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Atualizado às: 24 de novembro, 2004 - 11h58 GMT (09h58 Brasília)
 
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Penso, logo, digito
 
Ivan Lessa
O nome dela completo é Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, mas, como a velha Odete da piada, podem chamá-la pelo nome de guerra, ou, melhor dizendo, de paz: Unesco.

Foi criada em 16 de novembro de 1945, logo depois da Segunda Guerra Mundial e a premissa básica de sua existência é de que a guerra nasce na mente dos homens e nela, pois, isto é, na mente dos homens, devem ser construídas as defesas da paz.

Ora, em teoria, isso tudo é uma beleza assim como seus 190 Estados-membros que se reúnem a cada dois anos para discutir e deliberar sobre importantes questões relativas a seu mandato.

Como sou ignorante, além de não conseguir me lembrar de uma única conquista educacional, científica e cultural, minhas pesquisas pela internet também se provaram infrutíferas.

Não! Recuso-me a aceitar o que me dizem os maus amigos e tagarelam certas más línguas: “Aquilo lá, companheiro, é um tremendo de um cabide de empregos.” Nunca, jamais!

Na quinta-feira da semana passada, por exemplo, transcorreu mais uma das notáveis promoções da Unesco – pela terceira vez na história realizou-se o Dia da Filosofia.

Foi um sucesso talvez tão grande quanto o novo comercial do perfume Chanel nº 5, com Nicole Kidman, ou a estréia em Londres do musical The Producers, do Mel Brooks.

Saía-se pelas ruas do mundo – Bangcoc, Tadjiquistão, São Paulo – e lá estavam as pessoas filosofando, com fome ou capuccino, nas mais exóticas posições, perguntando-se coisas como “A que intoleráveis realidades terei de me acostumar?” ou “Pascal estava certo ou não em jogar cara ou coroa com Deus?”.

Consta que o Leviatã, de Hobbes, voou alto e esganiçado na famosa quinta-feira e que a navalha de Occam (não se deve recorrer à pluralidade sem necessidade) cortou fundo e quase foi apreendida por certas autoridades policiais menos esclarecidas.

Eu, de minha parte, como se participando com um único compasso no disquinho da Band Aid, concentrei-me em Nietzsche e seu desafio, conforme seu Nascimento da Tragédia, ao ponto de vista de Schopenhauer de que a resposta apolínica aos excessos dionisíacos é antes apática do que propriamente heróica.

Até agora, ninguém da Unesco me agradeceu ou censurou.

 
 
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