BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
 
Atualizado às: 30 de outubro, 2006 - 04h31 GMT (01h31 Brasília)
 
Envie por e-mail Versão para impressão
Para cientista político, Lula sai fortalecido de 2º turno
 

 
 
Lula comemora na avenida Paulista
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno foi "paradoxalmente mais vantajosa para o presidente do que teria sido uma vitória no primeiro turno", na opinião do cientista político Cláudio Couto, da PUC de São Paulo.

"Eu acho que quando o presidente tem uma votação tão expressiva sobre seu adversário, como Lula teve agora, isso dá um fôlego, dá uma legitimidade e, ao mesmo tempo, tira um pouco da legimitidade da oposição para bater muito forte no governo daqui para a frente."

Para Couto, a grande supresa do segundo turno, porém, não foi o crescimento de Lula, mas o fraco desempenho de Geraldo Alckmin (PSDB).

O cientista político acredita que o PT deve passar por mudanças e perder espaço no governo durante o segundo mandato.

Leia abaixo a entrevista exclusiva à BBC Brasil:

BBC Brasil - Lula acabou se saindo melhor no segundo turno do que se esperava logo depois do primeiro turno. Como o senhor explica isso?

Cláudio Couto - Eu acho que sobretudo Alckmin foi pior no segundo turno. Ele teve menos votos no segundo turno do que teve no primeiro.

Eu acho que ele perdeu esses votos porque adotou uma postura muito agressiva, que o descaracterizou como candidato. Isso talvez tenha gerado um problema de confiabilidade. O eleitor pode se perguntar "Qual é o Alckmin? É aquele que a gente sempre viu ou é esse que está se apresentando agora?"

É muito provável também que tenha muito eleitor que tenha votado no Alckmin para dar segundo turno, para punir o governo e, passado esse momento, ele volta a sua posição original, que talvez tivesse preferido manifestar.

BBC Brasil - O senhor acredita no chamado terceiro turno? Na radicalização da oposição do PSDB e PFL, com tentativa de levar a disputa agora para a Justiça ou para o Congresso via CPIs?

Cláudio Couto - Tudo depende do aparecimento de fatos novos, sobretudo nesse campo extra-política, das denúncias de corrupção, compra de dossiê e coisas desse gênero.

Se nada disso acontecer, eu acho que fica muito difícil para a oposição apostar nesse terceiro turno. Caso haja fatos novos, esse clima de radicalização pode recrudescer.

Mas há um movimento que aponta num sentido contrário. É o caso da posição do Aécio Neves que disse que, passada a eleição, vai se preocupar em governar, vai se perocupar com o país, com seu Estado e tenderá a negociar com o governo. Acho que o próprio Serra pode apontar nessa direção.

Embora eles sejam dois prováveis candidatos daqui a quatro anos, eu acredito que eles tenham mais interesse em fazer avançar, em ter um governo mais azeitado daqui a quatro anos do que apostar no tudo ou nada.

BBC Brasil - Nesse quadro, a vitória por uma margem de 20 pontos percentuais facilita ou dificulta essa acomodação?

Cláudio Couto - Eu acho que quando o presidente tem uma votação tão expressiva sobre seu adversário, como Lula teve agora, isso dá um fôlego ao presidente, dá uma legitimidade e, ao mesmo tempo, tira um pouco da legimitidade da oposição para bater muito forte no governo adqui para a frente.

Um governante eleito com toda essa margem pode dizer que a oposição está ressentida. Por incrível que pareça, se a eleição tivesse se resolvido no primeiro turno, é possível que houvese um clima de maior animosidade, menos legitimação do governo do que com esse segundo turno.

Paradoxalmente, acabou o segundo turno sendo mais vantajoso para o presidente do que teria sido a vitória de cara.

BBC Brasil - Que papel sobra para Geraldo Alckmin no PSDB e na oposição nos próximos quatro anos?

Cláudio Couto - Tendo em vista o desempenho muito ruim neste segundo turno, eu acho que Alckmin é uma estrela em descenso na oposição e no PSDB.

Eu acho que os governadores (do PSDB), primeiro por terem mandato, segundo por terem tido uma grande votação nas urnas, tendem a se tornar figuras protagônicas. A própria Yeda Crusius. Ou seja, os tucanos com governo.

BBC Brasil - Como o PT saiu desse processo?

Cláudio Couto - O PT sai com um quadro complexo. Mais fortalecido nos Estados do que há quatro anos. Ganhou pelo menos dois Estados muito importantes. O Pará, maior Estado da região Norte, e a Bahia, maior Estado do Nordeste. Isso é significativo.

Perdeu em Mato Grosso do Sul, mas manteve o Acre e ganhou Sergipe e tem vários aliados em outros Estados.

Mas há uma mudança, sobertudo na bancada no Congresso. O PT é hoje um partido menos paulista, menos sudestino e sulista e mais nordestino e nortista.

Isso tende a mudar o balanço de forças dentro do partido, até por conta dos últimos episódios, como o do dossiê, em que o grupo de São Paulo, que era o grupo hegemônico dentro do partido, teve papel fundamental.

É possível que haja uma luta dentro do PT e dentro do governo para mudar o poder para aqueles que têm mais votos e mais legitimidade.

Isso pode tornar o partido menos oligárquico, menos centralizado nas figuras daquela linha mais dura, de extração leninista. O que pode provocar uma mudança nos métodos do PT nos próximos anos.

BBC Brasil - O presidente já disse que o próximo governo tende a ser um governo mais de coalizão, sinalizando que o PT talvez tenha menos poder, abrindo espaço talvez para o PMDB. O senhor acredita nisso? E como vê um eventual governo de coalizão?

Cláudio Couto - Eu acredito e acho que se isso se concretizar é um acerto.

Foi um erro muito grande um governo tão petista, com dois terços dos ministérios. Sobretudo considerando o peso relativo do PT dentro do Congresso.

Tudo bem, o PT tinha o presidente da República, isso muda o balanço de forças, mas tinha 17% das cadeiras da Câmara. Os outros partidos da aliança tinham um ministério cada, e ministérios secundários. O PMDB só entrou no governo passado um ano.

Era preciso ter feito um governo mais amplo desde o começo. Isso teria facilitado as coisas, criado menos tensão.

Essa sinalização que se faz aponta nessa direção, de que o PMDB comece mais forte, de que os outros partidos tenham mais espaço. É bom lembrar que eles também conquistaram estados importantes. Acredito até que possa haver uma reaproximação com o PDT.

BBC Brasil - O que se pode esperar da relação do governo com o Congreso?

Cláudio Couto - Eu acho que o governo vai ter maiores dificuldades no começo dessa segunda administração do que no primeiro mandato.

Houve no atacado uma perda de cadeiras daquilo que a gente pode denominar coligação da situação.

Vai ter a meu ver num primeiro momento uma relação mais difícil com a oposição.

O PMDB pode ser importante, mas mesmo agregado ao PT e aos demais partidos que hoje estão com o governo não consegue completar o quórum para aprovar emendas constitucionais.

Muitas políticas públicas dependem de mudanças constitucionais, é muito difícil que qualquer agenda governamental possa ser levada adiante sem mudanças na Constituição.

Por isso, é preciso maiorias muita ampliadas. Maioria ele pode até ter, mas não maioria para emendar a Constituição.

BBC Brasil - Os dois candidatos deram declarações dúbioas, quando não contraditórias, sobre política econômica no próximo governo. Hoje, o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, disse que acabou a era de Palocci na economia. Mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem falado em ajuste fiscal e déficit nominal zero. Na sua opinião, para onde vai a política econômica de Lula no segundo mandato?

Cláudio Couto - O que elegeu o Lula, além das políticas sociais, foi a estabilização da economia, a queda da inflação.

Se o Tarso Genro disse que a era Palocci acabou, a gente pode imaginar que vem aí uma farra fiscal. Eu duvido que o governo vá fazer isso. Me parece que foi um excesso verbal.

Eu acredito que a era Palocci continue. Até porque a era Palocci pode ser entendida como uma adesão do PT à ortodoxia econômica, a uma política mais austera do ponto de vista do gasto público, à tentativa de manter a economia longe de qualquer tentação populista. Mas é bom esperar para ver.

 
 
Eleições 2006
Especial apresenta notícias, comentários e entrevistas.
 
 
Dois Brasis
Especial explora as contradições do país que vai às urnas.
 
 
Brasil 2010Brasil 2010
Série de entrevistas discute prioridades para novo governo.
 
 
NOTÍCIAS RELACIONADAS
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
 
 
Envie por e-mail Versão para impressão
 
Tempo | Sobre a BBC | Expediente | Newsletter
 
BBC Copyright Logo ^^ Início da página
 
  Primeira Página | Ciência & Saúde | Cultura & Entretenimento | Vídeo & Áudio | Fotos | Especial | Interatividade | Aprenda inglês
 
  BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
 
  Ajuda | Fale com a gente | Notícias em 32 línguas | Privacidade