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Atualizado às: 14 de março, 2007 - 10h45 GMT (07h45 Brasília)
 
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Acho-te uma graça
 
Ivan Lessa
Eu gostaria de ter um tostão por cada vez que cito uma música popular brasileira. (Eu gostaria também de ter essa “porcada” aí de cima.)

Hoje, para treinar a memória e o canto em voz baixa, que não aporrinhe o colega ao lado, pego de nosso cancioneiro e, num imaginário índice onomástico, anoto tudo que tenha a ver com risos e sorrisos, pois somos gaiatos, vivemos achando graça nas coisas, temos aquele famoso senso de humor que, um dia, partiu mundo afora e, dizem os mau humorados, não voltou mais.

Então vamos lá. Getúlio, Gegê, Rebeco, o inesquecível. A marchinha lembrava: "um sorriso do velhinho faz a gente trabalhar". Possível, afinal fora ele quem instituíra a carteira de trabalho assinada. "Sorriu para mim, não disse nada porém fez um jeitinho de quem quer voltar…" Voltar para o João Gilberto, isto é, segundo o samba de Garoto com letra de Luiz Cláudio.

Engrossando um pouco: "…e eu vou gargalhar, quá, quá, quá…" que para mim é com o Jackson do Pandeiro, mas outros gargalharam e qua-qua-quaram também.

"Sorrio de meu Rio que sorri de tudo…" Ronaldo Bôscoli, antes das balas começarem a perder seu caminho e se aninharem nas pessoas e lugares mais inesperados. Aí entra o Rio, me dá uma tristeza e, como se eu fora rural, levanto uma lebre só para sair da depressão de nossa (vossa?) cena urbana atual: será que há mais lágrimas do que sorrisos em nosso cancioneiro? Acho que empatam.

Para cada três lágrimas derramadas por Ary Barroso há três sorrisos soltos por Altemar Dutra (sim, Altemar Dutra). Nem adentro território da música americana. O Smile, do Carlitos, levou versão do Braguinha, e virou, claro, Sorriso, que chegou a ser gravada pelo Djavan.

Abramos um largo sorriso para isso tudo, passemos adiante.

Sorrir é o mais idiota dos remédios

O governo britânico está pensando na possibilidade de melhorar o serviço nacional de medicina, o National Health Service, instruindo médicos, enfermeiros e enfermeiras a sorrirem para os pacientes.

Minha vontade é apropriar a marchinha que já citei e sugerir que adotem e façam uma versão daquela marchinha: "um sorriso do doutor faz a gente melhorar". O que é uma grossa mentira. O governo levou seis meses e botou suas melhores cabeças (sim, ele as tem, segundo dizem) para encontrar formas de melhorar o sistema.

Teve discussão, teve focus groups (pode me chamar de “grupo de enfoque”), teve risos, lágrimas talvez. Chegou-se no entanto a um resultado.

Esse aí. Sorrir.

No que entro em cena…

Permitam-me personalizar um pouco essa história. De uns anos para cá, conforme é comum acontecer a todos que vivem de uns anos para outros, dei para topar com mazelas intransferíveis.

Nada de muito, muito grave, mas o suficiente para me chatear, ter a vida dificultada, além de chatear e dificultar a vida dos que me cercam. O coração batendo fora do compasso, como um baterista de escola de samba de terceira categoria, os pulmões feito bêbados dando vexame e se queixando com fúria e aos palavrões – com toda razão, frise-se – de 50 anos do cigarrinho que sempre alternei entre mão e boca, com suas desnaturais sequências naturais.

Iniciei então o longo e doloroso percurso da medicina socializada. Filas enormes, na base de quase um ano, só para um cardiologista me tomar a pressão e me auscultar por uns minutos.

Pulmões? Me pesaram, tiraram a pressão, saí com data para radiografia dentro de três meses e receitinha na mão para dois inaladores. Tudo de graça, sim senhor. Mas continuo me arrastando, para exagerar um pouco, passei para médico pago (muito, mas muito bem pago mesmo) e vou me arrastando por aí. Sorrindo, é claro.

Seguinte: o médico pode me fazer cara feia, tratar até aos pontapés se quiser, mas meu focus group particular me diz o seguinte: o negócio é funcionar. Eles, médicos e enfermeiros. Se tempo sobrar, funcionarem também meu coração, meus pulmões. Mesmo que seja de forma medíocre. Topo.

 
 
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