http://www.bbcbrasil.com

16 de novembro, 2006 - 14h51 GMT (12h51 Brasília)

Alasdair Sandford
De Paris

Ségolène Royal conduz a esquerda francesa a um novo caminho

A França deu um importante passo nesta quinta-feira para eleger a primeira mulher como presidente do país.

Ao mesmo tempo, Ségolène Royal, ao vencer a disputa interna para a indicação do Partido Socialista, desferiu um significativo golpe no esquerdismo tradicional da agremiação.

A campanha gerou comparações com a política dos Estados Unidos. Três debates na TV podem ter sido tediosos, mas a guerra suja fora das telas poderia ter sido digna de uma eleição presidencial americana.

Usuários de internet devoraram sites, como um chamado ‘o lixo das primárias’, para ler as últimas postagens nos blogs atacando candidatos adversários.

"Chauvinismo"

Ségolène Royal provocou risos em seu último comício em Paris nesta semana ao atacar o “chauvinismo masculino” de seus competidores.

Seu adversário Laurent Fabius reagiu a suas pretensões eleitorais perguntando: “Quem vai cuidar das crianças?”.

O outro adversário, Dominique Strauss-Kahn, teria comentado uma de suas atuações na TV com as palavras: “Ela teria feito melhor em ficar em casa ao invés de ler as suas receitas de cozinha”.

Em boa medida, ela lembrou a zombaria dos mesmos candidatos sobre seus relatos quando ela foi ministra do Meio Ambiente no início dos anos 1990. “Isso é assunto de mulher”, disseram a ela.

Ambos os rivais negam ter feito os comentários. “Eu não sou um chauvinista”, afirmou Fabius.

“Eu nunca disse nada do gênero”, disse Strauss-Kahn, acusando-a de fazer as acusações sem provas.

Vídeo

Talvez Royal precisasse desviar a atenção da disputa em que se viu rodeada na última semana.

Em um vídeo gravado em janeiro, mas somente publicado na internet na semana passada, ela disse numa reunião partidária que ela queria criar uma “revolução” na educação para combater “o fracasso das escolas”.

Segundo ela, os professores deveriam passar mais horas dentro das escolas, ao invés de dar aulas particulares fora delas.

Tais comentários seguem um padrão: ela desafiou abertamente os tradicionalistas de seu partido ao pedir mudanças no sistema que determina que crianças vão a quais escolas.

Mas seu reconhecimento de que ela não queria “gritar para todo mundo ouvir” suas idéias sobre os professores claramente se voltou contra ela. O vídeo foi assistido por centenas de milhares de internautas.

Os professores, muitos deles membros do Partido Socialista, reagiram com raiva.

As pesquisas de opinião continuaram a dar a Royal uma liderança significativa, ainda que reduzida, sobre seus dois rivais.

Pesquisas

Mas, como muitas pessoas estão percebendo agora, as opiniões dos que realmente contam não são mensuradas. As pesquisas questionam os simpatizantes do partido, não os filiados que votaram nesta quinta-feira.

Nos últimos meses, dezenas de milhares de pessoas pagaram a taxa de 20 euros (cerca de R$ 55) para se filiar ao partido.

Será que eles se inspiraram pela posição nova da líder nas pesquisas, por sua disposição de desafiar as antigas fórmulas partidárias, por seu glamour?

Ou eles teriam se filiado para defender o socialismo tradicional, alarmados pelo que vêem como uma traição dos valores básicos da esquerda?

Talvez uma pista possa ser colhida das multidões que compareciam em todo o país sempre que Royal aparecia em um evento.

Não há dúvida de que ela dominou a campanha. Quase metade das questões colocadas aos candidatos pelos leitores de um jornal estavam endereçadas a ela.

Se ela não tivesse conseguido uma maioria definitiva no primeiro turno, uma aliança entre seus adversários de esquerda poderia significar uma séria ameaça.

Intenções de voto

Uma pesquisa publicada pelo jornal Le Figaro nesta semana pode ter dado o que pensar para os eleitores socialistas hesitantes.

Uma pesquisa sobre as intenções de voto para as eleições presidenciais coloca Ségolène Royal cabeça-a-cabeça com o conservador Nicolas Sarkozy.

O levantamento também sugere que os outros dois adversários socialistas seriam batidos com folga pelo provável candidato da direita.