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Exibição retrata os horrores da infância pobre britânica | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A exibição Shrinking Childhoods ("Infâncias Encolhidas", em tradução livre) exibe instalações criadas por crianças carentes britânicas, retratando alguns dos maus-tratos a que elas são submetidas. A mostra é uma parceria da organização não-governamental Kids Company com a Tate Modern de Londres, uma das maiores galerias de arte do mundo. Londres pode ser a região mais rica da Grã-Bretanha, mas é também o lugar onde se concentra a maior quantidade de crianças pobres do país. Entre as crianças vivendo na região metropolitana de Londres, 53% estão em situação de pobreza, de acordo com um estudo recente patrocinado pela prefeitura da capital britânica. Supervisão "As crianças vulneráveis aqui não recebem a ajuda que elas precisam. Elas dizem que a melhor maneira de receber ajuda é cometer um crime", diz Camila Batmanghelidjh, fundadora da Kids Company. "O governo não se sente pressionado afazer nada a respeito, então quis fazer a exibição para chamar a atenção para esse assunto, que é ignorado nacionalmente." Cerca de mil crianças prepararam a instalação, que é composta por cinco quartos, cada um mostrando um aspecto diferente da vida delas. Camila diz que a Tate assumiu o risco de mostrar um tema polêmico, cedeu o espaço e criou palestras para inspirar as crianças. "Eles tentaram não censurar nada e ficaram satisfeitos com o nível alcançado", diz ela. Por causa da supervisão da Tate, as crianças puderam utilizar vídeo, sons e outros materiais para que a mensagem fosse transmitida. Sexo O tema de um dos quartos é a prostituição infantil. A atmosfera inocente – o quarto é decorado em tons pastéis – se perde nos detalhes. Uma grande boneca está deitada na cama, com as pernas exageradamente abertas e, acima dela, um móbile é feito de sapatos masculinos, provavelmente dos clientes. Nas prateleiras, as bonecas estão colocadas em diversas posições sexuais e existem cartas espalhadas, como a do garoto Anthony, de 15 anos, que diz ser obrigado a se prostituir pelo próprio pai. "Faço isso até que o ânus sangra tanto que não consigo nem andar", diz o texto. Ou de outro garoto que se pergunta o que é o ódio. "Algumas pessoas dizem que ódio é perder o ônibus quando se está atrasado, ou que odeiam quando passa muito tempo sem fazer sol." "Ódio para mim é ter que fazer sexo tantas vezes por semana com esses velhos nojentos. Eu odeio eles. Mas gosto deles também, já que eles são as únicas pessoas que me dão alguma atenção." "Então eu me odeio por isso. Eu me odeio mais que tudo", diz a carta do garoto. Drogas Uma das instalações que mais chama a atenção mostra a casa de um casal de viciados em drogas. O pai está deitado inconsciente em um colchão imundo, e a mãe também é retratada de maneira nada agradável. O quarto todo está cheio de objetos usados para se fumar crack, a mobília está arruinada e os vidros quebrados das janelas são substituídos por sacos de lixo. O clima de desolação piora quando se vê que um bebê de colo e uma criança de cerca de três anos de idade estão abandonados no meio da sujeira. Esse cenário é bem conhecido dos seus autores, quatro adolescentes moradores do sul de Londres. A história de um deles, Sam Johnson, não é incomum. Filho de uma adolescente analfabeta e de um pai alcoólatra, ambos viciados em crack, ele cresceu em meio a prostitutas, traficantes e usuários de drogas. Abandonou a escola aos 12 anos e passou a morar na rua para fugir da anarquia que era a sua casa. Quando ele e seus amigos terminaram a instalação, fizeram uma fila para cuspir na figura paterna, deitada no colchão. Mesmo assim, Johnson se considera sortudo, já que seus pais nunca o obrigaram a se prostituir. Invisível Tony Cavolli, que também trabalha na Kids Company, disse que essa peça realmente mexeu com o público. "Teve um grupo de visitantes que veio aqui e que chorou quando viu esse quarto. As pessoas vivem nesse país e não fazem a menor idéia de que coisas assim podem acontecer", diz ele. Camila diz acreditar que a pobreza na Grã-Bretanha é diferente da encontrada em países em desenvolvimento. "Nesses países existem vínculos como o amor da família, que ajudam as crianças a enfrentarem as dificuldades", diz ela. "Aqui não existe isso, e a miséria é invisível." Ela diz que as crianças estão orgulhosas do que fizeram porque "tornar público o que foi durante tanto tempo um motivo de vergonha é libertador". "Isso enche de coragem essas crianças para que elas possam lutar por um futuro digno", acrescenta. A exposição Shrinking Childhoods fica em cartaz até 18 de fevereiro de 2005. |
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