Entenda: Ajuda humanitária russa à Ucrânia é um 'cavalo de Troia'?

  • 12 agosto 2014
Comboio russo (Reuters)

A decisão da Rússia de enviar ao leste da Ucrânia um grande comboio de caminhões com ajuda humanitária – incluindo alimentos e remédios - foi recebida com suspeitas, já que o país vem sendo acusado de apoiar os rebeldes separatistas que lutam contra o governo ucraniano nesta região.

A ajuda foi enviada principalmente para a cidade de Lugansk, onde viviam 425 mil pessoas antes do início do conflito entre os rebeldes e as forças fiéis a Kiev, em abril. Atualmente controlada pelos rebeldes, a cidade ucraniana está sob ataque do exército ucraniano.

A Ucrânia estabeleceu, entre as condições para aceitar a ajuda russa, que os 280 caminhões com ajuda humanitária passem por um posto de controle do governo ucraniano e sejam acompanhados por representantes da Cruz Vermelha.

As autoridades russas insistem que os veículos vão parar na fronteira entre a Rússia e a Ucrânia e toda a carga será transferida à Cruz Vermelha, que então entregará a ajuda aos que necessitem do lado ucraniano.

A Cruz Vermelha, porém, disse que ainda está esperando que Moscou forneça detalhes sobre os suprimentos que estão sendo enviados pela Rússia

A BBC Brasil preparou uma série de perguntas e respostas para ajudar você a entender a decisão russa de enviar ajuda humanitária ao país:

Quão grave é a situação em Lugansk?

Nas palavras do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, a situação na cidade e em outras áreas controladas por rebeldes é "crítica - segundo relatos, milhares de pessoas estão sem acesso a água, eletricidade ou auxílio médico".

Em 11 de agosto, os habitantes remanescentes de Lugansk completaram nove dias de "isolamento total". As linhas de telefone fixas e celulares não estão funcionando, segundo informou a Prefeitura em seu site (em russo).

Os bombardeios continuam, e a maioria das lojas estão fechadas. Comida, medicamentos e combustível não chegam à cidade. Os caminhões de lixo foram danificados por bombas, afetando a coleta.

Refugiados (AP)
Cerca de 300 mil pessoas tiveram que deixar suas casas por causa do conflito

Empresas não conseguem pagar os salários de seus funcionários. As pessoas também não estão recebendo pensões e benefícios sociais.

Atualmente, a temperatura gira em torno de 30ºC durante o dia, o que agrava a situação dos moradores, que não têm acesso a água ou a energia para usar ar condicionados.

Muitos dos que viviam lá buscaram refúgio em outras partes da Ucrânia ou na fronteira com a Rússia, fazendo com que a população da cidade fosse reduzida para 250 mil pessoas, segundo a Prefeitura.

Quantas vidas foram perdidas ou afetadas no conflito até agora?

Ao menos 1.543 pessoas foram mortas no leste do país desde meados de abril, o que inclui civis, militares e membros de grupos armados rebeldes, segundo informou a ONU em 9 de agosto.

Outros 4.396 ficaram ferados, "mas o número provavelmente é muito maior".

Exército ucraniano (BBC)
O conflito entre o Exército ucraniano e rebeldes já dura quatro meses

A Ucrânia disse que 468 de seus soldados foram mortos. Em seu lado, os rebeldes contabilizam mais 800 mortes.

Quase 300 mil pessoas tiveram que deixar suas casas, de acordo com a agência de refugiados da ONU.

Cerca de 117 mil ainda permanecem na Ucrânia, das quais 87% fugiram de Donetsk e Luhansk. Outras 168 mil cruzaram a fronteira com a Rússia.

O que a Rússia está enviando à Ucrânia?

A mídia russa diz que os 280 caminhões russos carregam 2 mil toneladas de materiais de ajuda humanitária e que a Cruz Vermelha os receberá na fronteira entre os dois países.

"Nossos caminhões não cruzararão a fronteira. A carga será transferida", disse o ministro de Emergências à BBC News. "Mas ainda não se sabe como isso ocorrerá. Não cabe a nós decidir, mas à Cruz Vermelha. Estamos apenas acompanhando a carga."

Comboio russo (Reuters)
Comboio de 280 caminhões levará entre dois e três dias para chegar à fronteira

A ajuda vem de doações de habitantes da região de Moscou, segundo o governo regional da capital russa, e inclui:

  • 400 toneladas de cereais
  • 100 toneladas de açúcar
  • 62 toneladas de comida para bebê
  • 54 toneladas de itens médicos e remédios
  • 12 mil de sacos de dormir
  • 69 geradores

O blogueiro Rustem Adagamov disse, após analisar as fotos do comboio humanitário, que se trata do "mais estranho" que ele já viu. Ele destacou que os caminhões sairam de uma base militar próxima à Moscou, em Alabino, sem qualquer identificação e com motoristas que aparentemente vestiam uniformes militares.

No entanto, Adagamov disse acreditar que o comboio de fato leva ajuda humanitária, apesar de ele considerar que isso seja "mais uma demonstração de força" da Rússia.

O que diz a Cruz Vermelha?

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha concordou em distribuir a ajuda humanitária desde que detalhes fossem fornecidos antecipadamente. Também deixou claro que não aceitará uma escolta armada.

Abrigo em Donetsk (Reuters)
Quem ficou em Donetsk precisa se refugiar em abrigos para se proteger das bombas

No entanto, o comunidado feito pela Cruz Vermelha mal tinha sido divulgado quando o comboio russo começou sua viagem, que deve levar entre dois e três dias.

Um porta-voz da Cruz Vermelha, Andre Loersch, disse que a organização havia chegado a um acordo em termos gerais sobre a entrega da ajuda humanitária à região, mas não tinha "informações sobre o conteúdo" dos caminhões e não sabia para onde estavam indo.

"Neste ponto, não temos um acordo", ele disse, segundo a agência de notícias AP.

A ajuda humanitária pode ser um cavalo de troia russo?

A Rússia tinha enviado até recentemente 20 mil soldados à fronteira com a Ucrânia. Diante disso, o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, disse à Reuters acreditar que há uma "grande probabilidade" de uma intervenção militar russa.

"Vemos os russos criando os pretextos para uma operação como essa sob o disfarce de ajuda humanitária, e vemos um aumento da presença militar que poderia ser usada para realizar operações ilegais na Ucrânia", ele disse.

O ministro francês de Relações Exteriores, Laurent Fabius, alertou que o comboio pode ser um "disfarce para os russos se instalarem próximo a Lugansk e Donetsk".

Por que a Rússia iria querer enviar tropas à Ucrânia?

Há tempos, a Rússia é acusada de encorajar os separatistas e fornecer armas e voluntários a eles. Um sistema de disparo de mísseis para abater aeronaves fornecido pela Rússia é apontado como a razão do voo MH17, da Malaysia Airlines, ter caído no leste da Ucrânia em julho, com a morte de 298 pessoas.

Com o Exército ucraniano ganhando terreno sobre os rebeldes e os encurralando em cidades como Donetsk e Luhansk, parece não haver momento melhor do que agora para uma ação militar russa.

Não seria a primeira vez que tropas russas fariam uma intervenção na Ucrânia, mas a anexação da Crimeia, em março, praticamente não teve derramamento de sangue, enquanto as guerras no leste do país já tiraram ao menos 1,5 mil vidas desde abril.

O que diz o Kremlin?

Um porta-voz do Kremlin disse ao correspondente da BBC Steve Rosenberg que tanto a Cruz Vermelha quando as autoridades em Kiev concordaram com o envio do comboio.

O secretário de imprensa do governo russo, Dmitry Peskov, disse à mídia russa que a ideia de que uma operação militar disfarçada é "absurda".

Os ucranianos estão de acordo?

Autoridades do país disseram que não permitirão que qualquer comboio acompanho por equipes russas entre em seu território.

Foi sugerido que companhias de transporte locais sejam usadas para pegar a carga na fronteira.

O ex-presidente ucraniano Leonid Kuchma disse à agência Interax que a rota do comboio foi acordada, entrando na Ucrânia por Kharkiv, que está fora da zona de guerra, e seguindo para Luhansk.

A ajuda, ele disse, seria entregue sob a supervisão da Cruz Vermelha, e o comboio seria acompanhado por representantes da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE, na sigla em inglês). Também haveria ajudas enviadas pela Ucrânia, União Européia e pelos Estados Unidos.

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