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Atualizado às: 27 de abril, 2007 - 10h00 GMT (07h00 Brasília)
 
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Por que não?
 
Ivan Lessa
"Why do you still do it?"

Foi o que me perguntou a enfermeira dando com uma pequena agulha no dedão de minha mão direita e esperando, serena, que a bolhinha de sangue surgisse, para que ela a recolhesse numa ampola e, depois, deixasse pingar numa espécie de lingüeta em forma de band-aid, que, em seguida, iria alimentar uma máquina semelhante ao mouse de um computador.

Ela estava me pesando o sangue. Ou medindo. Uma coisa assim. Trata-se de um ritual que sou obrigado a cumprir pelas leis ilógicas da sobrevivência, todo mês, há mais de cinco anos, a fim de saber a quantas anda (ou manca, rasteja) o meu sangue.

Ele tem que ter um INR entre 2 e 3. (Não tenho a menor idéia do que signifique a sigla INR. Só decorei duas siglas em minha vida: UDN e PTB.)

Sangue fino

Um pouquinho mais, um pouquinho menos, e as coisas vão mal. Eu vou mal, para ser mais direto, mais franco.

Foi o que o médico disse quando me colocou nesse programa que sai por conta do serviço nacional de saúde e cuja meta é manter o meu sangue mais fino – cordial, civilizado.

O serviço nacional de saúde, conhecido pela sigla – olha outra aí – NHS (National Health Service), anda mal, me asseguram os jornais. Para mim, vai bem.

Quem vai mal, quem não vai lá das pernas sou eu. Voltando ao meu sangue e sua espessura, que eu não vivo sem ele.

Todo dia eu tenho que tomar uma determinada dosagem de um medicamento que mantém o meu sangue no tal peso ou altura (entre 2 e 3).

Quando passa, e já passou várias vezes, e vai para 4 e tanto, ou quando não bate lá, e desce para 1 e pouco, a enfermeira anota num caderninho amarelo que eu ganhei, tudo cortesia do governo britânico, em 2002, e diminui ou aumenta a dosagem.

Todo esse carnaval é para evitar a formação do famoso coágulo. O coágulo, ao que parece, vive à espreita de uma bobeada minha. Um ponta adiantado para o meu lateral recuado.

No dia em que eu der sopa, em que bobear, o coágulo deixa sua posição entrincheirada e sobe, ou desce, para um confronto legal comigo e meu coração que, não sei porquê, bate feliz quando ouve o Carinhoso, do Pixinguinha.

Essa é a verdade. O coágulo que em mim se oculta quer ver minha caveira. Até agora, tenho levado a melhor na parada. Estamos, no mínimo, empatados. Ao menos nessa árdua peleja. Em outras, que em mim se disputam, não sei.

De vez em quando, eu sonho com meu coágulo. Como num desenho animado, ele tem olhinhos, que me espreitam feio, boca torta e pequeninos dentes afiados. Gordote e com dois palitos como bracinhos, tendo nas extremidades mãos com apenas quatro dedos e luvas brancas, ele poderia participar de um episódio dos Simpsons.

Preferiu, no entanto, minha companhia. Disputamos uma renhida pelada em terreno vagabundo, sem ninguém assistir, ninguém ligar, quanto mais torcer. Eles querem que a gente se dane. Eles estão certos. Nos danaremos.

"Why do you still do it?"

A enfermeirinha sul-africana, Isabel por nome, me perguntou enquanto esperávamos o resultado do INR de abril.

Era a primeira vez que me – tomava o sangue? Será essa expressão? Feito tomar a temperatura? Até agora todas as outras enfermeiras encarregadas da aborrecida, ou pelo menos sem graça, tarefa, sempre delicadas, sempre eficientes, nunca tomando partido, nem meu nem do coágulo, nunca haviam entrado em outros detalhes de minha coagulosa e coagulenta pessoa.

Isabel, talvez por ser sul-africana, e recém-chegada ao Reino Unido, ainda acredita em jogar conversa fora com gente doente.

Não precisava perguntar por minha idade, que minha ficha ela a tinha diante de si, mas queria saber o que eu fazia.

Menti um pouquinho. Disse que trabalhava. Que escrevia uns trecos. Ela queria saber o porquê. Aí eu devo ter deixado minha defesa escancarada para o coágulo.

Deu-me uma bobeira. Meu INR ficou plantado de quatro no chão da clínica, bem na entrada da área.

Em suma: eu não sabia o que dizer, que resposta dar. Pegou-me, a enfermeirinha Isabel, distraído, como se fosse ela o tão longamente adiado – esperado? – coágulo.

 
 
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