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Entrevistador 'mais temido' da Grã-Bretanha deixa programa com piada

Atualizado em  19 de junho, 2014 - 11:28 (Brasília) 14:28 GMT
Jeremy Paxman apresenta sua última edição do programa Newsnight (BBC)

Ame ou odeie, Paxman virou uma instituição britânica à frente do Newsnight

O ensinamento maquiavélico de que é melhor ser temido que amado, concebido para os príncipes, pode ser útil para os jornalistas que cobrem o mundo político.

Na Grã-Bretanha, nenhum o aplicou melhor que o âncora da BBC Jeremy Paxman, considerado uma instituição nacional da polêmica. Ele deixou na quarta-feira os holofotes de seu programa noturno após 25 anos na função.

Descrito como "inquisidor-chefe", "interrogador", "bully", "grosso", "destemido", Paxman, 63, acirrou ânimos, paixões e antipatias em ferozes entrevistas no programa Newsnight, que vai ao ar diariamente, durante os dias de semana, às 22h30 na BBC.

Alguns embates viraram clássicos, como a ocasião em 1997 quando repetiu 12 vezes a mesma pergunta ao então ministro do Interior, Michael Howard.

Paxman também surpreendeu o ex-primeiro ministro britânico Tony Blair ao perguntar se ele e o ex-presidente americano George W. Bush, aliados na invasão do Iraque em 2003, rezavam juntos.

"Ele (Blair) sabia que se Jeremy era o entrevistador, tinha de colocar um pouco mais de trabalho na entrevista", disse à BBC o ex-diretor de comunicações de Blair, Alastair Campbell.

"Um ministro que fosse ser entrevistado sem pensar muito bem nas perguntas, nas respostas, nas coisas que podiam sair errado – e como eles lidariam com elas –, podia ter problemas logo de cara."

'Paródia de si'

Para os críticos, entretanto, Paxman havia virado uma paródia de si mesmo – um elemento do establishment que ele criticava.

Seu desdém pela classe política era capaz de transmitir arrogância. O apresentador era acusado de desnecessariamente pegar pesado em entrevistas, independente do tamanho do "peixe" entrevistado.

Em seu embate mais citado, ele confrontou o então ministro do Interior, Michael Howard, sobre a demissão do então diretor do serviço penitenciário britânico, Derek Lewis, após a divulgação de um relatório oficial crítico ao órgão.

Durante a conversa, o ministro hesitou em responder se havia "ameaçado passar por cima" de seu subalterno para demitir o diretor de uma prisão de onde três presos de alto risco haviam escapado.

Sem obter uma resposta direta, Paxman não se intimidou e repetiu a pergunta 12 vezes - por cima das respostas do entrevistado.

Howard voltou ao Newsnight na quarta-feira e Paxman fez referência ao episódio: "Michael Howard, você ameaçou?", perguntou o apresentador. Ao que o outro respondeu, irônico: "Não, Jeremy, mas fique à vontade para perguntar outras 11 vezes".

Em seu último programa, o âncora recebeu o ex-braço direito de Blair, Peter Mandelson, a quem perguntou se o ex-premiê havia ficado "um pouco pirado".

Também conversou com o prefeito de Londres, Boris Johnson – político conservador de imagem excêntrica porém dinâmica – na sela de uma bicicleta dupla.

Nas estreitas vias londrinas, Johnson, que introduziu o sistema de bicicletas compartilhadas na cidade, disse que queria mostrar a Paxman que pedalar na capital britânica é "um deleite".

Paxman fez piada, afirmando que tinha coberto zonas de guerra mais perigosas que a experiência.

Ao final, o prefeito disse que "muita gente vai ficar triste de vê-lo partir", porque o apresentador "mantinha a nação divertida – se não acordada – por muitos, muitos anos".

O episódio foi visto por 1,1 milhão de telespectadores.

'Dormir em hora normal'

Paxman continuará apresentando um programa de entretenimento na BBC e estará envolvido em documentários.

Ele disse que deixa o Newsnight porque pretende "dormir na mesma hora que todo mundo".

Ao final do programa, o âncora também apresentou uma de suas sarcásticas previsões do tempo, que se tornaram uma de suas marcas registradas.

A tradição de fazer um segmento "sem a bobagem costumeira sobre nuvens se formando e conselhos para usar meias de lã" nasceu da má vontade do apresentador de incluir o tempo em um programa de reportagens e entrevistas.

Nesta quinta-feira, disse Paxman na noite anterior, o tempo na Grã-Bretanha seria "mais do mesmo".

"Não sei porque eles fazem tanto rebuliço em relação a isso", murmurou, deixando o canto da tela.

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