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Atualizado às: 09 de março, 2007 - 08h25 GMT (05h25 Brasília)
 
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Yes, nós temos bananas
 
Ivan Lessa
Os ingleses não entendem nada de banana. Falou em banana é como com jogador de futebol: tem que importar para que haja campeonatos, times, estádios, torcedores, toda essa máquina de fazer dinheiro em que se transformou o que muitos, com algum senso de humor, ainda chamam de “o nobre esporte bretão”.

Perguntem ao Drogba, ao Thierry Henry, ao Makelele o que eles acham disso. Ririam da pergunta e dariam – se o gesto sobrou em terras dos brasis – uma banana.

Que era o que eu tinha diante de mim: uma banana. Lá está ela, a banana. Cá estou eu, o embananado. The banana is on the table.

Estou partindo para meu 30º ano de Reino Unido e tenho pudor em criticar.

Parece-me, mesmo depois desse tempo todo, falta de educação. Mas a verdade, assim como o azeite italiano virgem importado, tem que estar sempre por cima.

Digo e repito: os ingleses não entendem nada de banana.

Para que não me chamem de covarde, garanto que já fiz essa afirmação no idioma de Shakespeare e Salman Rushdie. “You people know nothing whatsover of bananas”.

O “whatsoever”, bem sei, era dispensável, mas ele dava fluência musical ao meu discurso além de aparentar uma autoridade que, para ser franco, falta-me.

Meu interlocutor (eu só levo papo com interlocutor) perguntou-me, por gentileza, o que é que eu queria dizer com isso.

Estávamos num pub, ainda no primeiro litro de cerveja, tudo eram sedas rasgadas. Comecei como é de meu feitio a lecionar, embora o faça mal e porcamente em inglês.

Antes de mais nada, cantarolei a cançoneta americana de 1923, de Frank Silver e Irving Cohn, Yes! We have no bananas, que virou filme em 1930 e marchinha do João de Barro e Alberto Ribeiro no Brasil, em 1938. Omiti, por delicadeza, os versos que falam no fato de uma banana conter vitamina, engordar e fazer crescer.

Expliquei, a seguir, que aqui, no Reino Unido, você vai ao verdureiro, à feira, ao supermercado, à grande loja de departamentos e pergunta para um funcionário do estabelecimento onde ficam as bananas.

Com a gentileza que lhes é peculiar, ele lhe apontará para um estande repleto do fruto em questão. Você notará que são todas iguais, as bananas. Variando no máximo uns 2 ou 3 cm no comprimento ou circunferência.

De resto, tudo o mesmo sem tirar nem por. Da rica paleta do mundo desse fruto oblongo e de polpa carnosa, apenas um amarelo aqui, um verde desbotado ali.

Ambas as cores de um calipso ou reggae caribenho, que é de onde provém a paupérrima variedade do insinuante objeto em questão. Gosto? Um só. O de banana caribenha.

Ali naquele mesmo mesmo lugar

Volto, no entanto, ao pub e ao companheiro mordido em sua curiosidade.

Com meu ar mais pedante (não esquecendo de fingir um certo tédio e me abanar com a mão direita para evitar o fumo do meio-ambiente), começo minha história, sherazade de bar de esquina, encantador de chatos apenas há pouco conhecidos, e vou explicando que venho de uma terra distante onde em se plantando tudo dá e todos dão com extrema facilidade e a qualquer pretexto.

Falo da riqueza de nossas matas, da pujança de nossos rios e cachoeiras, da ferocidade de nossos animais selvagens, da lhaneza dos bichinhos domésticos e nossos criados e, para ficar no caso, da esplêndida variedade de nossas bananeiras.

Vou enumerando em português mesmo para mais impressionar: banana-anã, banana nanica, banana-prata (também chamada de banana-maçã, para confundir possiveis conquistadores), banana d'água, banana da terra, banana da lua (eu sei, não existe, mas deveria), banana-figo, banana-francesa (chique e safadíssima), banana-gabu e mais um Houaiss e um Aurélião de consignações bananosas.

Encerro, horas depois, com uma bananada e uma bananinha, como chamam o que já foi, no Rio, mariola, e os dicionários (Houaiss) não dão, pois os dicionários gostam de ficar na confeitaria tomando chá com torradas e não umas bananinhas fritas com açúcar e canela em cima e – mas aí já entrei em outro capítulo, o da banana e suas várias maneiras de prepará-las.

E são 11 horas da noite, são 11 rodas de chope, 11 vezes dei a volta à minha saudade de uma bananinha nanica, mesmo lá da Martinica. Pálido e sem esperança, volto para casa.

 
 
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