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Atualizado às: 14 de novembro, 2003 - 21h47 GMT (19h47 Brasília)
 
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'Tomo remédio todo dia', diz Rafaela, 10 anos, portadora do HIV
 

 
Rafaela
Menina mora na Casac Vida e já viu amiga morrer de pneumonia
 

Com apenas dez anos de idade, Rafaela já viveu bastante. Filha de uma prostituta baiana que vivia em São Paulo, ela recebia os cuidados de Marcela, a quem se refere como “mãe de coração”. Mas sua verdadeira mãe morreu e parou de mandar o dinheiro para o sustento da menina.

Marcela, que também cuidava de sua própria filha com dificuldades, passou a procurar uma entidade para deixar Rafaela, que não tem o nome do pai no registro.

Na Casa Vida há três anos, Rafaela é portadora do vírus HIV, causador da Aids. Vai à escola, toma os remédios para controlar a doença e evitar infecções, brinca e se diverte como outras crianças de sua idade. Quando fala do futuro, diz que quer ser médica ou professora e morar com seus amigos, “quando ficar alta”. Diz que não sabe se vai se casar.

Rafaela fala com naturalidade sobre “ficar doente e morrer”. Nos três anos em vive na Casa Vida - uma casa ampla, arejada, cheia de brinquedos e alegre –, já viu uma amiga morrer de pneumonia e, na semana em que foi acompanhada pela BBC Brasil, tinha um amigo internado no hospital com a mesma doença.

Alegre e falante, ela demorou a falar dos problemas que sente no relacionamento com outras crianças da escola. “Tem umas que parecem que têm nojo da gente. Mas não são todas”, contou. “Não importa que a gente tem o HIV. O importante é que a gente está tomando o remédio para sarar”, diz com naturalidade.

Leia abaixo o depoimento de Rafaela, que contou um pouco de como é sua semana.

"Meu nome é Rafaela Valéria Ferreira dos Santos, moro na Casa Vida com 13 crianças, tenho dez anos.

Eu estudo no Colégio Espírito Santo, estou no segundo ano. Eu brinco com as crianças da escola e com as crianças daqui.

Eu faço o Projeto Reviver, tenho dentista, psicóloga, fono. Eu passeio no shopping, passeio com a minha madrinha... Eu tomo bastante remédio. O meu remédio é o mais fácil que tem pra fazer. Tomo DDI e AZT. Todo dia. O AZT é vermelhinho e o DDI é um comprimido. A tia dissolve. Às vezes é doce, às não é.

Eu já acostumei bastante. Na outra casa onde eu morava, eles cortavam em quatro pedaços.

Morar aqui na Casa Vida é mais legal do que onde morava antes. Não me falta nada.

Domingo, dia 12 de outubro

Eu acordei às oito, tomei café, fiquei escutando música, minha madrinha chegou, eu fui no Carrefour com ela, depois fui na casa dela, depois assisti televisão com a Isabela, almocei, brinquei, tomei banho, fui pra missa e voltei para a Casa Vida.

Ganhei vários presentes da minha madrinha por causa do Dia das Crianças. Ganhei uma blusa cor-de-rosa com uma faixa, uma saia, um shorts e outra blusa. Quando eu vim aqui pra casa, eu não tinha madrinha. Aí a Rosana arranjou uma madrinha pra mim.

Eu fui batizada com oito anos. A Rosana foi ao meu batizado. O meu pai é padre e me batizou. E a minha mãe é a Rosana, ela é coordenadora da Casa Vida. No meu batizado, Júlio falou: vamos lá fora quem vai ser batizado. Aí ele começou a falar umas coisas. Aí eu levei o óleo – foi na Capela São Judas. Eu estava com um vestido cheio de flores, branco, com minha sandália e com o cabelo preso. Depois que Júlio jogou água em mim, a água estava gelada, e eu comecei a chorar.

Depois eu fui à casa da minha madrinha. O meu padrinho falou assim para os convidados que estavam lá: 'Viva a Rafaela!' Ele falaram: 'Viva!' E eu só ouvi o barulho dos copos batendo.

Aí depois a Beth fez um bolo de morango com confete em cima, cantaram parabéns pra mim. Eu comi o bolo – repeti – e depois vim pra Casa Vida.

No domingo, eu almocei aquele arroz que coloca molho de tomate, ervilha, camarão. Tinha também peixe e salada de agrião.

Eu gosto do Dia das Crianças, do meu aniversário, do Ano Novo e do Natal. Não só por causa dos presentes. Por causa da festa também.

Terça-feira, dia 14 de outubro

Eu acordei às 8 horas, fui tomar café, escovei os dentes, fazer lição, minha madrinha veio pra fazer fisioterapia, depois eu brinquei um pouco, tomei banho, almocei, fui à escola, tomei lanche, entrei no carro, voltei para casa, me troquei, jantei, escovei meus dentes e fui assistir televisão e fui dormir às 9 horas.

Na hora do recreio, eu brinquei de polícia e ladrão. Tenho muitas amigas. Larissa, Bruna, Letícia, Letícia de Ieno, Thais, Marina, só. E Vinícius Novak. Eu era ladrão. Aqui eu também brinco bastante. A Paloma tem oito anos e faz aniversário dia 17 de outubro, sexta-feira. Eu fiz dia 16 de agosto. Teve festa, com coxinha, risole, refrigerantes, meus padrinhos vieram, os filhos dela.

Amanhã vou acordar cedo, vou tomar banho, vou tomar café, e vou ao médico no Hospital das Clínicas. A médica faz consulta comigo pra ver se eu estou boa, se eu tenho pneumonia, se eu estou tomando meus remédios direito. É muito importante. Se não cuidar direito, a gente pode ficar muito doente, pegar pneumonia, ficar internada no hospital e pode morrer. Mas eu me cuido direito.

Eu tenho um amigo, o Renan, que está no hospital internado com pneumonia.

A Jurema, a Mislene, o Daniel e a Fabiana, os quatro já faleceram. Eu tenho medo de ficar doente. Eu só conheci a Jurema. Um dia a gente foi a um sítio, nas férias. Ela foi na piscina, foi no trampolim. Aí nós chegamos aqui em casa, e a Jurema não estava muito boa, estava vomitando. O padre Júlio a levou no hospital, aí ela ficou internada e morreu.

Quinta-feira, dia 16 de outubro

Hoje eu ganhei um passeio. Nós fomos ao Sesc Interlagos. Eu brinquei bastante, fui no jacaré, que é um brinquedo em que você sobe e escorrega, na língua do jacaré. Eu tirei fotos, depois almocei arroz, feijão, purê e bife à role, com cenoura dentro.

Eu fui com a tia Zezinha. Foram todas as crianças da Casa Vida 1 e da Casa Vida 2, umas 15 crianças. Foi muito legal. Eu tomei sorvete. Teve um ônibus grande, nós entramos, e o tio deixou primeiro as crianças pequenas, da Casa Vida 1 e depois nós. Chegamos às 6 horas. Foi muito legal. Nós ganhamos esse passeio pra gente poder se divertir um pouco mais, em comemoração ao Dia das Crianças.

Aí eu voltei pra cá, tomei banho, jantei, assisti televisão e depois dormi.

Eu tomei sorvete de creme. As crianças aqui perguntaram se tinha piscina. Eu falei: tinha três. Eles perguntaram 'Por que vocês não foram?' Eu falei: 'Porque a gente não levou biquíni, e também porque estava frio'.

Sexta-feira, dia 17 de outubro

Eu acordei, tomei café, escovei meus dentes, fui para a sala de estudos, fiz lição, fui tomar banho, esperei a tia terminar de fazer o almoço, almocei, escovei meus dentes peguei a perua para ir à escola, depois eu voltei, lavei as mãos pra jantar, depois assisti televisão e fui dormir.

A gente acorda às 8h, mas às vezes tem psicóloga, fono, dentista e tem que acordar um mais cedo. A tia vem me acordar. De vez em quando ela tem que me chamar duas vezes. Às vezes ela fica brava.

Eu acho que vou crescer bastante, ficar alta, vou trabalhar, vou ganhar dinheiro e morar numa casa. Vou morar sozinha. Não sei se vou me casar.

Não gosto de levar bronca – mas eu não levo muita bronca. Não gosto de tomar remédio todo dia. Não gosto também de tomar injeção. Só quando eu vou ao médico, tem que fazer exame pra ver o que eu tenho. Se eu tiver pneumonia, eles falam: 'É melhor tratar em casa, se não sarar, volta no médico'.

Eu já fiquei internada. Tinha uma moça que gostava mais de mim do que dos outros. Ela só me dava balas. Para os outros, ela não dava. Aí depois eu estava dormindo percebi que minha veia estourou. Aí a médica falou que tinha que ir ver o que estava acontecendo. Eu fui, fiz escândalo que não queria, elas me seguraram as duas pernas, o braço e a cabeça. Doeu. Se a gente tem alguma doença e não trata, pode ficar pior ou até morrer se não tratar direito.

Eu sou diferente das outras meninas um pouco. Eu tomo remédio, vou ao médico. Eles não vão muito ao médico, só de vez em quando. Não pode ficar com o pé descalço, não pode fazer tatuagem, piercing, porque está dando muito problema. Tem uma menina aqui que quer colocar na sobrancelha, e o meu pai e a minha mãe não querem, porque pode dar infecção e até morrer.

Alguns amiguinhos na escola, parece que tem nojo da gente. Mas tem uns que não têm. A Vitória e o Mateus. Não têm medo. E nem nojo da gente. Eu fico triste. Eu reclamo com eles. Eu falo: não importa que a gente tem o HIV. O importante é que a gente está tomando o remédio pra sarar."

 
 
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