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No Mundial do Futebol de Rua, jogadores fazem as regras

9 julho 2014 Atualizado pela última vez 11:57 (Brasília) 14:57 GMT

Se um dos assuntos polêmicos da Copa tem sido o padrão de arbitragem, esse problema não deve ocorrer em outro Mundial de futebol sendo disputado em São Paulo - o Mundial de Futebol de Rua, onde, quem faz as regras são os jogadores, logo antes de entrar em campo.

O torneio, que está sendo realizado em São Paulo até o dia 11 de julho, reúne jovens de 20 países, que jogam segundo um método de "três tempos", criado pelo ex-jogador argentino Fabian Ferraro.

O "1º tempo" consiste numa rápida discussão sobre as regras, o "2º tempo" é o da bola rolando, o da partida em si, e o "3º" ocorre após o jogo, uma espécie de debate sobre os acertos e erros de cada equipe - debate que também define o vencedor, levando em conta vários fatores, entre eles, claro, quem fez mais gols.

"Isso desenvolve nos jovens a capacidade de argumentação, de defender seus pontos de vista", disse à BBC Brasil Eleilson Leite, coordenador da ONG Ação Educativa - que implanta a metodologia no Brasil - e coordenador-executivo do Mundial de Rua.

"Há um estranhamento deles com o 'sentar para definir regras', porque todo mundo acha que já sabe tudo sobre futebol. Mas com o passar do tempo, eles passam a se sentir empoderados porque definem as regras."

Os debates muitas vezes duram mais que o tempo de bola rolando, que em geral é de 20 minutos. Mas o empenho dos jogadores é o mesmo.

Jogadores chilenos e uruguaios debatem após jogo | Foto: BBC Brasil
Discussões depois dos jogos decidem quem foi o time mais respeitoso em campo

"Estávamos acostumados com o futebol normal, em que as regras já estão prontas e a gente sabe. Mas discutir as regras depois é bom, porque a gente descobre o que fizemos de certo e de errado", disse Ishaq Munaya, jogadora de Gana, à BBC Brasil.

Meninos e meninas

A maioria dos jogadores, que têm entre 16 e 21 anos, vem de bairros e comunidades de baixa renda de suas cidades. Suas passagens para o Brasil foram pagas por uma combinação de patrocínios, doações de governos locais e de ONGs.

Hospedados em Centros Educacionais Unificados (CEUs) em bairros da periferia de São Paulo, eles dizem ter feito amizades entre si e com as crianças e adolescentes brasileiros que frequentam os centros. "Nos demos bem com os brasileiros, apesar da barreira do idioma. Nós nos comunicamos fazendo sinais, então está tudo bem", diz Ishaq.

Na capital paulista, Eleilson Leite diz que os jovens resistiram ao método argentino de futebol de rua no início - uma das regras é que meninos e meninas jogam juntos, sem distinção.

"Primeiro eles não aceitavam, depois foram condescendentes com as meninas. Depois, com o desenvolvimento, eles passaram a ficar no mesmo patamar. Quando chegamos nesse equilíbrio de gênero, as coisas avançam muito mais", afirma Leite.

Para os jogadores de outros países, o preconceito inicial com meninas que jogam futebol também foi uma barreira a ser vencida. "É diferente de tudo. Era muito difícil, porque estava acostumado a jogar só com homens e nos entendíamos em tudo. E estar com as meninas e apoiá-las era mais complicado, porque não falamos com elas no campo como falamos com homens", diz o argentino Franco Rodríguez.

"Agora eu acho melhor (jogar com mulheres). Me sinto mais confortável, sei que as meninas sabem jogar tanto quanto os homens."

*Colaborou Paula Idoeta.

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