BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
 
Atualizado às: 01 de dezembro, 2004 - 12h45 GMT (10h45 Brasília)
 
Envie por e-mail Versão para impressão
Brasil defende política para a Aids entre usuários de drogas
 

 
 
Pedro Chequer
Diretor diz que Brasil vai produzir camisinhas em 2005
O diretor do Programa Nacional DST/Aids do Ministério da Saúde, Pedro Chequer, rejeita as críticas da vice-diretora executiva da Unaids, Kathleen Craveiro, de que o Brasil precisa criar uma política de combate ao vírus da Aids entre usuários de drogas.

Para Chequer, a atuação do Brasil é exemplar, modelo para o mundo. O funcionário do governo diz ainda que a Unaids não está habilitada a criticar o modelo brasileiro.

Em entrevista exclusiva à BBC Brasil, Chequer disse que a discussão sobre o uso de drogas passa pelo poder paralelo dos traficantes, que dificultam o trabalho dos agentes de saúde.

O diretor também revela que o Brasil vai diversificar a produção de medicamentos retrovirais e inaugurar uma fábrica de preservativos no Acre, no ano que vem. Leia a íntegra da entrevista:

BBC Brasil - Quais são as metas do programa de Aids para 2005?

Pedro Chequer - Ampliar a cobertura do pré-natal e ampliar a cobertura de diagnóstico da infecção de HIV e sífilis em gestantes. A meta do governo é fazer com que nós possamos chegar ao final de 2007 com a taxa de transmissão próxima a zero.

BBC Brasil - O governo pretende aumentar a capacidade de produção de medicamentos retrovirais. Quais são as metas?

Chequer - O Brasil está produzindo, e essa situação não mudou desde 98 e 99, oito tipos de anti-retrovirais. A nossa meta em 2005 é produzir entre 12 a 13 e fazer com que o Brasil caminhe para a autosuficiência em relação a provisão de medicamentos.

No momento, a situação não é fácil até porque estamos gastando muito dinheiro na aquisição de medicamentos das multinacionais. É insustentável esse tipo de situação.

Há uma decisão política sendo encaminhada nesse país avaliando a capacidade técnica, para que possamos em 2005 já estarmos produzindo outros antiretrovirais e fazendo com que o nosso plano de acesso universal ao tratamento seja sustentável e habilitando o Brasil a manter sua política de apoio a outros países.

BBC Brasil - Existe mais algum projeto programado para o ano de 2005?

Chequer - Uma das nossas prioridades para o ano que vem é a construção da fábrica estatal de preservativos. Nós estamos com um projeto de grande envergadura, que vai custar entre US$ 10 a 12 milhões no Acre e deve estar em funcionamento em 2005. Também fechamos a compra de 600 milhões de preservativos, 200 milhões a mais do que o adquirido para 2004.

BBC Brasil - Qual é a grande meta de 2005 do programa?

Chequer - A grande meta de 2005 está voltada para a ampliação da cobertura das ações, tanto da prevenção como da assistência – e principalmente para a população vulnerável, as populações vulneráveis de baixa renda.

Por isso, vamos fugir das nossas parcerias usuais apenas com ONGs-Aids, e estamos ampliabndo no sentido de englobar outros movimentos comunitários que não ONGs-Aids. Até porque, se não fizermos isso, nós não vamos conseguir atingir a população de favelados, a população de baixa renda, sem-terra e de sem-tetos.

Nós vamos manter como prioridade as parcerias com as ONGs-Aids, que são parceiros importantes e estratégicos, e vamos trabalhar para ir além dessas parcerias. Também vamos trabalhar para a inserção de prevenção e assistência de modo permamente do SUS (Sistema Único de Saúde).

O programa do Brasil não será sustentável enquanto não tivermos a auto-suficiência na produção de medicamentos, uma ação de cobertura envolvendo a comunidade. Nós vamos ter um programa sustentável e consistente ao longo do tempo se não tivermos a rede básica do SUS inserida nas ações, não apenas como projeto, mas como prioridade de saúde pública.

BBC Brasil - Como está a construção da fábrica de genéricos em Moçambique?

Chequer - Está sob análise de um projeto que está se avaliando custo e efetividade. Em 2005, nós vamos tomar algumas ações em relação a esse projeto, desde que se mostre factível e viável do ponto de vista operacional.

BBC Brasil - A Unaids fez, no último relatório global, um alerta ao Brasil em relação ao aumento do número de usuários de drogas injetáveis. A vice-diretora executiva da Unaids, Kathleen Craveiro, disse que o Brasil precisa encarar de frente o problema dos usuários, tirando os usuários da marginalidade. Como o senhor encara as críticas?

Pedro Chequer - Acho que o Brasil enfrenta um problema estrutural. É muito fácil você fazer um programa de redução de danos na Austrália, por exemplo, onde a violência, o tráfico e as gangues não existem. É muito fácil fazer fazer em Vancouver, na Holanda, na Suíça ou na Alemanha porque simplesmente a ONG e o serviço de saúde acessam o usuário e existe uma situação de dificuldade mínima em relação ao usuário.

O usuário está se colocando à disposição desses serviços. E são países que não tem gangues, poderes paralelos e máfias, como é no Brasil. O Brasil hoje tem uma situação concreta, além do poder público. Nós temos o poder dos grupos de tráfico de cocaína que dominam favelas, brigando entre si dificultando o acesso dos serviços de saúde, das ONGs a essa população.

Mudar essa situação não depende de um projeto de redução de danos do programa de Aids. É muito mais amplo que isso.

BBC Brasil - Como o senhor reage às críticas ao projeto de redução de danos?

Pedro Chequer - Em relação ao projeto de redução de danos, eu diria que a Unaids não é o órgão mais adequado para estar opinando sobre o tema. Até porque, antes de existir a Unaids, o Brasil já estava no campo promovendo experiências pioneiras em relação a redução de danos.

Experiência como a do Brasil é suficiente para dizer aos órgãos internacionais como fazer. Na verdade, o país tem sido referência da própria Unaids, a partir dessa experiência e desse conhecimento.

O que nós temos é uma situação específica no sul do país. Em Porto Alegre, por exemplo, devido à dificuldade de ampliação de cobertura por parte do poder municipal, a cidade apresenta taxas que consideramos inadequadas. Em Porto Alegre, deve existir 12 mil usuários de drogas injetáveis – e acessados pelo programa algo em torno de 2 mil, e distribuimos 250 mil seringas por ano.

É de envergadura? É. Feito com qualidade? Sim. Ocorre que a cobertura não é suficiente. No restante do país, os dados demonstram claramente, e o relatório da Unaids demonstra isso: está havendo uma redução da prevalência, mostrando o sucesso do projeto.

Mas não podemos tomar uma cidade do país como referência para dizer que o país precisa mudar a sua política, não. Nós não vamos mudar a nossa política. Não é essa a abordagem e não consideramos a Unaids o órgão mais adequado para nos ensinar a fazer redução de danos.

Pelo contrário, o Brasil tem como ensinar a Unaids como fazer. Isso é seguro. Nós reconhecemos, sim, a necessidade de aumentar a cobertura em algumas regiões. Na estratégia ou método, de modo algum. Está adequado e qualificado.

BBC Brasil - Neste ano, o relatório enfatiza a proliferação de casos de Aids entre as mulheres em todas as partes do mundo. O Brasil tem alguma política específica nesse campo?

Pedro Chequer - A questão da população feminina está bastante clara. A questão do conhecimento está associado ao nível educacional. O governo vai precisar cada vez mais ampliar a cobertura e investimento na educação de toda a população como um todo. E da população feminina, nesse caso entre as que têm mais dificuldade de acesso à educação.

Há uma questão estrutrural, ligada à educação, e, com a mudança de perfil, modificaríamos a questão sócio-economica, acesso à educação, acesso à emprego a médio e longo prazo, uma situação mais favorável em relação à prevenção.

Agora, não podemos esperar que isso aconteça, porque isso é uma intervenção a médio e longo prazo, e temos que buscar intervenções a curto prazo. Nós estamos trabalhando em busca de ampliar os parceiros para trabalhar outras instâncias à disposição das mulheres.

O Brasil é um dos poucos países do mundo que colocam à disposição das mulheres preservativos femininos desde 1998. O Brasil tem feito isso, depois de uma pesquisa de estabilidade e condição de uso. Hoje, o Brasil distribui 4 milhões de preservativos. Além de 400 milhões de preservativos masculinos.

Um série de ações estão sendo feitas para responder os problemas de imediato, mas temos claro que o acesso à educação da criança, a educação sexual desde os sete anos de idade e de pré-adolescentes são fundamentais e também responderiam a questão de resposta efetiva em relação à tendência relacionada à população feminina.

 
 
AidsEspecial Aids
Leia reportagens no Dia Mundial de Combate à doença.
 
 
Glóbulos vermelhosCorpo em evidência
Clique para ver imagens ampliadas do corpo humano.
 
 
NOTÍCIAS RELACIONADAS
 
 
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
 
 
Envie por e-mail Versão para impressão
 
Tempo | Sobre a BBC | Expediente | Newsletter
 
BBC Copyright Logo ^^ Início da página
 
  Primeira Página | Ciência & Saúde | Cultura & Entretenimento | Vídeo & Áudio | Fotos | Especial | Interatividade | Aprenda inglês
 
  BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
 
  Ajuda | Fale com a gente | Notícias em 32 línguas | Privacidade