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28 de março, 2007 - 22h39 GMT (19h39 Brasília)

Denize Bacoccina
De Brasília

Polêmica racial desmascara ilusão de harmonia, diz antropólogo

A polêmica criada a partir das declarações da ministra da Integração Racial, Matilde Ribeiro, de que "não é racismo um negro se insurgir contra um branco" é uma reação à quebra de expectativa na sociedade brasileira de que existe no país uma harmonia racial, na opinião do antropólogo João Batista Borges Pereira.

"É como se houvesse um acordo tácito e todos falassem de maneira mais harmoniosa, cautelosas em emitir opiniões sobre o assunto", afirmou Pereira, professor de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP) e do Mackenzie e autor de vários livros sobre racismo.

Para o antropólogo, a sociedade brasileira vive na ilusão de uma democracia plena, onde todos convivem em harmonia e as diferenças nunca são explicitadas.

"A fala dela de certa maneira choca por causa disso. Porque desafia este clima muito melindroso, no qual as pessoas entram com muita cautela", diz.

Leia a entrevista da ministra à BBC Brasil

Opine: É natural haver tensões entre negros e brancos?

Cautela

Até mesmo no movimento negro, analisa Pereira, o discurso é cauteloso, apenas de reivindicação e de igualdade, sem confronto.

"Não tem uma retórica racista de agressão ao branco. Pelo menos eles não expressam isso. Não é de bom tom", afirma.

"A ministra Matilde começou a falar em uma linguagem que, no Brasil, é tida como um pouco politicamente incorreta", diz. "Este tipo de coisa pode criar uma impressão muito ruim a este Brasil que busca harmonia, e não ódio racial."

A ministra disse à BBC Brasil que entende e considera natural que um negro não queira conviver com um branco porque "quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou".

A entrevista da ministra provocou debate, mas também uma forte reação de condenação às declarações de Matilde Ribeiro. A reação não surpreendeu o especialista. "É mais ou menos o que a gente encontra (em pesquisas). As pessoas condenam este tipo de atitude", afirmou.

Pereira diz que pesquisas de sua autoria e de outras fontes mostram que o brasileiro acredita que existe que racismo no país, mas não se coloca como racista.

O mesmo ocorre, afirma o antropólogo, com as vítimas do racismo: normalmente, as pessoas dizem que o problema existe, mas nunca se colocam como vítimas.