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Escolas, alunos e professores 'não falam mesma língua'

Atualizado em  25 de agosto, 2014 - 09:49 (Brasília) 12:49 GMT

Quando o assunto é a violência dentro das salas de aula, não parece haver consenso sobre suas principais causas.

Professores, diretores de escolas, alunos e especialistas em educação ouvidos pela reportagem da BBC Brasil apontam para direções diversas, sugerindo que agressões contra educadores seriam fruto do histórico familiar dos alunos, da falta de políticas públicas e policiamento e também de professores mal preparados - e até mesmo agressivos.

A violência em sala de aula contra professores foi um dos temas destacados por internautas em posts de Clique Facebook e no Clique Twitter como um dos que deveria receber mais atenção por parte dos candidatos presidenciais, em uma consulta promovida pelo #salasocial, o projeto da BBC Brasil que usa as redes sociais como fonte de histórias originais.

A pedido da BBC Brasil, internautas, entre eles professores, compartilharam, via Clique Facebook, Clique diferentes relatos sobre violência cometida contra profissionais de ensino. Houve também depoimentos feitos via Clique Google+ e Clique Twitter.

Enquanto ninguém fala a mesma língua, o Ministério da Educação (MEC) diz não ter dados unificados sobre a violência escolar.

Confrontado pela reportagem, porém, o INEP, órgão ligado ao ministério, reconheceu que o tema faz parte da Prova Brasil - avaliação nacional com respostas voluntárias de professores, alunos e diretores. Os últimos dados, de 2011, foram tabulados a pedido da BBC Brasil.

Os resultados apontam que um terço dos professores que responderam ao teste disse ter sido agredido verbalmente por alunos. Um em cada dez afirmou ter sofrido ameaças. Aproximadamente um a cada 50 apanhou de estudantes.

Violência nas escolas - Prova Brasil

PERGUNTAS PARA PROFESSORES

SIM TOTAL

Você foi ameaçado por algum aluno?

19.588 (9,6%)

223.253

Você foi agredido verbalmente por algum aluno?

73.857 (33%)

223.019

Você foi agredido fisicamente por algum aluno?

4.195 (1,9%)

224.991

"É simplista culpar crianças e adolescentes por tudo o que acontece", alerta a socióloga Miriam Abramovay, pesquisadora do tema com passagens pela Unesco, Banco Mundial e Unicef.

"A escola tem culpa, porque se isola das comunidades e não se atualiza. E os professores têm péssima formação, simplesmente não conseguem, e muitas vezes nem tentam, conquistar os alunos", diz. "No fim, todos são vítimas."

Descompasso

Para pesquisadora, a desvalorização do ensino resumiria este descompasso. "A estrutura das escolas parou no século 19, os professores dão aulas como no século 20 e os alunos, sempre conectados, vivem no século 21", diz.

Ela diz que as escolas vivem um "processo de abertura" há 50 anos.

"Se antes havia pouco espaço para as classes populares, hoje a escola se massificou. Todos entram - nem sempre continuam, mas entram. Mas a relação professor–aluno não mudou nada nesse meio tempo e os educadores não sabem lidar com esse novo interlocutor, que antes estava na rua, do lado de fora", diz.

Abramovay diz que a violência não é consequência direta do entorno. "Há escolas em bairros tremendamente violentos que têm resultados satisfatórios. E colégios particulares, ricos, com problemas enormes", observa.

Rosane Gomes foi uma das professoras que contou via redes sociais ter sofrido agressão de alunos

A pesquisadora aponta o trabalho participativo, envolvendo pais e alunos na construção de regras e do currículo escolar, como caminho para reduzir a resistência e a agressividade.

"Os muros das escolas não são simbólicos", afirma. "Eles são reais, ninguém penetra ali. Assim, a escola não é nem protegida, nem protetora", diz.

Clique Leia mais: 'Professores reclamam mais do medo que do salário', diz psiquiatra

O educador Jorge Werthein, presidente da Unesco no Brasil entre 1996 e 2005, também diz que a escola "precisa ser acolhedora" e critica a formação dos colegas.

"Diferente do médico, que faz residência, a maioria dos professores que se forma não tem nenhuma experiência em sala. Só pisam lá no primeiro dia, encontram coisas que nunca viveram e não sabem lidar", diz.

Para Wherthein, os educadores precisam se dar conta "da violência que eles próprios exercem sobre os alunos".

"Perseguição, homofobia e exageros nas repreensões" seriam exemplos. "Outra agressão simbólica é o abismo tecnológico que existe entre professores e alunos", diz.Clique

Celular

Com um olho no smartphone e outro no repórter, os alunos entrevistados parecem concordar com a avaliação.

"Parece que eles vivem fora do tempo. O professor pede para a gente copiar a lição do quadro, mas eu podia tirar uma foto com o celular e prestar atenção no que ele diz", reclamou uma estudante da 8º ano de uma escola em Diadema, ao sul de São Paulo.

A seu lado, espinhas no rosto e sorriso tímido, um adolescente do ensino médio completa. "Sei que celular pode atrapalhar. Não é para usar Facebook e Whatsapp na aula. Mas quando ajuda, por que não, né?", questiona.

Pelo Twitter, @leogomes também se posicionou sobre o tema

Eles reconhecem que as agressões são constantes.

"Na semana passada a professora chamou a atenção de um aluno bagunceiro e ele perguntou se ela não tinha medo de morrer. Ela deu risada e continuou passando a lição", contou uma estudante do 1º ano do ensino médio.

"Tem brigas combinadas também. Os alunos fingem estar dando porrada para o professor vir separar e apanhar também", completou.

Professores ouvidos pela reportagem disseram que a escola, hoje, seria "um espaço de conflito".

Clique Leia mais em: Professora tenta suicídio duas vezes após agressões consecutivas de alunos

"Os professores não são santos que caíram do céu e vêm educar com toda a candura. Sempre que passo pelo pátio me chamam de vagabunda. O educador tenta legitimar a sua autoridade, não consegue, e aí revida", disse uma ex-professora da rede pública, que não quis se identificar.

Eleições

Para Wherthein, é uma tradição que a violência contra professores e alunos não faça parte da agenda dos principais candidatos a cargos políticos.

"A agenda da educação é genérica. 'A educação é importante'... 'Vamos aumentar os investimentos e a carga horária'... 'País bom é país educado'. Nunca nada é objetivo", critica.

O pesquisador afirma que o cotidiano das escolas, ponto crucial na discussão, passa à margem do discurso político.

"Educação e segurança estão sempre no topo das preocupações do eleitorado. Mas os candidatos não entenderam que há cruzamento entre estes temas. Num país como o Brasil, com taxas de morte tão altas (somos um país sem guerra), os conflitos são resolvidos sempre de forma violenta. Dentro da escola inclusive. Então a violência na escola não é algo que vem só da vizinhança, das famílias, é algo que faz parte da nossa sociedade e aparece em todos os setores", diz.

Wherthein diz que uma "nova cultura da solução não-violenta de conflitos" deve ser construída dentro das escolas.

"O caminho não é, portanto, aumentar os mecanismos de repressão, mas aumentar a prevenção por meio da educação e da disseminação de uma cultura pacífica. Escolas e universidades têm que discutir violência! Só assim se transforma as coisas - e essa responsabilidade está nas mãos dos candidatos", afirma.

Comentários

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    Número do comentário 24.

    Também é simplista achar que o problema é só o mau preparo dos professores. Há professores com uma ótima formação, que querem dar aula e praticamente têm que implorar para a sala deixá-lo trabalhar. É simplista querer que o professor dê conta sozinho de questões que vão além da função dele, que é ensinar o conteúdo pertinente à série que os alunos estão. Se os pais não dão conta dos seus filhos como esperar que o professor sozinho dê conta de várias questões de 30, 40 alunos em 50 minutos? É simplista e injusto exigir isso dos professores. Vale lembrar também que não estamos falando apenas de "crianças". Muitas situações de agressões partem de alunos de ensino médio e do EJA, ou seja, de alunos que estão em uma faixa etária que já é capaz de ter discernir o que é certo do que é errado.

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    Número do comentário 23.

    Este tipo de noticiário poderia focar os diferentes tipos de desempenho para diferentes escolas. Quais as características das escolas cujos alunos lhes conferem um desempenho melhor nos processos de avaliação existentes, inclusive em relação à violência. Os casos de violência individuais são relevantes considerar sem dúvida porém quais são as melhores práticas que evitam essa violência?

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    Número do comentário 22.

    Acho uma tremenda bobagem esse negócio de dizer que o professor tem que conquistar o aluno. Hoje mais do que nunca a informação de qualquer tipo ai aí para quem quiser usufruir dela e ao aluno cabe ter consciência de que a escola deveria ser respeitada pelo que representa no futuro de muita gente e ao governo deveria adotar a tolerância zero para indisciplina. Tenho certeza que a situação se resolveria, lugar de marginal é em instituto correcional.

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    Número do comentário 21.

    O que é tido como violência na escola tem duas origens: A) nasce no lar, na casa, e cresce na escola; B) nasce na escola e lá se agiganta. Os culpados: A) no primeiro caso, os pais; B) no segundo caso, os pais e a escola. Este o grande drama da Escola Pública, principalmente: A grande maioria dos pais abandonaram seus filhos. Abandonaram quando perderam a noção da grandeza, (única) que é aprender. Abandonaram quando não expõe à escola as falhas do sistema. A Escola pública, é violenta, desrespeitosa, humilhante. Mas os pais, antes de tudo os pais. Sem que os pais acordem, voltem a ter noção da grandeza que é o saber..... não terá governo que possa fazer nada..... daí...... ou a morte prematura ou a cadeia........ que é o que se está vendo.
    Leia mais em: http://zip.net/btppHy

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    Número do comentário 20.

    Saí do magistério no dia em que fui ameaçado de morte. Sempre fui dedicado aos alunos e à escola, mas existe uma diferença de valores. O aluno quer o diploma. E meu intuito nunca foi só esse. Só que a gente precisa se adequar ao que a sociedade diz que é necessário. Neste caso, meu desejo de ensinar estava fora dos padrões. O deslocado era eu e, por isso, caí fora. Sugiro aos colegas que façam o mesmo. E mais: sugiro aos jovens que escolham outra profissão.

 

Comentários 5 de 24

 

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