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30 de setembro, 2004 - 12h10 GMT (09h10 Brasília)

Rafael Gomez
de Miami

Flórida volta ao 'olho do furacão' eleitoral com debate

Os dois principais candidatos à presidência dos Estados Unidos vão se enfrentar no primeiro debate eleitoral nesta quinta-feira, em Miami, em um evento que muitos analistas consideram ser crucial para definir o resultado do pleito de 2 de novembro.

O debate, que começa às 21h no horário local (22h no horário de Brasília), vai durar 1h30 e deve se concentrar especificamente em questões de segurança nacional e política externa, assuntos que não saem da boca dos candidatos.

Com o evento, a Flórida - Estado em que George W. Bush garantiu a vitória sobre o democrata Al Gore em 2000 por uma diferença de apenas 537 votos - volta a concentrar as atenções da campanha.

O Estado, considerado de vital importância na corrida presidencial, está se recuperando da passagem de quatro furacões, que praticamente paralisaram a campanha presidencial na Flórida em setembro.

Impacto no Estado

O presidente George W. Bush visitou o Estado três vezes nas últimas seis semanas (sem contar a visita desta semana), foi a algumas das regiões mais afetadas pelas tempestades e prometeu verbas de emergência. Kerry, por sua vez, esteve na Flórida apenas uma vez em todo o período.

Uma das últimas pesquisa de intenção de votos no Estado, divulgada na sexta-feira passada, indica que a presença do presidente nas áreas afetadas pode ter gerado lucros na sua tentativa de reeleição.

O levantamento da Universidade Quinnipiac, que foi o primeiro feito após a passagem dos furacões Charlie, Frances e Ivan, indica que Bush tem a preferência de 49% dos moradores do Estado, contra 41% de Kerry.

Outra pesquisa, feita pela rede de TV CNN em conjuto com o instituto Gallup e o jornal USA Today, mostra um quadro mais apertado, com 49% dos eleitores preferindo Bush e 46%, Kerry.

Mudanças

Analistas ouvidos pela BBC Brasil acreditam que o debate presidencial desta quinta-feira pode de fato mudar o rumo da campanha.

Para os analistas, Kerry é quem enfrenta a maior pressão no evento: além de estar atrás nas pesquisas, suas posições ainda são menos conhecidas que as de Bush.

Mona Lyne, cientista política e professora da Universidade da Carolina do Sul, disse que, nesse contexto, há duas razões que explicam por que o debate pode alterar o rumo das eleições.

"Esse primeiro debate é sobre política externa, que realmente é um dos temas centrais. Os dois candidatos estão empatados, especialmente nos Estados indecisos, esses que vão decidir a eleição."

David Steinberg, professor da Universidade de Miami e diretor do programa de debates da universidade, tem uma posição parecida.

"O Iraque é o mais importante fator de decisão para a maioria das pessoas. Eu acho que esse primeiro debate, sobre política externa, será uma grande oportunidade para os candidatos se apresentarem e, sim, pode fazer diferença", explicou.

Kerry

Três pesquisas de intenção de voto em nível nacional, divulgadas no início desta semana, mostram que Kerry está pelo menos seis pontos percentuais atrás de Bush, enquanto apenas uma mostrava os candidatos empatados.

De acordo com Peter Jackson, pesquisador do Centro de Estudos Políticos da Universidade da Virgínia, Bush ainda está sendo beneficiado em nível nacional pelos efeitos da Convenção Republicana, realizada no início deste mês, que colocou no centro das atenções as supostas deficiências do candidato Kerry.

Para Jackson, "se Kerry puder ir ao debate e fazer o debate girar em torno da figura de Bush e as políticas do presidente, isso vai beneficiá-lo", especialmente na tentativa de conquistar o voto dos indecisos.

Mona Lyne acredita que, no debate, o candidato democrata vai dar continuidade à nova estratégia que adotou nas últimas três semanas de criticar duramente o presidente Bush pela sua conduta em relação ao Iraque.

"Os eleitores conhecem o presidente Bush. Ele é um fator conhecido. Muitos deles não tem, na verdade, um conhecimento ou familiaridade com o senador Kerry. Por isso, vai ser uma ótima oportunidade para o senador Kerry", disse Steinberg, explicando por que acredita que Bush chega ao debate em posição de vantagem.

Para Steinberg, é importante para Bush "continuar a insistir na ligação entre segurança interna, o 11 de Setembro e a guerra no Iraque".

Mona Lyne, por outro lado, acredita que Bush deve enfatizar no debate a visão de que Kerry não teria a "liderança" necessária para ser um bom presidente, por, supostamente, mudar de opinião com freqüência – uma acusação que a campanha do presidente tem feito constantemente.

"Como muitas pessoas acham que ele tem feito muitos erros nesse combate ao terrorismo, a estratégia mais importante para ele é continuar dizendo que o Kerry é inaceitável", explicou.

Fontes indiretas

David Steinberg também disse que o debate pode ter muito mais importância pela sua repercussão do que pelo seu conteúdo.

Isso porque, segundo Steinberg, muitas pessoas indecisas não irão assistir ao debate, mas ficarão sabendo o que aconteceu nele por meio de outras fontes.

"Elas vão ser influenciadas pelo que lêem nos jornais, o que eles ouvem nos meios eletrônicos e de analistas políticos depois do evento e por pessoas que eles respeitam, pessoas com influência que são líderes de opinião para eles", explicou.

Peter Jackson tem a mesma opinião. "É também importante satisfazer a imprensa, o que sair impresso no jornal no dia seguinte, o que vemos nas redes de TV nacionais e de TV a cabo nos dias seguintes", disse.

"Essa é uma vantagem para o presidente George W. Bush, porque ele fala com simplicidade e faz aquelas declarações de entre seis e oito segundos que jornalistas de jornais e emissoras de TV usam quando estão se referindo a candidatos. Por outro lado, Kerry tende a dar mais voltas ao explicar suas respostas."