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Atualizado às: 11 de junho, 2004 - 09h51 GMT (06h51 Brasília)
 
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Ivan Lessa: Fumo, alegria de pobre
 
Eu devo ser uma das três pessoas no mundo que se lembra ao menos dos primeiros versos de um samba cantado pelo Nelson Gonçalves que começava assim: “Fumar é um prazer, suave e embriagador”.

Eu achava bacanérrimo fumar.

Curtia o ritual, ia pela embalagem, pelos movimentos graciosos de puxar o isqueiro (eu era metido a besta, isqueiro era essencial).

Eu acendia o cigarrinho e me achava igualzinho ao Humphrey Bogart, em Casablanca.

Sou obrigado a confessar que “prazer, suave e embriagador”, eu obtinha com outras coisas que não o cigarro.

Um ou dois chopinhos gelados, apresso-me em esclarecer.

Classe média

Fui um típico fumante classe média quando deixei o que agora chamam de vício no dia 21 de novembro de 2001.

Agora sou um ex-fumante. Tolerante ex-fumante.

Surge o ministro da Saúde britânico, John Reid e, em declarações que deixaram fulas de raiva as hostes antitabagistas, proclama que fumar é um dos poucos prazeres que sobraram para os pobres, em seus conjuntos residenciais pobres, em suas horas de folga no trabalho pobre, em seus clubes pobres.

O fumo é seu consolo, talvez o prazer suave e embriagador do Nelson Gonçalves.

O ministro aproveitou a oportunidade e, criando caso para valer, culpou a classe média e sua obsessão em lecionar os mais infortunados no que é certo e errado, bom e mau.

Complementou sua preleção argumentando que fumar não era o maior problema dos pobres.

Quase que 10 minutos depois dos comentários ministeriais começaram as queixas e reclamações.

Alguém apontou isso, outro apontou aquilo, quase todos lembraram que morrer mais cedo do coração ou de câncer no pulmão era um problema maior para os pobres, para suas viúvas e órfãos.

Tudo isso tem que ser visto no contexto da discussão que se trava em torno da inclusão ou não, no próximo manifesto do partido Labour, ou Trabalhista, da proibição total de se fumar em lugares públicos.

Ou então se o problema deve ser deixado para as autoridades locais decidirem.

Como ex-fumante, que não prega nem vício ou virtude, mas, lembrando dos amigos que buscaram “prazeres suaves e embriagadores” no álcool, que, ao menos em seu balé cinematográfico, nada tinha de glamouroso, gostaria de lembrar a todo mundo, pobre ou classe média, que álcool também pode acabar em besteira. Confiram por aí e vejam.

Termino como iniciei, às voltas com nosso cancioneiro: lembrai-vos, ingleses e brasileiros, de Vicente Celestino que, em O Ébrio, contou e berrou como acabou: “apedrejado pelas ruas vivo a sofrer”.

 
 
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