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Atualizado às: 09 de fevereiro, 2007 - 08h59 GMT (06h59 Brasília)
 
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Eu quero é mocotó
 
Ivan Lessa
Eu não quero mocotó. Eu nem gosto de mocotó. A não ser a geléia de mocotó. Aquela que se come feito sobremesa.

A última que provei, no entanto, lá pelos meados dos anos 70, tinha vidro moído logo em cima do copinho que se comprava na Colombo de Copacabana e isso – cortesia de meu exigente paladar -- me fez parar com o mocotó. Sob qualquer forma, debaixo de qualquer tempero.

Mas tenho saudade. Isso é importante e eu vivo repetindo. Saudade, com toda sua estúpida carga emocional, eu só tenho no paladar.

Mesmo o visual do Redentor, as praias, aqueles postais todos, não me dizem mais nada. Sei o que ocultam, conheço o que está por debaixo. Vidro moído, digamos, para sustentar a analogia inicial.

Saudade, portanto, de – lá vou eu de novo – pastel de queijo, caldo de cana, feijãozinho. Os dois primeiros não tem como se quebrar o galho, a não ser em casa. Em casa de quem?, pergunto. Na minha é que não.

Mas eu falava em mocotó. Como salgado (eu prefiro comer doce, para fazer trocadilho estúpido, já que estamos, ou estou, a lidar com tradições brasileiras), acho que nunca provei mocotó. Se vem no meio daquela carne toda da feijoada, então já. Se não, então não.

Fato é que mocotó, para mim, traz ainda uma conotação subversiva e nostálgica.

Ora, pipocas!, até a palavra “subversiva” passou a ganhar, com o correr dos 10 mil metros rasos do tempo uma aura nostálgica. Essa é a grande, se não a única vantagem do passado: ter passado, ser passado.

Volto ao mocotó, que esfria (ou esquenta) na mesa que sirvo mau e porcamente. Falar nisso: porco tem mocotó? Mas estou é divagando e ganhando tempo, esse último uma contradição em termos, já que tempo só se pode perder, para isso existe e só assim funciona.

Não adianta brigar comigo, leitor ou leitora: eu vou tergiversar às pamparras, a coluna é minha e os incomodados que se retirem e corram para outra página ler o blog do Carlinhos Silveira Jr, uma das maiores tolices que já surgiram na Net.

Mocotó me cheira a subversão devido ao ano de 1969, quando o chumbo comia solto no Brasil brasileiro e, num daqueles festivais internacionais da canção (ei, gente não dá para tacar algozinho deles lá no meu amado YouTube?), o Erlon Chaves, bom músico e pessoa dúbia, me asseguram, defendeu uma música cujo refrão repetia incessantemente, “Eu quero mocotó, eu quero mocotó, eu quero mocotó...”.

Mocotós, no caso, referindo-se às pernocas das moças. Parece que era composição do Jorge Ben, antes dele adotar seu atual pseudônimo artístico de “seu” Jorge. Deu um bolo danado e eu não tenho a menor idéia porquê. De mocotó, até agora, para mim, era esse o verbete único em meu dicionário.

Zi mocotó in London, London

Abriu suas portas, no fim do mês passado, um novo restaurante brasileiro aqui em Londres, Londres, conforme Caetano, Caetano Veloso, Veloso gosta de chamar esta cidade.

Agora, enfim, justificarei toda minha lengalenga até agora sobre o pezão do boi. Nome do restaurante? Mocotó. Fica no benzérrimo bairro de Knightsbridge, onde você paga pedágio só para olhar (então é “olhágio”, confere?).

Parece que é uma beleza e a se julgar pela única foto que vi. Foi “designed” (único termo cabível) pelo esplêndido Isay, cuja obra “restaurantadora” tive oportunidade de observar com atenção no Rio, em agosto do ano passado, e tem até boteco, com O e não U (um erro), onde servem as cada vez mais populares caipirinhas, ou “little hicks”, conforme as chamam em Nova York.

Servem também sanduíche Beirute, que eu mudaria o nome voando para qualquer outro especialmente “designed”, e há oito cadeiras “designed” pelo Sérgio Rodrigues.

Todos os pratos do “Mocotó” são também assim: “designed”. Trata-se de um restaurante “designed”. Que é precisamente o que pede e se passa em Knightsbridge, um bairro de “designers” para “designers”.

Claro que tudo em Knightsbridge e no Mocotó é uma fortuna. Claro que eu não tenho condições de chegar nem em um nem em outro. Claro que eu só leio sobre eles, bairro e restaurante.

Outro dia, li, com a merecida atenção, as críticas gastronômicas do Daily Telegraph, que reclamou da picanha (claro, é um jornal conservador), e do Metro, que é distribuído gratuitamente no metrô, onde também não foi a crítica, uma irlandesa, das mais generosas. Também o que é que esperavam? O julgamento foi feito e assinado por uma irlandesa, raça que, em matéria de comida, até hoje só pegou, e de raspão, o significado da batata. Não sendo batata, está totalmente por fora.

Continuarei acompanhando o fenômeno, torcendo para virar ao menos controvérsia. Isso farei com os jornais abertos diante de mim, lendo-os na hora de tacar no microondas o “spaghetti carbonara” da barateira loja de departamentos Marks & Spencer.

Um dia, quem sabe?, eu chego lá. Não morro sem ver as oito cadeiras do Sérgio Rodrigues, que, até agora, eu pensava que só entendesse de se escrever bem, conforme acompanho em seus livros e suas colunas no “site” Nomínimo.

 
 
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