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Duas visões para a paz se enfrentam nas urnas da Colômbia

Atualizado em  15 de junho, 2014 - 14:29 (Brasília) 17:29 GMT
AP

Zuluaga (esq.) e Santos têm visões diferentes para a paz na Colômbia

O segundo turno da eleição presidencial da Colômbia é uma disputa entre duas visões sobre como poderá ser a paz no país e não uma escolha entre a guerra e a paz, segundo o ex-vice-ministro de Defesa Rafael Guarín.

Com uma abstenção de quase 60%, Óscar Iván Zuluaga, candidato do partido Centro Democrático e que tem o apoio do ex-presidente Álvaro Uribe, obteve 29,26% dos votos, enquanto que o atual presidente, Juan Manuel Santos, conseguiu 25,68%, o que levou a este segundo turno.

Guarín ocupou o cargo durante a gestão do atual presidente e concorrente à reeleição Juan Manuel Santos, mas agora apoia Óscar Iván Zuluaga.

"Os colombianos querem a paz. Mas Santos está querendo transformar as eleições em uma espécie de referendo sobre o tema, quando uma eleição é, fundamentalmente, uma oportunidade para que (...) os cidadãos avaliem a gestão (do presidente)", disse à BBC Mundo.

O analista, que está muito próximo da campanha de Zuluaga, reconhece que o tema das negociações com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), iniciadas por Santos em novembro de 2012, é o que separa mais claramente estes dois antigos companheiros de gabinetes.

E, sem dúvida, esta diferença também é que pode ter mais consequências para o futuro do país.

Efetivamente o conflito armado colombiano já dura mais de 50 anos e durante este tempo causou mais de 220 mil mortes e levou milhões de pessoas a abandonar suas casas.

'Vingança X reconciliação'

Santos, candidato da coalizão União Nacional, representa a continuidade do processo de paz com as Farc e também poderia significar a extensão deste processo ao Exército de Libertação Nacional (ELN), a segunda maior guerrilha do país.

Reuters

Em 50 anos de conflito, mais de 220 mil pessoas morreram

Zuluaga inicialmente havia dito que daria fim às conversas. Mas agora afirma que o governo deve seguir em frente com elas caso as Farc aceitem certas condições como um cessar-fogo unilateral "imediato e verificável" e a suspensão de "suas atividades terroristas".

Mas muitos dos que apoiam a reeleição de Santos, velhos simpatizantes e aliados de última hora, parecem estar convencidos que as condições impostas por Zuluaga são nada mais do que uma estratégia para acabar com as negociações.

Santos tem insistido neste ponto, apresentando as eleições deste domingo como uma escolha entre "o fim da guerra e a guerra sem fim".

O analista Jorge Restrepo, diretor do Centro de Recursos para a Análise de Conflitos (CERAC), acredita que os eleitores colombianos encaram uma escolha entre visões da paz.

"Zuluaga interpreta a necessidade de uma boa parte do eleitorado colombiano, que é a necessidade de vingar as atrocidades cometidas pelas Farc", afirmou o analista à BBC Mundo.

"Ele oferece esta resposta vingativa, uma paz que parte do castigo, em contraste com Juan Manuel Santos, que oferece uma resposta muito mais de reconciliação e negociação", disse.

A diferença se expressa, principalmente, sobre os temas de Justiça e a participação política da guerrilha. Nestes temas, Zuluaga representa melhor aos que querem prisão para os líderes das Farc, e não uma cadeira no Congresso.

Santos, enquanto isso, é mais partidário de garantir os direitos das vítimas e também a reinserção dos rebeldes na sociedade.

E como garantia que não haverá impunidade, o atual presidente se comprometeu a fazer com que o eventual acordo final com a guerrilha seja ratificado com os colombianos através de uma nova votação.

Riscos e possibilidades

AFP

Negociações de paz com as Farc começaram em novembro de 2012

Segundo Restrepo, o caminho proposto e já iniciado por Santos é muito mais aceitável para a guerrilha e poderia oferecer resultados mais rápidos, desde que o acordo seja admissível para a maioria da população.

Enquanto que o caminho representado por Zuluaga está cheio de riscos, pois suas opiniões poderiam acrescentar tensão à negociação até chegar ao ponto de crise, segundo o analista.

Mas, de acordo com o diretor do CERAC, se Zuluaga conseguir impor sua visão o resultado provavelmente seria uma paz mais sustentável pois seria uma paz apoiada pelos mais fortes críticos da atual negociação.

"Óscar Iván Zuluaga representa uma boa parte do eleitorado colombiano que ainda não teve suas reivindicações atendidas no processo de paz, as pessoas próximas das forças militares e que entendem uma uma solução de força como uma possibilidade viável para encerrar o conflito", disse.

A opinião de Rafael Guarín é parecida.

"Zuluaga é o verdadeiro representante do principal oponente das Farc (...) E os que podem dar mais segurança política de que os acordos serão cumpridos são os oponentes", afirmou.

"Enquanto que se é Santos que chega a um acordo com as Farc, (...) teríamos um alto grau de impunidade, a insegurança política e jurídica do processo", disse.

Uribismo

Nem todos acreditam que a corrente política do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, o uribismo representado por Zuluaga, é o melhor para acabar com o conflito com a guerrilha.

AFP

A abstenção dos eleitores chegou a 60% no primeiro turno

A esta corrente se somaram aqueles que se beneficiaram pelo conflito. E aí também estão os sinais de violação dos direitos humanos e vínculos com os grupos paramilitares que mancharam a política de "segurança democrática" do influente ex-presidente.

Durante a campanha, Juan Manuel Santos insinuou várias vezes que seu antigo chefe, Álvaro Uribe, tem medo que a verdade seja revelada com a paz.

A sombra de Uribe na campanha de Zuluaga é tão grande que Marcela Prieto, diretora do Instituto de Ciência Política Hernán Echavarría Olózaga, a coloca no centro da decisão que os colombianos tomarão neste domingo.

"Acredito que esta eleição se concentra ou no medo das Farc ou no medo de Álvaro Uribe. Não é nem a favor de Santos por sua política de paz, nem a favor de Óscar Iván Zuluaga por seu outro modelo de paz", afirmou.

Uma coisa é certa: quem quer que vença, terá que governar um país tremendamente polarizado, sem contar com uma ampla maioria. E isso também poderia complicar as possibilidade de paz.

A não ser que os eleitores ausentes no primeiro turno, mais de 60%, decidam comparecer neste domingo e tornar mais claro o caminho que o país deverá seguir.

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