Fantasma de 50 é uruguaio, não do Brasil, diz diretor de filme sobre 'Maracanazo'

  • 14 junho 2014
Obdulio Varela (esq.) (Getty)
Obdulio Varela (esq.) foi o capitão do Uruguai e um dos principais personagens na final de 1950

O futebol brasileiro nunca mais foi o mesmo depois do fatídico dia 16 de julho de 1950. A "tragédia" da derrota no Maracanã por 2 a 1 para o Uruguai na final da primeira Copa do Mundo sediada no Brasil ainda assombra o subconsciente dos brasileiros. É o "fantasma uruguaio", que condenou para sempre os "culpados" por aquele "vexame" diante de mais de 200 mil pessoas.

Só que o "fantasma uruguaio" não assombra só os brasileiros. Para Andrés Varela, diretor do recém-lançado filme Maracaná – primeiro documentário uruguaio sobre a Copa de 1950 –, o "fantasma" mesmo existe muito mais do lado de lá do que do lado de cá.

"Somos nós o fantasma do Maracanã, é para nós que ele existe, não é para o Brasil. Para nós, o fantasma do Maracanã é o fantasma do ‘inalcançável’", disse à BBC Brasil.

O excesso das aspas se justifica: está se falando de algo criado, que nunca existiu na realidade. O Maracanazo - o apelido brasileiro dado à tragédia não anunciada de 1950 – se tornou um mito, tanto no Brasil, onde é visto como o fantasma da tragédia, quanto no Uruguai, onde é interpretado como o fantasma do sucesso inatingível.

"Todo mundo conhece a história toda do Maracanã, mas nunca viram o que realmente aconteceu", pontuou o diretor, que se debruçou por mais de três anos na história da Copa de 1950 até encontrar imagens inéditas para remontar, em forma de filme, o que até então era só um "conto", que se passava de geração para geração.

"É uma história incrível. Com personagens muito profundos, com vilões que não são maus. O bem e o mal se confundem no filme, porque não há maus e bons nesse caso, há protagonistas e antagonistas que vão por caminhos diferentes", ressaltou. "As pessoas vão conhecer a história toda, então para nós, é uma história incrível que há 64 anos nunca se achava."

Vitória prejudicial

O documentário tem 75 minutos e conta a história da Copa do Mundo de 1950 com entrevistas inéditas dos principais personagens daquela final, como o uruguaio Alcides Ghiggia, autor do gol que deu a vitória ao Uruguai, o goleiro brasileiro Barbosa, "condenado" por décadas por não ter defendido o fatídico chute, entre outros.

Até hoje muitos no Brasil ainda comentam a final em 1950 e discutem seu impacto. Com o segundo mundial no Brasil, agora temem a repetição da derrota na final.

O "fantasma" daquele Mundial foi até tema da propaganda da marca de material esportivo que patrocina a seleção uruguaia. Assim que o time celeste garantiu vaga na Copa de 2014, a empresa lançou o comercial com um "fantasma" vestido com a camisa uruguaia perambulando pelas ruas do Brasil.

Para os uruguaios, por refletir o ápice de uma conquista que jamais irá se repetir, a vitória em 1950 cria um estigma de "derrotado", por nunca poder alcançar aquele sucesso novamente.

Varela explica que trata-se do "sonho do máximo onde se pode chegar. Para a sociedade uruguaia é como o inalcançável, algo que em 64 anos nunca mais aconteceu. É como ter o grande amor da sua vida e sempre estar esperando o melhor, mas nunca chegar ao melhor."

"A transmissão de conhecimento de valores que transmitem desde a escola na sua casa, o Maracanã é a primeira coisa que seus avós te transmitem, mesmo que não tenham visto. O grande problema é que já passou, estão na maioria mortos agora, então o que se quer transmitir com isso? Valores morais? Ideais?", questionou.

Por tudo isso, para o diretor do filme Maracaná, a vitória do Uruguai naquela Copa do Mundo não foi exatamente benéfica para o país. "Creio que para o Uruguai, como sociedade, a vitória não foi positiva. Somos nós o fantasma do Maracanã."

'Maracaná' no Brasil

O filme sobre a Copa de 1950 produzido por Andrés Varela e Sabastián Bednarik foi programado para ser lançado em um período estratégico: pouco antes da Copa do Mundo deste ano, quando o Mundial volta a ser disputado no Brasil. Mas por aqui, quem tiver interesse em ver o documentário no cinema, terá que esperar mais.

De acordo com Andrés Varela, as distribuidoras brasileiras têm um certo receio de colocar o filme em cartaz agora e fizeram uma proposta para exibi-lo somente a partir de julho (depois da Copa).

"As distribuidoras não querem que estreemos tão perto do Mundial, têm certo medo de que o tema não caia bem. Dizem que é complicadíssimo, que o tema é complicado nessa época", esclareceu o diretor.

Se o "medo" das distribuidoras era de que o povo brasileiro reagisse mal a um filme contando a história do Maracanazo sob a perspectiva uruguaia, as primeiras exibições do longa em solo nacional provam o contrário. Exibido como uma das principais atrações do Cinefoot – festival de cinema sobre futebol que aconteceu nas últimas semanas em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte -, Maracaná foi muito aplaudido pelo público.

Em São Paulo, o filme foi exibido no Museu do Futebol abrindo o Cinefoot na última quinta-feira. A primeira reação ouvida na plateia provou que o "fantasma" ainda está no ar: "Por favor, mostrem esse filme na Granja Comary" – onde a seleção brasileira está concentrada durante a Copa do Mundo.

O filme sobre a "tragédia de 1950" já tem acordo para ser exibido em oito países, além do Uruguai - México, Japão, Estados Unidos, Colômbia, França, Canadá, Estados Unidos, Argentina. Ele também está sendo negociado no Brasil, mas ainda sem data de estreia.

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