04 de setembro, 2006 - 13h32 GMT (10h32 Brasília)
Quando garoto, cursando o primário, um dos terrores de minha vida escolar, além da hora de trabalhos manuais (sim, eu era cego e surdo das mãos) e de matemática (ou seria aritmética? Nunca entendi a diferença) era o recreio.
Primeiro, porque tinha um jogo de vôlei violentíssimo, em que nunca eu era escolhido pelos capitães dos times, e segundo porque era a hora da merenda.
Eu tinha uma espécie de receptáculo (essa a única palavra) em metal negro, onde a empregada ou minha mãe dispunha as delícias a serem consumidas. A parte superior da lata de merenda – a merendeira – era curva, de forma a nela caber uma garrafa térmica.
Taí, da garrafa térmica eu gostava. Estava sempre a testando para ver se o Ovomaltine continuava quentinho mesmo, ou, se fosse o caso, geladinho. Estava sempre morninho.
Mas o problema era que eu me sentia não só um imbecil, embora eu beirasse a condição (levei pau em quatro matérias no primeiro ginasial), como também um imbecil mariquinhas, ou, na melhor das hipóteses, um imbecil filhinho de mamãe.
As merendeiras eram isso mesmo: caixas. Algumas, para que eu tirasse a forra, eram também de lata e continham decoração com coelhinhos brincando na floresta.
Se o portador não fosse muito maior do que eu, eu tacava ficha e gozava aos potes. O negócio era simples: garoto que era garoto não levava lanche para o colégio. Ainda mais chamando de merenda.
Passava-se fome ou então se levava um sanduíche (podia ser de queijo prato mesmo, nem precisava do presunto) e bebia-se água do bebedouro.
Com a graça de Deus, como tudo mais, esse tempo passou e eu, em matéria de fardo, me acostumei a levar comigo, não importa onde, meus maus pensamentos e a índole infatigável (essa não levava nota: apenas porrada) do desmando, do deboche e da esbórnia.
Pobres meninos ricos ingleses
Minha filha levou para o colégio, em seu primário, o que as outras levavam, essas caixinhas plásticas inventadas pelo americano Mr. Tupperware, com um suquinho comercial, uma fruta, alguns biscoitos. Leite e refeição frugal e fugaz o colégio era obrigado por lei a fornecer.
Ao contrário de mim, não creio que tenha dado bode psicológico. Esse, tudo indica, vem com a nova geração ascendente, ou filhos e filhas das “elites”, conforme alguém em alguma parte deve dizer.
O nível de vida no Reino Unido, principalmente aqui no sul, em Londres, subiu e tudo quanto é pai e mãe, já que não pode ir à praia ou se aplicar botox, aproveita para se exibir na hora do lanche escolar dos filhos.
As merendas tradicionais foram para a cucuia e a pobre da garotada rica, ou por sobre a remediada, leva para o colégio os pratos que, com a expansão da Comunidade Européia e de um suposto nível de sofisticação gastronômico, passou a fazer parte do dia a dia (ou pelo menos do fim de semana ao fim de semana) britânico.
O pequeno John chega a hora de recreio e vai de focaccia. A pequena Mary tira os pauzinhos, sabe-se lá de onde, e taca no sushi. O salmão vai se tornando ubíquo.
Na brincadeira, fico sabendo, são gastos quase 4 bilhões de dólares por ano. Atenção, não tem nada a ver com saúde.
Pior ainda é que as exigências dos quitutes partem das crianças. Trata-se de uma forma de mostrarem seu extraordinário bom gosto em matéria de alimentação.
Eu faria feito meu velho professor de matemática (ou era aritmética?), o Coletta: dava zero para todo mundo – ela tinha a mania de rir e sadicamente berrar "rosca!" – e fazia todos repetirem o ano.