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Atualizado às: 11 de agosto, 2006 - 17h19 GMT (14h19 Brasília)
 
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30 mil domésticas trabalham sem salário no Brasil
 

 
 
Dona Zica
Dona Zica sentiu na própria pele o preconceito
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 28.963 empregados domésticos trabalham sem receber nenhum salário em condições, segundo especialistas, ainda marcadas pela herança da escravidão.

O número equivale a 0,5% do total de 6,415 milhões de domésticos e é bem maior do que o percentual, de 0,1%, de todos os trabalhadores.

Além da ausência de pagamento, outros problemas freqüentemente associados à herança escravocata são o trabalho infantil que, muitas vezes, se confunde com "favores" ou "criação", além da falta de moradia própria dos empregados e de abusos nos horários de trabalho.

"O importante é entendermos que, historicamente, esse trabalho foi considerado um não-trabalho, quase que vinculado à idéia de escravidão", afirmou à BBC Brasil a ministra da Igualdade Social, Matilde Ribeiro.

Segundo o IBGE, 57,1% dos trabalhadores domésticos no Brasil são negros ou pardos - em Salvador, esse percentual chega a 91,9%.

'Sangue mais forte'

A babá Jorgina dos Santos, de 50 anos, conta que, quando começou a trabalhar em Volta Redonda, ainda na adolescência, "não existiam trabalhadoras domésticas brancas". "Até hoje a maioria é negra", disse.

Jorgina diz já ter ouvido de muitos patrões "que as negras têm o sangue mais forte e que as brancas não conseguem fazer o trabalho que a gente faz". "Mas é lógico que não é isso", acrescentou.

Para a professora de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Hildete Pereira de Melo, que estuda o trabalho doméstico há mais de 20 anos, as relações entre domésticas e patroas, em muitos casos, ainda reproduzem aquelas entre senhores e escravos.

"A casa grande continua de pé sobretudo em lares de classe média alta, nos quais é criado um abismo entre as pessoas que trabalham na casa e os patrões", afirma a estudiosa.

Organização

A opinião é compartilhada por uma das pioneiras do movimento sindicalista das domésticas no Brasil, Anazir Maria de Oliveira, mais conhecida como Dona Zica, e que sentiu na própria pele a discriminação.

Para ela, que começou a trabalhar para uma família aos 9 anos de idade, o trabalho das domésticas tem "todo um resquício do trabalho escravo" que pode ser reconhecido, principalmente, na histórica baixa remuneração das domésticas.

"Hoje, passados tantos anos da abolição, ainda se vive essa realidade dentro da categoria", afirmou Dona Zica, destacando que, na sua opinião, só a organização das próprias domésticas será capaz de mudar essa realidade.

"O problema é que é difícil mobilizar a categoria. Não podemos, por exemplo, fazer panfletagem em milhões de domicílios. Em fábricas, por exemplo, isso é mais simples", acrescentou Creuza Maria de Oliveira, presidente da Confederação Nacional das Trabalhadoras Domésticas.

Profissionalização

O consenso entre estudiosos e domésticas é que os resquícios da cultura escravocata só poderão ser apagados da realidade brasileira quando houver uma mudança no enfoque do trabalho doméstico.

Para isso, de acordo com a professora Hildete Pereira de Melo, a sociedade precisa aceitar o trabalho doméstico como uma profissão.

O diretor nacional de Qualificação do Ministério do Trabalho, Almerico Biondi Lima, afirma que a transformação deve passar pela educação.

"Cultura se combate com cultura. Temos que implementar uma nova cultura no trabalho doméstico", diz Biondi.

 
 
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