Especialistas nos EUA e França veem jato de Campos ‘invertido’ em vídeo

  • 21 agosto 2014
Local do acidente do avião que levava Eduardo Campos, em foto de 14 de agosto (Reuters)
É possível que, ao arremeter, o avião estivesse a uma velocidade baixa em relação ao peso, diz analista

O avião que transportava o candidato à presidência Eduardo Campos e seis outras pessoas pode ter voado "invertido", ou seja, "com a barriga para cima" antes de sofrer a queda, segundo alguns especialistas ouvidos pela BBC Brasil na França e nos Estados Unidos.

O avião Cessna Citation caiu em Santos, no litoral de São Paulo, no dia 13. A BBC Brasil pediu a especialistas em aviação para analisar o vídeo que mostra a aeronave ainda no céu, poucos segundos antes de sua queda.

O vídeo foi divulgado nesta semana por uma afiliada da TV Globo. As imagens do momento da queda foram filmadas por uma câmera instalada em um prédio em construção.

O especialista em aviação Jean Serrat, ex-piloto da Air France e ex-vice presidente do Sindicato Nacional dos Pilotos de Linha (SNPL) da França, acha que o avião estava invertido pouco antes da queda e ressalta que, se isso ocorreu, foi erro de pilotagem.

"É possível pensar que na hora de arremeter (procedimento em que o piloto, durante um pouso que não pode ser efetuado, decide voltar a subir) o avião estivesse a uma velocidade muito baixa em relação ao seu peso", diz Serrat.

"Isso ainda é mais acentuado se o piloto estiver fazendo uma curva para mudar a trajetória", diz Serrat. "Uma asa do avião pode ter perdido a sustentação, fazendo com que o avião virasse e ficasse em posição invertida, caindo de costas em alta velocidade", afirma o especialista, ressaltando que se trata de uma hipótese.

"Como a altitude era muito baixa, o piloto não tinha mais tempo para retomar o controle e fazer manobras para recuperar o voo", acrescenta o ex-piloto.

"Ou o piloto não fez os procedimentos corretos com o flat da asa ou não estava na velocidade adequada no momento de arremeter o avião. O avião caiu em grande velocidade e com ângulo de descida muito superior ao normal", acrescenta.

Para Gérard Arnoux, ex-presidente do Sindicato dos Pilotos da Air France (SPAF), que realizou investigações paralelas sobre o acidente com o voo Rio-Paris da companhia aérea, em 2009, o piloto do Cessna que transportava Campos "perdeu o controle" da aeronave.

"O avião caiu com uma inclinação muito forte e com velocidade muito elevada", diz Arnoux.

Mas diferentemente de outros especialistas ouvidos pela BBC Brasil, Arnoux diz não achar, ao observar as imagens do vídeo, que o avião estivesse invertido no momento da queda.

'Fora de controle'

Após assistir ao vídeo, o especialista americano Peter Goelz, ex-diretor da National Transportation Safety Board (NTSB), agência responsável pela investigação de acidentes aéreos nos EUA, também destacou o fato de o avião parecer estar invertido.

"Parece que o piloto perdeu completamente o controle", disse Goelz à BBC Brasil.

Ao comentar a hipótese de desorientação espacial do piloto, o americano diz que "é possível ocorrer", mas salienta que, "em um avião como o Citation, que tem sistemas de controle de voo muito sofisticados, é pouco provável que seja apenas isso, deve haver algo mais".

Segundo especialistas, desastres aéreos costumam ser resultado de um conjunto de fatores.

Apesar de ressaltar que é muito difícil, neste momento, determinar o que causou o acidente, Goelz acredita que os investigadores também irão concentrar sua atenção, entre outros fatores, sobre as condições meteorológicas na hora do desastre.

Pressão

O americano destaca que um dos fatores observados nesse tipo de acidente é a possível pressão sobre a tripulação para voar mesmo com mau tempo. Goelz lembra que houve nos EUA vários casos de acidentes aéreos com políticos eleitos ou candidatos em condições semelhantes.

Em 2000, o governador do Estado do Missouri, Mel Carnahan, morreu em um desastre aéreo durante sua campanha para o Senado. O avião, um Cessna pilotado pelo filho do candidato, caiu em uma área de floresta durante uma tempestade, matando as três pessoas a bordo.

Em 2002, o senador Paul Wellstone, de Minnesota, que buscava a reeleição, morreu 11 dias antes do pleito, em um acidente que matou outras sete pessoas, entre elas sua mulher e sua filha, também durante mau tempo.

"Como há um candidato ou autoridade eleita a bordo, e ele tem um compromisso, há maior pressão sobre a tripulação para completar o voo, completar a missão", afirma Goelz.

"Tenho certeza de que as pessoas (investigando o acidente no Brasil) estão preocupadas com isso. Que esta tripulação queria completar sua missão para o candidato. E com o tempo ruim. Em circunstâncias normais, sem o candidato no avião, talvez não o tivessem feito."

Técnicos americanos da NTSB, da Federal Aviation Administration (FAA), autoridade da aviação civil dos EUA e da Cessna, fabricante da aeronave, com sede nos EUA, foram enviados ao Brasil para auxiliar nas investigações. Também foram enviados técnicos do Canadá, país da fabricante do motor, a Pratt & Whitney Canada.

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