16 de setembro, 2006 - 08h20 GMT (05h20 Brasília)
Um discurso do Papa Bento 16 em que ele citou um texto de 1391 que, entre outras coisas, falava sobre guerra santa, continua gerando críticas no mundo islâmico.
Falando sobre o assunto em Cuba – onde participa do Fórum dos Não-Alinhados –o presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, se disse contra o que chamou de "tendências sinistras".
"Nossa estratégia tem de, claramente, se opôr às tendências sinistras de associar o terrorismo com o Islã e à discriminação contra muçulmanos, que está incentivando uma alienação entre o mundo ocidental e o mundo do Islã", disse Musharraf.
Também em Cuba, o primeiro-ministro da Malásia, Abdullah Ahmad Badawi disse que o Papa não deveria subestimar a sensação de revolta que a citação gerou. "O Vaticano deve, agora, assumir responsabilidade pelo assunto e adotar as medidas necessárias para retificar o erro", disse.
Defesa
Em meio às críticas, a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, saiu em defesa do Papa Bento 16.
Merkel disse que os críticos "entenderam mal" o objetivo do discurso do Papa, que teria sido "fazer um apelo para o diálogo entre as religiões".
"O que Bento 16 enfatizou foi uma renúncia firme e inflexível de todas as formas de violência em nome da religião", afirmou Merkel.
O Vaticano também rejeitou a interpretação das declarações do Papa como um ataque contra o Islã e disse que Bento 16 não teve a intenção de ofender ninguém.
"Assustadora brutalidade"
No discurso, intitulado "Fé, Razão e a Universidade: Memórias e Reflexões", o Papa cita um diálogo de 1391 entre um emperador bizantino, Manuel II Paleologus, e um intelectual persa sobre as religiões cristã e muçulmana.
O Papa menciona que, em um determinado momento do diálogo, o emperador cita o tema da guerra santa, nas palavras do Papa, com uma "assustadora brutalidade".
"Mostre-me tudo o que Maomé trouxe de novidade, e encontrarás apenas coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar com a espada a fé que ele pregava".
Durante a palestra, o papa acrescentou que "a violência é incompatível com a natureza de Deus e a natureza da alma".
Na parte final do discurso, o Papa diz que "a intenção aqui não é fazer uma crítica negativa, mas ampliar nosso conceito de argumentação e sua aplicação. Só assim seremos capazes de um diálogo genuíno entre culturas e religiões, tão necessário nos dias de hoje", concluiu o pontífice.
Revolta
O líder da Irmandade Muçulmana do Egito, Mohammed Mardi Akef, disse que as palavras do papa causaram "revolta em todo o mundo islâmico" e representam "crenças erradas e distorcidas que estão sendo disseminadas no Ocidente".
Para Youssef al-Qardawi, um proeminente clérico muçulmano no Catar, ouvido pela agência Reuters, os muçulmanos têm o direito de se sentir ofendidos pelos comentários do papa.
"Queremos que o papa peça desculpas à nação islâmica por ter insultado sua religião, seu profeta e suas crenças", afirmou ele.
No Irã, um influente clérigo, Ahmad Khatami, disse: "É lamentável que o líder religioso dos cristãos tenha tão pouco conhecimento do Islã, e que fale sem vergonha disso".
Visita à Turquia
O papa tem uma viagem à Turquia planejada para o mês de novembro que, segundo o Vaticano, acontecerá como o planejado.
Mas a repercussão das palavras do papa no país - predominantemente muçulmano - não foi boa.
O líder religioso turco Ali Bardakoglu fez questão de mencionar as atrocidades cometidas durante as cruzadas, na Idade Média, contra cristãos ortodoxos, judeus e muçulmanos.
Ele também afirmou que os comentários de Bento 16 refletiam "um ponto de vista repugnante, hostil e preconceituoso", e afirmou esperar que as palavras não espelhassem "ódio no coração" do papa.