Ex-entregador de folhetos vê curso técnico como escada para medicina

  • 1 setembro 2014
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Edward Jean Lirani, cursando enfermagem no Pronatec | Crédito: BBC Brasil
Edward Lirani: 'Já fiz de tudo, mas meu sonho sempre foi atuar na área de saúde'

De distribuidor de panfletos no farol a cozinheiro e supervisor do serviço de atendimento telefônico de uma empresa: Edward Jean Lirani, de 25 anos, começou a trabalhar ainda quando cursava o ensino médio e diz que "fez de tudo".

"Pode-se dizer que era sempre fui um 'quebra galho'. Depois que terminei a escola não tinha condições de continuar os estudos – precisava conseguir meu próprio sustento", conta.

"Mas meu grande sonho sempre foi atuar na área de saúde", diz ele.

Edward conseguiu, com algum sufoco, a vaga no curso técnico de enfermagem do Pronatec, programa do governo que financia cursos profissionalizantes em entidades públicas e privadas.

Ficou com uma das últimas vagas na turma da Faculdade Anhanguera, em Campinas, após uma tentativa frustrada em outra instituição.

Agora, já pensa nos próximos passos: "Quero primeiro me especializar em acupuntura e depois, quando tiver alguma renda garantida, me dedicar aos estudos para entrar em uma faculdade de Medicina", diz.

Edward é um dos milhões de brasileiros que se inscreveram no Pronatec desde sua criação, em 2011. O programa é visto pelo governo como uma de suas principais armas para lidar com a escassez de técnicos ou trabalhadores com habilidades específicas e enfrentar a baixa produtividade da economia – e é uma das iniciativas de seu governo que tanto Marina Silva quanto Aécio Neves prometem manter e expandir se vencerem a eleição.

O desafio do ensino técnico no Brasil é o tema da segunda semana da cobertura especial de eleições da BBC Brasil. A falta de mão de obra qualificada foi um assunto destacado por leitores em uma consulta promovida pelo#salasocial - o projeto da BBC Brasil que usa as redes sociais como fonte de histórias originais - e apontado como um dos temas que deveriam receber mais atenção por parte dos candidatos presidenciais.

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'Medo de mexer no teclado'

Boa parte das 7,5 milhões de matrículas feitas no Pronatec desde 2011 são de alunos ou jovens recém-formados no ensino médio, que veem no curso uma possibilidade de entrar rapidamente no mercado em postos de alguma qualificação.

Laurenilcey Ribeiro
Laurenilcey Ribeiro (a esq), ao lado da colega Juliana Borges, 23, diz que 'no começo, foi difícil de acompanhar o curso. Mas entrei na era da informática e me dei conta de que vivia na caverna'

O governo já investiu R$ 14 bilhões patrocinando cursos técnicos e de qualificação em entidades do chamado sistema S (como Senai, Senac, Senar e Senat), faculdades particulares, escolas técnicas e institutos federais com o duplo objetivo de ajudar a impulsionar a produtividade do trabalhador brasileiro e promover a ascensão social e profissional dos estudantes.

Mas nas salas de aula não é difícil notar que a demanda está longe de se limitar a esse público.

Há desde donas de casa que veem no programa uma chance de voltar ao mercado até trabalhadores informais que sonham com uma nova vida após décadas ganhando pouco ou mesmo aposentados.

"O perfil é bastante variado e ainda estamos nos preparando para dar apoio para esse público que inclui pessoas que estavam fora da sala de aula há muito tempo", diz Paulo de Tarso, Diretor de Novos Negócios e Pós-graduação da Kroton Educacional, rede de instituições de ensino superior que já matriculou 58 mil alunos Pronatec.

"Na primeira chamada de inscrição para os cursos exige-se o Enem, então os alunos tendem a ser mais novos. Eles ocupam 40% das vagas. Mas nas chamadas seguintes não há esse requerimento - daí o grande contingente de alunos mais velhos e com diferentes perfis", completa Pedro Regazzo, que ajudou a implantar o Pronatec na Anhanguera Educacional.

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A maranhense Laurenilcey Ribeiro, de 47 anos, quando se inscreveu em um curso de 1.000 horas de Técnico em Informática (TI), "mal sabia o que era um mouse" e "tinha medo de mexer no teclado".

Laurenilcey passou mais de vinte anos como cozinheira em uma casa de família em São Paulo. Nunca teve computador e antes do curso não tinha ideia de como se fazia para acessar a internet.

"No começo foi difícil de acompanhar o curso. Mas entrei na era da informática e me dei conta de que vivia na caverna", diz a ex-cozinheira, que hoje trabalha numa rede de supermercados com atendimento ao cliente e também faz faculdade de Marketing.

Após um ano e meio, Lauernilcey é alguém que se poderia chamar para consertar um computador quebrado ou fazer trabalhos complexos de programação e análise de sistemas – como promete a descrição do curso de TI?

Aguinaldo Geraldo de Mello  Foto: Kroton
Aguinaldo Geraldo de Mello, de 76 anos: 'Há algum tempo havia me dado conta de que as coisas estavam mudando e eu precisava saber mais'

Quem sabe. Possivelmente não. Mas o próprio fato de ela não querer atuar na área levanta a questão de que talvez fosse melhor criar cursos mais ajustados a demandas como a dela, mais da linha da inclusão digital.

"Mas por outro lado, trata-se de uma brasileira que de fato tem mais condições de avançar na sua carreira e na conquista de sua cidadania – coisa difícil de se precificar", opina o economista Marcelo Manzano, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp.

'Precisava saber mais'

Rosaura Mondim, das Universidades QI, do Rio Grande do Sul, conta que na entidade há alguns estudantes no Pronatec de mais de 70 anos, "que às vezes parecem fazer o curso mais para ter uma ocupação e conviver com outras pessoas".

Mas esse não parece ser o caso do aposentado Aguinaldo Geraldo de Mello, de 76 anos, que frequenta o curso de técnico em eletro-eletrônica na Faculdade Anhanguera.

Apesar de ter se aposentado, Aguinaldo continuou fazendo trabalhos eventuais como rebobinador de motores elétricos para completar a renda.

Pelo Facebook, o Luiz Carlos Mathias compartilhou este relato

"Mas há algum tempo havia me dado conta de que as coisas estavam mudando e eu precisava saber mais. Estou consertando uma máquina de algodão-doce agora, por exemplo, que tem um circuito eletrônico, e disso eu ainda não sei muito", explica.

"Entrei nesse curso Pronatec para me atualizar e até já fui escolhido por meus colegas mais jovens para ser representante da turma."

Mas se alguns como Edward "seguem um sonho", nas salas de aula também não é raro encontrar alunos que não tinham muita informação sobre o curso ao se inscrever – o caso de uma das colegas de Laurenilcey na Faculdade Sumaré, a atendente de telemarketing Rosana Maria Brito, de 38 anos.

Rosana achou que o curso de técnico em TI lhe serviria para consertar o computador de casa, que estava quebrado.

Maireuleni Elvira Barreto: 'Passei a infância trabalhando na roça no Piauí e sempre tive o sonho de estudar alguma coisa'

"Li num jornalzinho que era gratuito e resolvi me matricular", disse ela.

"Quando me dei conta do que o curso era realmente fiquei em dúvida, mas decidi seguir porque acho que é algo que vai me ajudar a avançar na carreira."

Marieuleni Elvira Barreto, de 49 anos, diz que o curso de TI foi a oportunidade que esperava para voltar a estudar.

Pelo Facebook, Valter Dantas da Silvia disse que a paternidade do projeto não é algo fundamental

"Passei a infância trabalhando na roça no Piauí e sempre tive o sonho de estudar alguma coisa - direito talvez. Mas na minha época só estudava quem tinha condições."

Ela casou, teve quatro filhos e passou décadas trabalhando como faxineira diarista e cuidadora de idosos em São Paulo, até que seus filhos cresceram.

Quando começou a pensar em voltar para as salas de aula, encontrou o curso de TI. "Ele está me abrindo as portas de um mundo que não conhecia. É fantástico", diz.

Depois para e pensa um pouco: "Apesar de que o que eu gostaria mesmo era de fazer um técnico em nutrição. Para esse não achei vaga."

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