Esquartejamento de jovem gera polêmica sobre relações familiares no Japão

  • 28 julho 2014
AFP
Crime chocou opinião pública e atraiu atenção da mídia

Uma garota de 16 anos do ensino médio foi presa pela polícia de Sasebo, na província de Nagasaki, ao sul do Japão, por suspeita de matar e desmembrar uma colega de classe.

O caso chocou a opinião pública, chamou a atenção da imprensa japonesa, foi destaque no noticiário internacional e acendeu uma discussão no país sobre as relações familiares e o papel dos pais na criação dos filhos. A adolescente morava sozinha em um apartamento pago pelo pai.

Segundo a polícia, a estudante usou um objeto de metal para desferir inúmeros golpes contra a cabeça da amiga Aiwa Matsuo. Depois, estrangulou-a com uma corda.

A suspeita, então, teria decepado a cabeça da vítima e também uma das mãos. O caso aconteceu na noite de sábado e o cadáver foi encontrado na madrugada do domingo, dia 27, pela polícia.

Os pais de Aiwa ficaram preocupados com o sumiço da filha, que havia enviado uma mensagem logo após as 19 horas locais dizendo que já estava voltando para casa.

A vítima foi encontrada estendida sobre uma cama no apartamento da suspeita. Perto do local estavam os acessórios que foram usados para espancar e cortar o corpo da vítima.

Debate

A garota presa vivia sozinha em um apartamento desde abril passado. O pai dela, que vive na mesma cidade, se casou novamente neste ano após a morte da mulher no ano passado.

O fato teria revoltado a garota, que decidiu morar sozinha. O lugar onde vivia estava alugado em nome do pai.

Um crime poderia ter sido evitado caso a garota não vivesse tão isolada e solitária, dizem acreditar os especialistas ouvidos pela BBC Brasil.

"Essa relação familiar nos choca e o fato de uma garota viver sozinha em um apartamento é muito triste e impressiona", disse a advogada Sayo Saruta, que divulgou recentemente uma pesquisa com crianças abandonadas pelos pais que vivem em instituições do governo japonês.

Para Sayo, as pessoas hoje vivem mais isoladas, e mesmo parentes mais próximos às vezes ficam de mãos atadas diante de dilemas familiares.

Para a psicóloga Neusa Emiko Miyata, que desenvolveu pesquisas na área de psicologia clínica pela Universidade de Kyoto e Universidade Tsukuba, o fato de os japoneses darem prioridade ao trabalho acaba enfraquecendo o núcleo familiar.

"O pai, mesmo sabendo que era o responsável pela menor, a deixou viver sem nenhum aparo ou atenção de um adulto."

A psicóloga afirma que, atualmente, poucas famílias mantêm o costume de jantar junto, o que faz que a família perca a oportunidade de trocar ideias e conversar sobre problemas. "Além disso, hoje não há mais aquela integração com os vizinhos e a e impressão é de que as pessoas evitam o contato", lamentou.

Sayo tem a mesma opinião. "São poucos os vizinhos que sabem, por exemplo, que eu tenho um bebê", falou.

O caso

Segundo uma agência de notícias de Kyoto, a adolescente disse à polícia que fez tudo "sozinha". A polícia investiga os motivos que teriam levado a jovem a praticar o crime. Diversos outros ferimentos foram encontrados no corpo da vítima.

Em entrevista à rede de televisão pública NHK, o diretor da escola onde as duas estudavam disse que elas, aparentemente, não tinham problemas de relacionamento.

A escola realizou uma reunião extraordinária com todos os estudantes nesta segunda-feira, dia 28 de julho, e pediu aos alunos para "pensarem novamente sobre o valor de uma vida humana".

Dez anos atrás, um crime semelhante abalou a mesma cidade, quando uma estudante de 11 anos esfaqueou uma amiga de 12 até a morte.

Naquele caso, a garota disse que agiu porque a vítima teria feito comentários sobre sua aparência em bate-papo na internet.