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Atualizado às: 21 de julho, 2004 - 10h49 GMT (07h49 Brasília)
 
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Dez anos de Tony Blair
 
Ivan Lessa
Mais de um quarto de século de Reino Unido e eu não voto.

Prova de que há justiça no país que escolhi para me expatriar.

Não voto porque não sou cidadão britânico. Não sou cidadão britânico porque preferi residência a cidadania.

Meu passaporte continua brasileiro como as bandeiras em que Felipão e outros emigrantes gostam de se enrolar.

Sou, em suma, um torcedor dos eventos locais.

Posso não poder votar em gari, mas isso não impede minh´alma de berrar, “Vamos, gari! Manda brasa!”

Eu disse “minh´alma”.

A educação e os bons modos me aconselham uma certa reserva.

A reserva já foi domínio britânico.

Aos poucos, foi-se com o império e, agora, aí estão falando alto, expressando opiniões exaltadas, urrando, mandando, enfim – conforme aconselho ao tal gari – brasa.

E estou me referindo às classes média e alta e não aos barulhentos frequentadores dos campos de futebol.

Entre os quais – hélas! – não me encontro.

Só sei ser Botafogo na vida. E Botafogo até os anos 60.

Aí está o âmago da questão: o homem, além de cultivar paixões, é um animal político.

Haverá, à exceção do futebol (ou seja, o Botafogo), paixão maior que a política?

Como viver sem votar? Sem ir ao estádio?

Simples. Basta se exercitar. Se exercitar muito. Não torcer. Ou, se inevitável, não dar a pala de estar torcendo.

Trata-se de difícil disciplina cujo domínio só vem com os anos. Quando vem.

Cheguei aqui em 1978 e o primeiro-ministro era trabalhista: James Callaghan.

Em 1979, a Margaret (atenção, brasileiros, não tem agá no prenome. Que mania!) Thatcher, do Partido Conservador ascendeu, esse o verbo, e no poder permaneceu por 11 anos.

Depois veio John Major, também conservador: 1990 a 1997.

De 97 para cá, Tony Blair, que não é, ao que parece, do Partido Conservador.

Blair assumiu as rédeas da poderosa carruagem (e meu estilo é uma deixa para bons entendedores) do Partido Trabalhista em 1994, que venceu as eleições de 97 e, agora, sempre muito sorridente, embora de forma assustada, aí está e deverá ficar por mais uns tempos.

Eu acompanho o que por aqui se passou e passa.

Quer dizer: torço. É meu brasileiro exercício, sem bandeira e sem foguete.

Na moita. Para não incomodar ou ofender. Também para não ser chateado.

Eu posso dizer que são bons modos.

Mas que me lembra a ginástica que eu fazia no Brasil, na época da ditadura militar, ah, isso me lembra!

Em todo caso, parabéns, Tony Blair. Sopre as velinhas e faça um pedido.

 
 
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