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23 de maio, 2004 - 19h03 GMT (16h03 Brasília)

'Gaza lembra o Holocausto', diz ministro israelense

O ministro da Justiça de Israel, Yosef Lapid, irritou seus colegas de gabinete ao dizer que a ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza o fez lembrar das desgraças sofridas por sua família durante a Segunda Guerra Mundial.

Lapid, que é um sobrevivente do Holocausto, disse em entrevista na rádio oficial das Forças de Defesa de Israel que as imagens transmitidas na televisão de uma idosa palestina em meio a escombros despertou memórias de sua avó nos tempos da guerra.

"Estou falando de uma mulher engatinhando e procurando remédios nas ruínas da sua própria casa, e isso me fez pensar na minha avó", afirmou.

O primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, repreendeu Lapid, que negou estar fazendo comparações entre a ocupação israelense em Gaza e o Holocausto.

'Tribunal de Haia'

Nos últimos dias, tropas de Israel têm demolido dezenas de casas no campo de refugiados de Rafah.

Na entrevista, Lapid também revelou que o Exército quer demolir cerca de 2 mil casas em Rafah para alargar a chamada estrada de Philapelphi, na fronteira com o Egito.

Lapid descreveu um encontro que teve com os demais ministros israelenses: "Eu disse que se continuarmos agindo assim, vamos ser expulsos da ONU e aqueles que forem responsáveis serão julgados no Tribunal de Haia".

O ministro da Justiça, que é líder do partido centrista Shinui, viveu parte da Segunda Guerra Mundial em um gueto judeu em Budapeste.

Ele perdeu vários familiares durante o Holocausto, entre eles uma avó, que morreu no campo de concentração de Auschwitz.

Mas Lapid insistiu que, nesta entrevista, "não estava falando da Alemanha nem dos nazistas".

Tabu

Fontes ligadas a políticos israelenses, citadas pela agência de notícias Reuters, afirmaram que Sharon ralhou com Lapid em uma reunião do gabinete, dizendo que seu depoimento foi "inaceitável e intolerável".

Segundo correspondentes da BBC em Israel, o uso do genocídio de judeus em debates políticos é considerado um tabu por muitos israelenses, que enxergam o fato como uma "desvalorização" da memória das vítimas do Holocausto.

Na sexta-feira, forças israelenses se retiraram de partes de Rafah depois de três dias de confrontos e demolições, nos quais mais de 40 palestinos morreram.

A política de destruir casas palestinas tem sido duramente condenada.

Israel diz estar tentando manter a segurança da fronteira com o Egito para evitar o contrabando de armas para a Faixa de Gaza.