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Atualizado às: 03 de março, 2004 - 12h27 GMT (09h27 Brasília)
 
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Humor negro, risos amarelos
 
Ivan Lessa
Semana passada, durante 48 horas – hoje em dia é tempo recorde – não se falou de outra coisa: a deputada do partido Conservador que, entre supostos amigos, fez uma piada de incontestável mau gosto a respeito da morte, na praia da cidade de Morecambe, de 20 catadores chineses de cockles, ou seja, amêijoas, berbigões.

Os chineses eram imigrantes ilegais e a tragédia acabou colocando ainda mais em evidência o problema das migrações, que vem sendo discutido, esse sim, continuamente. A deputada, além de severamente criticada pela imprensa, seus pares e líder do partido, está com a cadeira no parlamento pela bola sete.

Qual a terrível piada? Seguinte: segundo a jocosa parlamentar, dois tubarões nadavam pelas costas da Inglaterra. Um virou-se para o outro e disse: “Vem cá, eu não aguento mais atum. Que tal dar uma chegada a Morecambe e pegar um chinês?” No original é “go for a chinese”, fazer uma refeição de comida chinesa. No Brasil, em minha época, seria “pegar um chinês”, “ir de chinês”, por aí.

Convenhamos, a graçola conservadora não é hilária. Mais: gente de vida pública tem que ter atuação exemplar 24 horas por dia, 7 dias por semana. Política não é bingo ou jogo do bicho. Acho.

Pensemos bem. Tentemos o quase impossível: ser honestos. No humor, há um espaço todo especial para o mau gosto. Para o que já foi chamado de humor negro. Para nossa civilização, dita judeo-cristã, deve ter começado – e serei ousado – dez minutos depois de Nosso Senhor Jesus Cristo pagar por nossos pecados na cruz. Mel Gibson pode ou não confirmar.

Quem nunca ouviu uma piada de humor negro sobre... sobre tudo, bolas! O Holocausto serviu de matéria que não acaba mais. Em nossos dias, e para ficar por aqui, menos de uma hora depois do desastre que levou Diana, a princesa de Gales, a Net, as mesas de bares e as salas de visitas tremiam de tanta galhofa. Um de nossos sagrados intocáveis, Ayrton Senna, se esborrachou naquela curva e, logo em seguida, virou piada.

Tudo entre quatro paredes e em sussurro. Pode ser hipocrisia. Mas também é sinal de algum respeito. Apenas mais uma convenção para o que é, por condição, incontivelmente humano: o danado do humor.

 
 
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