso ideológico que já foi feito em teorias racistas. Eles preferem usar conceitos como grupos continentais.

O geneticista Diogo Meyer, professor do Instituto de Biociências da USP, afirma que a criação do conceito de raça foi uma tentativa de explicar as diferenças entre os subgrupos da espécie humana, mas que os critérios originalmente usados como cor da pele ou formato do rosto não se confirmaram como os diferenciais de cada grupo nos estudos genéticos.

Assim, mais do que agrupar humanos como "negros", o que denota apenas a cor da pele, Meyer explica que é mais preciso identificar um grupo "africano", que, por meio do processo de seleção natural, desenvolveu, entre outras características, a cor da pele mais escura, mais apropriada para a vida na África. Ou seja, as diferenças entre os grupos estariam mais ligadas a origens geográficas do que a características físicas.

Já o geneticista Francisco Salzano sustenta que, apesar do mau uso que já foi feito do conceito de raça, o fato de ser possível distinguir características associadas a cada a grupo continental por si só já justifica o uso do termo raça.

"Uma raça é uma subespécie. A espécie humana se diferenciou em grupos continentais. Agora, com o aumento do fluxo intercontinental essas diferenças estão desaparecendo. Isso não significa que eles não tenham ainda diferenças genéticas marcantes", diz Salzano.

 
 
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