http://www.bbcbrasil.com

01 de dezembro, 2004 - 11h28 GMT (09h28 Brasília)

Monumentos e irracionais

Os britânicos, ou ingleses, mudaram. Dizem. Como diziam que gostam mais de bicho do que de gente. Não creio que seja verdade. Coisa lá, ou cá, deles.

De qualquer forma, na semana passada, com bastante atraso, e pouca divulgação mediática, foi inaugurado no Hyde Park, bem no centro de Londres, um monumento aos animais que deram, ou foram forçados a dar, suas vidas pela pátria nos mais diversos conflitos.

A estátua custou quase US$ 2 milhões e foi projetada por David Blackhouse. Nela vemos duas mulas de bronze carregadas de material bélico, um cavalo e um cachorro. Ao lado, a seguinte inscrição: "Este monumento é dedicado a todos os animais que serviram e morreram ao lado de forças aliadas em diversas guerras e campanhas através dos tempos. Eles não tinham escolha."

Não tinham mesmo. Na Net, consegui pinçar alguns dados. São em dose – se me permitem um infame jogo de palavras – cavalar. Oito milhões de cavalos mortos entre 1914 e 1918.

Além de cavalos, perderam, ou ganharam sua ração diária de vida, cachorros, pombos-correios, camelos, gatos e – atenção – até mesmo vagalumes e pirilampos.

Velhos militares foram ao local levar suas homenagens e espalhar suas lembranças. Das recentes, falou-se no cão Buster que, no ano passado, em Bagdá, farejou armamentos dos chamados insurgentes. Buster foi o sexagésimo animal a ser condecorado com a medalha Dickin, concedida por atos heróicos.

Heróico também foi o gato Simon que, em 1949, a bordo da fragata Amethyst, capturada durante 100 dias pelos comunistas quando cruzava o rio Yangtze, na China, ajudou, mesmo ferido, a manter estável a população de ratos a bordo, impedindo assim a propagação de doenças contagiosas.

Ao contrário de Buster e Simon, nenhum vagalume ou pirilampo, que tenha servido como auxílio luminoso na primeira guerra mundial, foi lembrado por nome.

Se os ingleses, ou britânicos, quiserem mesmo manter a tradição, seria interessante se aqueles que se opõem à caça com cães, próxima a se tornar lei, fossem desde já bolando um Monumento à Raposa Desconhecida.

Aí sim, a Grã-Bretanha dos bons tempos e lendas voltaria a seus tempos de glória, se glória era e houve.