BBC navigation

Tim Vickery: Chegou a hora da onça beber água!

Atualizado em  12 de junho, 2014 - 08:12 (Brasília) 11:12 GMT

Falta pouco para o Brasil entrar em campo

Está na hora da onça beber água!

Acabo de realizar um sonho, porque sempre quis começar uma coluna com essa frase, que me fascinava tanto quando me mudei para o Brasil, 20 anos atrás.

Logicamente, felinos selvagens tinham pouca presença na minha infância, passada nos arredores de Londres, e portanto a frase não fez sentido para mim de imediato. A partir do contexto, logo compreendi que se tratava da hora H, o momento decisivo. Mas foram anos até descobrir por quê.

Quando a onça vai beber água, a gente descobre quem tem coragem de matar a sede junto.

Raramente vejo a frase em uso estes dias. Talvez faça menos sentido no Brasil contemporâneo (da mesma forma, imagino que "caiu a ficha" vai cair no esquecimento daqui a pouco, porque cada vez mais gente está crescendo em um país onde não se usa ficha para fazer ligações).

Mas a frase continua válida, como um exemplo da riqueza do vocabulário futebolístico no Brasil, e também como uma forma de manter contato com essa tradição.

A Copa do Mundo, igualmente, é uma forma de estabelecer contato com a tradição. Amantes do jogo medem as suas vidas em Copas do Mundo. O jogo de abertura de 2014 vai me transportar 40 anos para o passado, quando vivenciei a competição pela primeira vez.

Eu tinha acabado de fazer nove anos, e estava fascinado com tudo que dizia respeito ao torneio. Colecionava álbuns de figurinhas e achava nos mapas os países de onde vinham os jogadores.

Era uma pesquisa importante. Eu nunca tinha viajado para fora do meu país. Nem meus pais. A França parecia tão distante quanto a lua. O resto do planeta era um conceito abstrato. O futebol, a Copa do Mundo, tornava tudo concreto.

Eu era capaz inclusive de soletrar Tchecoslováquia – conhecimento dispensável hoje em dia, mas vital naquela época. Você tinha de saber soletrar o nome de um país que tinha alcançado duas finais da Copa do Mundo!

Ansiosamente, contei os dias para a abertura dos jogos de 1974, realizados na Alemanha Ocidental. O primeiro jogo era Brasil contra Iugoslávia. Meu pai me enchera de histórias sobre como o Brasil tinha ido bem nas copas passadas. Ele me contou tudo sobre a maravilhosa jogada de meio de campo de Clodoaldo (que infelizmente estava lesionado e não participou do torneio), as cobranças de falta atômicas de Rivelino, a força física e a ameaça constante de Jairzinho.

Valdomiro, Rivelino, Jairzinho e Piaza (sentado), astros da seleção de 1974  (Foto: Rob Mieremet/ Anefo/ Arquivo Nacional Holandês)

Valdomiro, Rivelino, Jairzinho e Piaza (sentado), astros da seleção de 1974

Depois de tanta promessa, quando a bola finalmente rolou o Brasil foi uma certa decepção. Nunca assisti novamente àquela partida, mas minhas memórias são de que a Iugoslávia jogou um pouco melhor no empate de 0 a 0.

Apesar do placar, não consigo lembrar de nenhum sentimento de anticlímax de minha parte ou entre os meus amigos. Todos achamos que tínhamos assistido a uma coisa importante, especial, e estávamos inspirados para botar uma bola debaixo do braço e sair para jogar no parque.

Alguns entre nós queriam 'ser' Valdomiro, o ponta-direito do Brasil que nos impressionou, assim como o lateral esquerdo Marinho Chagas (que morreu recentemente. Na época, a TV inglesa se referia a ele por Francisco Marinho. Levei anos para entender que essa não era a sua verdadeira identidade brasileira.)

Outros queriam 'ser' Acimovic, da Iugoslávia, que, pelo que lembro, teve um papel importante na partida. Quem quer que fosse que quiséssemos nos tornar, estávamos de acordo em uma coisa: todos queríamos um dia estar ali de verdade, jogando pelo nosso país em uma partida de Copa do Mundo.

Nunca aconteceu para nenhum de nós, mas não tem problema. Foi o suficiente para incutir aqueles sonhos nas nossas mentes cada vez que jogávamos futebol.

País surgido a partir da fragmentação da Iugoslávia, Croácia é primeiro adversário do Brasil

Hoje, 40 anos depois, é o Brasil contra a Croácia – um dos países que sucederam a Iugoslávia pós-fragmentação. Tudo parece muito apropriado, principalmente porque agora – no que pareceria além de qualquer sonho possível em 1974 – vivo e trabalho no Brasil.

Quando a equipe de Luiz Felipe Scolari se alinhar em campo para enfrentar os croatas, algo dentro de mim, estou certo, me transportará de volta à criança de nove anos de idade que ainda existe em algum lugar dentro de mim – um processo inteiramente saudável que a Copa do Mundo de 2014 está me permitindo vivenciar.

Mal posso esperar. Acho que estou ficando com mais sede do que aquela onça.

Comentários

 posting

Seja o primeiro a comentar

Leia mais sobre esse assunto

Tópicos relacionados

BBC © 2014 A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos.

Esta página é melhor visualizada em um navegador atualizado e que permita o uso de linguagens de estilo (CSS). Com seu navegador atual, embora você seja capaz de ver o conteúdo da página, não poderá enxergar todos os recursos que ela apresenta. Sugerimos que você instale um navegados mais atualizado, compatível com a tecnologia.