20 de outubro, 2006 - 10h06 GMT (07h06 Brasília)
Sou retrógrado. Desses de babar. Uso o computador porque tenho que comer.
Na verdade, prefiro lápis e papel. Pensando bem, o cinzel e o pedaço de pedra me bastariam.
Cheguei à idade da razão, que é precisamente quando não se vê razão para nada. Principalmente novidade. E qualquer alvoroço em torno.
Televisão digital em tela de plasma, carro que não seja puxado por burro ou cavalo, liquidificador, torradeira, tudo isso me é odioso.
Imaginem o que não sinto diante de um microondas, que eu nem sei direito para que serve, mas juro que dá câncer.
O mundo avança e eu recuo, junto com minha linha média. Essa a minha tática imbatível. Exagero pois exagerar é um dos raros prazeres que sobram aos velhos.
Verdade, mas verdade mesmo, é que o progresso só o vejo com desconfiança e minhas quatro patas atrás.
Meia passagem do tempo
Londres me era cara quando era barata. Eu quero dizer que tudo passou a mudar muito rápido por aqui. Mais charmoso que o Museu Britânico da canção dos irmãos Gershwin era constatar a lentidão com que os cidadãos do país aceitavam o progresso.
Não eram novidadeiros, feito a gente. Nós não podemos ver camelô vendendo abridor de lata com imã ou a última palavra em matéria de descascador de cenoura ou batata para não furarmos a fila e comprar logo dois de cada um.
Por isso estamos mais informatizados que os britânicos e até mesmo, em certas coisas, os americanos. Olha aí essas milhões de urnas eletrônicas.
Demos um banho cibernético no mundo inteiro e pouco nos gabamos do fato. Não que me impressione, mas eu vivo pedindo um pouquinho mais de consistência por parte de meus queridos compatriotas.
Se batem no peito e berram inanidades cada vez que a seleção ganha um jogo ou campeonato, deveriam uivar de orgulho com a forma como lidamos com os mistérios dos algoritmos que nos levam às malhas da Net.
Custo mas chego lá
Feitas estas ponderações, o equivalente ao velho ameaçando com a bengala a molecada jogando bola em frente à sua casa, vou – finalmente! – ao assunto.
E o celular? Pode ser mais odioso? Nunca conheci ninguém que tivesse travado uma conversa útil ou racional num celular.
O celular é instrumento de trabalho de corretores vagabundos e vendedores de crack. O resto é exibicionismo. É solidão. Incapacidade de ficar quieto um minuto que seja.
Eu sou do saudável tempo em que um telefonema razoavelmente urgente (mentir para uma mulher dizendo que batera com o carro, não ia dar para ser naquele dia) se dava de botequim de português ao lado daquele cartaz escrito a mão, com o preço (5 minutos = 2 mil réis).
Daí inventaram o orelhão e começou a esculhambação. Agora, é celular, celular, celular. Todo mundo celulando o tempo todo.
Com a sabedoria e pragmatismo que lhes é peculiar, os britânicos responsáveis pela British Telecom, o quase monopólio que liga casa a casa e, agora – cáspite! – computador a computador, banda larga ou estreita, resolveu que, já que de seus 63.500 quiosques funcionando no país, apenas 23.000 dão um lucrozinho, o preço do telefonema enquioscado vai ter de subir. E subir pra valer.
Fazem muito bem. Quiosque de telefone inglês, rubro desenho industrial dos anos 30, bolado pelo genial Giles Gilbert Scott, só é usado como mictório ou vomitório.
Duas funções legítimas do ser humano. Bem mais racionais do que ficar trocando sandices com outro idiota por quiosque ou, horror dos horrores!, celular.