Ofensiva em Gaza já fez 100 mil buscarem ajuda da ONU; entenda conflito

  • 21 julho 2014
Menino é atendido por paramédicos após bombardeio de hospital em Gaza (Reuters)
A maioria das mais de 500 vítimas no atual conflito na Faixa de Gaza são civis, segundo a ONU

A agência da ONU para refugiados palestinos anunciou nesta segunda-feira que mais de 100 mil pessoas já foram forçadas a deixar suas casas na Faixa de Gaza e procuraram a ajuda das Nações Unidas desde o início da atual ofensiva israelense no território.

Segundo o porta-voz da agência, Chris Gunness, esse número representa o dobro do registrado da última ofensiva israelense em Gaza, de cinco anos atrás.

Em visita ao Egito, o secretário-geral da ONU, Bank Ki-moon, pediu um fim imediato e incondicional do conflito em Gaza. Ban teve um encontro com o ministro egípcio das Relações Exteriores para discutir o tema.

O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, se reuniu no Catar com o líder político do Hamas (facção palestina que controla Gaza), Khaled Meshaal, para discutir propostas de cessar-fogo.

Por sua vez, Ismail Haniyeh, chefe do Hamas em Gaza, disse que um cessar-fogo só será aceito se Israel der fim ao bloqueio de sete anos à fronteira com Gaza. "Gaza decidiu acabar com o bloqueio com seu sangue e sua coragem”, disse ele em discurso na TV nesta segunda-feira.

Hospital

Também nesta segunda-feira, pelo menos cinco pessoas morreram e 70 ficaram feridas em um ataque israelense em um hospital na Faixa de Gaza. Segundo médicos, diversas bombas disparadas por tanques de Israel atingiram a recepção, a unidade de tratamento intensivo e as salas de cirurgia do hospital.

Na noite anterior, mais de 30 membros de duas famílias palestinas morreram em ataques israelenses, segundo autoridades de Saúde de Gaza.

O último domingo foi o dia mais sangrento até agora, com mais de cem palestinos e 13 soldados israelenses mortos em um ataque ao distrito de Shejaiya em Gaza, que Israel disse ser um "reduto do terror".

As duas semanas de confrontos já tomaram a vida de mais de 550 pessoas do lado palestino.

Do lado de Israel, sete soldados foram mortos, elevando o número total de vítimas militares para 25. Dois civis israelenses também morreram na fase mais recente do conflito na região.

Israel diz ter matado 170 militantes desde quinta-feira, quando lançou sua ofensiva por terra em Gaza para impedir que novos foguetes sejam lançados a partir da região.

A BBC compilou uma série de perguntas para ajudar você a entender melhor o que está acontecendo no território palestino.

Por que sempre há um conflito em Gaza?

Mulher em Gaza (EPA)
O Hamas aponta a ocupação de parte de Gaza por Israel como a razão dos seus ataques

Localizada entre Israel e o Egito, a Faixa de Gaza foi ocupada por israelenses em 1967, na Guerra dos Seis Dias. As tropas de Israel só deixaram a área em 2005. No entanto, Israel ainda controla a maioria das fronteiras, espaços áereos e marítimos de Gaza e restringiu a circulação de pessoas e bens por considerar isso vital para sua segurança. Palestinos se dizem confinados e afirmam passar por dificuldades sócio-econômicas por causa desse controle, algo que é condenado pelo Hamas, o movimento islâmico palestino dominante que aponta a ocupação permanente do leste de Gaza e de Jerusalém como o motivo dos ataques realizados antes e depois de 2005.

O que levou ao mais recente conflito?

Adolescentes israelenses (BBC)
A morte de três adolescentes em junho passou foi o estompim do atual conflito

Os ataques começaram depois do sequestro e da morte de três adolescentes israelenses em junho. Israel culpou o Hamas, algo que o grupo negou, e iniciou ataques ao grupo no leste de Gaza. A tensão cresceu ainda mais depois da morte de um adolescente palestino em Jerusalém no dia 2 de Julho, que seria uma vingança pelas mortes dos três israelenses. Os dois lados passaram a se atacar deste então. Em 8 de julho, Israel lançou uma operação por terra para impedir que novos foguetes fossem lançados de Gaza em direção ao país.

Quais são os objetivos de cada lado do conflito?

Domo de ferro (AFP)
Israel tenta conter os ataques de foguetes lançados a partir da Faixa de Gaza

Israel diz que sua ofensiva tem como objetivo interromper o lançamento de foguetes a partir de Gaza e destruir a rede de túneis entre a região e Israel usados por militantes em ataques contra o país. O Hamas diz que só aceitará uma trégua se Israel der fim à “todas as agressões” e ao bloqueio à Gaza, se comprometer com o cessar-fogo de 2012, parar com o que considera “sabotagem” do atual governo palestino e libertar prisioneiros que foram detidos de novo recentemente.

Se já houve dois cessar-fogo, porque o conflito continua?

Egito negocia trégua (AFP)
O Egito tenta intermediar uma trégua entre Israel e o Hamas em Gaza

Os esforços por um cessar-fogo têm enfrentado dificuldades – o primeiro foi proposto pelo Egito oito dias após o início do conflito e foi aceito por Israel, mas não pelo Hamas, que o considerou não um plano de trégua, mas de “rendição”. O segundo foi apenas temporário para que civis pudessem estocar suprimentos em Gaza. Assim que seu prazo acabou, as hostilidades foram retomadas.

Como terminaram as guerras travadas anteriormente?

Homenagem às vítimas de Gaza em Tóquio (AP)
Há anos, os conflitos na Faixa de Gaza geram comoção ao redor do mundo

Israel lançou uma ofensiva por terra em dezembro de 2008 em resposta ao lançamento de foguetes a partir de Gaza. O conflito acabou 22 dias depois, quando Israel declarou um cessar-fogo unilateral por "ter atingido seus objetivos". Cerca de 1,3 mil palestinos foram mortos, muitos deles civis. Treze israelenses também morreram, quatro soldados entre eles. Quatro anos depois, Israel lançou outra ofensiva, novamente com a missão de interromper o lançamento de foguetes a partir de Gaza. Oito dias após o início da operação, o Egito negociou uma trégua. Ao menos 167 palestinos e seis isaraelenses morream.

Quanto o conflito atual acabará?

Tanques de Israel (Reuters)
A ofensiva por terra de Israel pode ser apenas o começo de uma invasão em larga escala

Israel disse que sua ofensiva, lançada após dez dias de ataques aéreos, só acabará quando a segurança e a tranquilidade dos israelenses for restaurada. O Hamas diz que continuará a lutar. Israel afirma que essa operação será concentrada na região de fronteira, mas também pode estar testando as defesas do Hamas antes de realizar uma invasão de maior escala. O ministro de Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, disse que só a reocupação de Gaza porá fim ao lançamento de foguetes a partir da região. Se isso for aceito, Israel pode ficar em Gaza por um longo tempo.