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Atualizado às: 16 de março, 2007 - 09h42 GMT (06h42 Brasília)
 
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Ivan Lessa: Livros e atores
 
Ivan Lessa
Resumo: “Daí então o príncipe André tomou Emma em seus braços e, com um tiro certeiro, acertou Vronsky bem no meio da testa.”

Assim terminam os seguintes romances: Guerra e Paz, Madame Bovary e Ana Karênina. Pelo menos 76% dos leitores alfabetizados não notarão a menor incongruência nesse inesperado (para quem leu os livros) happy ending (nunca escreva happy end, como 99% dos brasileiros alfabetizados; isso não existe).

O site no qual barbudamente me encaixo está dando o resultado de uma pesquisa encomendada por um serviço de notícias por televisão, o Teletext, segundo a qual a maior parte das pessoas não termina os livros que começa.

Nunca tive dúvidas. Eu nunca cheguei à última página de um livro. Mais: não cheguei sequer à última página dos livros que escrevi.

O romance clássico é uma cobrança feita às pessoas que freqüentam saraus boêmios ou sociais.

Lá por volta dos 16 anos, quando dá um troço na gente, feito puberdade ou terçol, e se começa a ler tudo quanto é livro em torno, principalmente aqueles que pessoas mais atrevidamente mentirosas do que nós cismam de chamar “clássicos” ou “grande literatura”.

A coisa começava com Camões, passando depois por todos os lugares-comuns do gênero, de Chaucer, Cervantes, Shakespeare e Voltaire (todos lidos, digo “lidos”, na língua original, é claro) ao mais ou menos nosso querido Eça de Queiroz e, evidentemente, Machado de Assis.

Mentíamos que havíamos lido de cabo a rabo Os Sertões, de Euclides da Cunha, e, depois, com mais desfaçatez, afinal já estávamos grandinhos, Guimarães Rosa.

Ríamos dos pobres coitados que perdiam seu tempo com Aldous Huxley, Somerset Maugham ou Roger Martin du Gard. Esses eram uns medícores ultrapassados e o fato de serem publicados em português pela Globo, de Porto Alegre, contava ponto contra.

Lentos mas seguros, íamos descobrindo o vocabulário e a sintaxe da mentira e da enganação. Não havia Google, mas sempre se dava um jeito de recorrer a sinopses, versões em quadrinhos ou narrativa eloquente de amigo mais velho e – quem o saberá? – que já lera de verdade (afinal o que é a verdade?, nos perguntávamos no terceiro chôpe, ali no Alcazar, na Avenida Atlântica) os autores em questão.

Contracapa e orelha, de pé e na moita, na livraria, ajudavam um bocado no embuste. Havia, no entanto, como ainda há, uma maneira melhor, ideal mesmo, de se ler um livro.

Curso relâmpago de leitura

Chamávamos, e ainda chamamos, de “ler na diagonal”. Muito melhor do que aquela bobagem que, há alguns anos, entrou em moda, tal da “leitura dinâmica”.

Ler na diagonal é assim: você pega o livro em questão, que não deve ser muito complicado, feito o Ulysses, de James Joyce, abre no meio, dá uma boa cafungada no bruto, que é para dar clima, e depois lê – mas lê mesmo – umas duas ou três frases de 50 em 50 páginas.

Todo o Proust pode ser varejado neste método, sem perda de tempo, e o jogo de palavras é proposital e tem o fito de me dar a devida autoridade que me falta. Nesse caso, o do petit Marcel (uma ligeira e leviana intimidade dá charme e erudição), forçoso é passar os olhos num resumo ou outro, se alguém foi capaz de resumir, e ler a respeito – repito: a respeito – e nunca, nunca a coisa em si.

Livros e artigos, principalmente esses últimos, que são de mais fácil e rápida assimilação, são imprescindíveis.

Enganar é preciso, ler não é preciso. Nunca ler um livro todo. Sempre deixar um livro de repente, como deixam nos portos as mulheres os marinheiros que se vão.

O mistério iniciado na primeira página deve se estender por toda nossa vida e, até seu fim (de nossa vida, claro), deve mistério continuar.

Que passou pela cabeça do príncipe André passeando pelos chacinados em campos de batalha napoleônicos? Em que pensava Anna Karenina dois segundos antes de se atirar debaixo do trem? Antecendo seu suicídio, Emma Bovary teve uma fração de segundo de arrependimento? Não vem ao caso. O importante é citar os nomes mágicos, botar o bloco na avenida, passar a perna no bobalhão que é nosso mundo.

Uma última palavra

Tudo que foi dito até agora não vale nem para conto, nem para crônica, que são curtinhos por natureza, mentem quase tanto quanto nós, mas não se prestam à “leitura em diagonal”. Minto. Conto de Tchecov e Katherine Mansfield basta ter uma idéia vaga do que tratam. Hoje temos o computador, todo mundo está escrevendo, quase ninguém está lendo, a pilantragem é mole, mole.

Ah, sim. Conforme dizem, nós, brasileiros, até o Paulo Coelho, 7º. na lista de best-seller menos lidos, temos o fôlego curto. Todos aos blogs portanto. Duas linhas apenas, como no banheiro da festa. Sumamos do mapa literário. Livro já era. Como sempre foi.

 
 
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