O conflito em Gaza pode estar no fim, mas não há vencedores

  • 5 agosto 2014
Confronto atual pode ser apenas mais um episódio do conflito e se repetir nos próximos meses

Nem de longe é possível afirmar, a essa altura, que a atual trégua que predomina no conflito entre israelenses e palestinos significa o fim desta guerra.

De fato, na falta de qualquer mudança fundamental nas circunstâncias que envolvem a vida dos palestinos na Faixa de Gaza, os choques atuais podem ser apenas isso: um episódio deste conflito brutal – que irá se repetir nos próximos meses ou anos.

Já está claro que não houve vencedores. O número de mortes entre os palestinos tem sido denunciado ao redor do mundo como desproporcional. Israel vem argumentando que muitos foguetes do Hamas estão estocados em áreas habitadas e dizendo que tem se esforçado para reduzir o número de vítimas civis.

Mas atingir alvos em uma área densamente povoada com o poder de fogo da aviação e da artilharia moderna é uma atividade que não permite erros. O número de instalações da ONU atingidas levanta dúvidas sobre as margens de erro e a habilidade de responder ao fogo de maneira discriminada.

Em termos militares há lições claras para ambos os lados. O Hamas e outros grupos palestinos claramente aprenderam com seus choques anteriores com forças israelenses.

Seus combatentes foram bem treinados e preparados. Sua arma tradicional – foguetes de longo alcance – se provou muito menos efetivo do que seus usuários imaginaram, dada a performance do sistema de defesa aérea Iron Dome.

Esse sistema emergiu como uma grande história de sucesso. Entretanto, há críticos que levantam dúvidas sobre sua taxa de sucesso. Além disso, alguns foguetes fabricados pelo Hamas podem ser muito menos poderosos do que se imagina. Acredita-se que alguns deles tenham parte de sua carga explosiva removida para reduzir o peso e aumentar o alcance da arma.

Desorganizar o país

Os ataques com foguetes causaram um reduzido número de baixas. A maior parte delas foi causada por ataques de morteiro de curta distância perto da fronteira com Gaza. Mas o maior impacto dos foguetes, como sempre, é desorganizar o país – tornando a vida normal complicada com população sempre correndo para abrigos antiaéreos.

O Iron Dome cumpriu seu trabalho não apenas atingindo foguetes antes deles atingirem o solo, mas também reduzindo o número de vítimas ao ter retardado a ofensiva terrestre.

Além disso o Hamas conseguiu manter um ritmo intermitente de ataques com foguetes ao longo do conflito apesar da ofensiva da artilharia e da aviação israelense.

A inteligência de Israel estima que mais de 3.300 foguetes foram disparados em direção ao país. As Forças de Defesa de Israel afirmam que cerca de 3.000 foram destruídos e que outros 3.000 ainda estejam estocados em Gaza.

Mas a reposição desse estoque deve ser complicada devido à hostilidade do governo Egípcio, na fronteira com Gaza, e ao fato de que muitos locais de fabricação foram destruídos.

O Hamas inovou nesta campanha usando túneis (e também pequenas unidades de combatentes que atacam a partir do mar) para se infiltrar em Israel. Foi a interceptação de um desses grupos de combate que emergiu de um desses túneis no meio de julho que foi usada para justificar a invasão terrestre da faixa de Gaza – operação cujo maior objetivo, diz Israel, é destruir o máximo possível de túneis.

E Israel descobriu a um alto custo que os túneis não eram usados apenas para ataques além das fronteiras de Gaza, mas também para defender o território contra os assaltos israelenses. Eles formam uma grande rede de corredores subterrâneos, com múltiplos acessos.

Erros

Inevitavelmente houve erros na ação de Israel. Analistas criticaram por exemplo o uso de blindados de transporte de tropas M-113, considerados ultrapassados e vulneráveis – um dos quais foi destruído ocasionando elevado número de mortes.

Mas os túneis parecem ter causado os maiores problemas de Israel. Eles não eram uma surpresa e as tropas chegaram rápido a muitos que já haviam sido identificados pela inteligência israelense.

O problema foi que as forças israelenses não entenderam o significado de tão ampla rede de túneis e treinaram pouco para lidar com ela. A maior parte das baixas do lado israelense ocorreu em áreas densamente construídas, em choques com combatentes palestinos emergindo de esconderijos e em seguida desaparecendo no subsolo.

Um analista israelense ligou a questão dos túneis com o desafio imposto por mísseis antitanque egípcios que devastaram os blindados israelenses nos primeiros estágios da guerra de 1973. Israel sabia daquelas armas, viu os egípcios treinando com elas, mas não compreendeu seu significado operacional mais amplo.

O Hamas claramente aprendeu lições da última incursão israelense na Faixa de Gaza. Israel pensou que essa seria uma reedição da última incursão, que foi rápida e teve poucas baixas. As mais de 60 mortes de combatentes são significantes, dada a cultura militar israelense e inevitavelmente haverá questionamentos sobre a campanha.

Conflitos como o de Gaza são frequentemente descritos como assimétricos no sentido em que lidam com adversários que possuem grandes diferenças de habilidades e poder de fogo. Mas também há algo muito assimétrico nos objetivos dessa operação.

Poder de fogo

Para o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, os alvos eram essencialmente táticos: para atingir um cenário de calma e neutralizar o máximo possível de túneis. Ele foi criticado por supostamente não ter visão estratégica e sinalizar para os líderes palestinos que o objetivo da operação não era a derrota do Hamas.

Israel está aprendendo rápido que a utilidade de um alto poder de fogo em um conflito assimétrico é circunscrita – especialmente quando a infraestrutura militar do oponente está enterrada em áreas civis e a reputação do país está sendo julgada internacionalmente.

Já o Hamas sacrificou equipamento militar acumulado com esforço por anos (túneis e foguetes) para tentar acertar um alvo mais estratégico. O grupo desejava alterar a situação em Gaza e acabar com o que entende ser um cerco contínuo a seu território.

O Hamas sabia que essa estratégia poderia causar várias vítimas civis e talvez esperasse que a opinião pública internacional parasse a ofensiva israelense mais cedo.

Poucos atores regionais parecem estar dispostos a assumir riscos pela paz nos atuais dramas em Gaza, na Síria e no Iraque. E há um desgaste amplo com a região que fez um comentarista americano comparar a situação no Oriente Médio com a da Europa na Guerra dos Trinta Anos.